Próxima guerra com os EUA será curta, mas devastadora, acredita analista iraniano em meio ao aumento das tensões
Em Teerã e em Washington, a expectativa é a mesma: uma nova rodada da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã pode começar logo depois das eleições legislativas estadunidenses desta terça-feira (3). No sábado (31), o Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, reuniu-se pela primeira vez com o alto comando das Forças Armadas e ordenou que qualquer ameaça receba resposta “imediata, eficaz e sem limitação geográfica”, segundo o Tehran Times.
Em Washington, o próprio establishment duvida do plano. Segundo o jornal Financial Times, citando ex-chefes militares estadunidenses em anonimato, nenhuma das opções de ataque derrubaria o governo iraniano.
Foi para debater esses pontos que o analista iraniano Seyed Mostafa Khoshcheshm, especialista em diplomacia pública, recebeu o Brasil de Fato em Teerã, em meados de outubro. Nas quase duas horas de entrevista, ele não economizou previsões. “Será uma guerra mais curta do que a anterior, do lado americano, mas muito mais forte”, disse. “Desta vez, o Irã acha que não deve haver limites e vai tentar impor o maior custo possível aos Estados Unidos”.
Para Khoshcheshm, Donald Trump perdeu a arma que sempre usou. “Ele sempre venceu os adversários pela escalada, a tática do louco. Nesta rodada, perdeu essa carta. Agora é o Irã que abraça a escalada para pôr fim a tudo“. A resposta iraniana, avisa, levaria a guerra ao oceano Índico e a “países que nunca imaginariam”, com mísseis e drones que o Irã ainda não usou.
A explicação, porém, não está nos arsenais, e sim na fé. O analista iraniano conta que, no seu bairro, no leste de Teerã, os moradores diziam diante das casas bombardeadas: “Isto não é nada perto do que Hussein passou”. Neto do profeta Maomé, o Imam Hussein foi morto em 680, em Karbala, no atual Iraque, com um punhado de companheiros diante de um exército muito maior e seu martírio é o coração da identidade xiita. Para Khoshcheshm, é essa a chave que o Ocidente nunca entendeu.
Leia a seguir a primeira parte da entrevista:
Seyed Mostafa Khoshcheshm: Donald Trump nem sempre pensa de forma sóbria ou estratégica, então ele pode atacar até antes da eleição, mas é muito mais provável que o faça depois, sobretudo se perder. O mais provável é que ele perca a Câmara. Nesse caso, como os deputados atuais continuam no cargo por mais dois meses, ele provavelmente atacará no fim de novembro ou no início de dezembro.
Acredito que será uma guerra mais curta do que a anterior, do lado americano, mas muito mais forte. Seja qual for o ataque, guerra total, assassinatos seletivos ou ataques pontuais, a resposta iraniana será uma guerra total, que vai se estender muito além da região, além do Iêmen, de Bab al-Mandab [estreito entre o Iêmen e o Chifre da África, porta de entrada do mar Vermelho] e do próprio Eixo da Resistência [aliança regional liderada pelo Irã, com o Hezbollah libanês, o Ansarullah iemenita, milícias iraquianas e grupos palestinos]. O Irã está decidido a pôr fim a esta guerra. Haverá uma terceira rodada, talvez nos próximos um ou dois meses, e será a última. Um dos lados vai se impor e encerrar tudo.
Em que fase está a guerra agora?
Tivemos várias fases. A primeira foi a da decapitação, o ataque inicial americano, que fracassou. Depois veio a fase do segundo golpe, a resposta iraniana. Então veio o Acordo de Islamabad [o cessar-fogo de abril de 2026, negociado com mediação do Paquistão], que abriu a terceira fase, a da resistência econômica e política dos dois lados. Agora começamos a quarta: os dois lados estão se preparando para a última rodada, uma guerra muito sangrenta.
Cada lado quer decidir três coisas. A primeira é quando a guerra começa. A segunda é onde ela será travada: os Estados Unidos querem limitá-la ao Irã, e o Irã quer ampliá-la. A terceira coisa é saber a que custo.
Quando o senhor diz “além da região”, pode ser, por exemplo, a base estadunidense de Diego Garcia, no arquipélago de Chagos, no oceano Índico, ou até a Europa?
Não posso dizer isso, mas posso dizer que eles vão se surpreender ao ver o Irã em lugares onde nunca esteve. Serão obrigados a combater o Irã no Oceano Índico, em mares distantes, em países que nunca imaginariam. O Irã vai usar ao máximo o que tem, inclusive as últimas gerações de mísseis e drones, que ainda não usou de forma ampla, só em testes.
E há o custo. Nas guerras anteriores, a de 12 dias [junho de 2025] e a de 40 dias [de fevereiro a abril de 2026], o Irã quis controlar a escalada, com respostas que não fossem dolorosas o bastante para provocar uma guerra mais ampla. Desta vez, o Irã acha que não deve haver limites, e vai tentar impor o maior custo possível aos Estados Unidos.
Os Estados Unidos sabem disso. Eles não toleram, por exemplo, o fechamento total de Bab al-Mandab, que hoje está fechado só para navios sauditas. Se trouxerem britânicos e franceses, que prometeram participar de operações defensivas, acredito que eles não virão para Ormuz, mas vão se posicionar em torno de Bab al-Mandab para defender a energia saudita. Se fizerem isso, Bab al-Mandab será fechado pelos próprios iemenitas, que hoje são mais capazes do que nunca, depois das vitórias recentes.
O Irã avisou que, desta vez, suas respostas serão desproporcionais. Quando você atinge um petroleiro, toma muito cuidado para não matar os marinheiros, porque o objetivo é só tirar o navio de rota. Numa guerra total, não se pode garantir nada. Haverá muito sangue.
Donald Trump sempre venceu os adversários pela escalada, a tática do louco. Nesta rodada, ele perdeu essa carta. Agora é o Irã que abraça a escalada para pôr fim a tudo. Até algumas semanas atrás, sempre que o Irã atacava navios que tentavam cruzar o estreito ilegalmente, havia resposta americana. Há semanas o Irã pune petroleiros, e os Estados Unidos não respondem. Isso mostra que eles não querem uma escalada rumo ao desconhecido. Será uma guerra mais curta também porque os Estados Unidos já não têm munição. Mas será devastadora.
Depende do ponto de vista. Segundo Scott Bessent [secretário do Tesouro dos EUA], já íamos entrar em colapso ontem, e não entramos. O Irã está sob sanções há quatro ou cinco décadas e aprendeu a contorná-las, às vezes em silêncio, às vezes fazendo barulho de propósito.
O Irã é um país enorme, com 80 a 90 milhões de habitantes, e faz fronteira com 15 países, nove deles por terra. Não se cerca de verdade um país assim. Desde que o cerco começou, depois do Acordo de Islamabad, o Irã tomou muitas iniciativas para ativar suas fronteiras terrestres, com o Paquistão, o Afeganistão, o Azerbaijão, o Turcomenistão, a Rússia, a Turquia e o Iraque. O transporte ferroviário e rodoviário avançou e ainda não se usou todo esse potencial.
Inclusive a ferrovia que vem direto da China.
Exatamente. Isso não quer dizer que não haja dor. As sanções doem, mas os iranianos aprenderam a suportá-la e a seguir com a vida normal. Basta olhar as ruas de Teerã: as pessoas fazem compras, vão às lojas. Dignitários estrangeiros, europeus, vêm aqui e se surpreendem. Um alemão disse às nossas autoridades que não entendia como a vida seguia normal, porque a imagem que eles têm de um país em guerra é a do sul do Líbano, da Síria, de Gaza.
A inflação é alta, a guerra tem custos, ninguém nega. Mas esta guerra elevou o limiar de tolerância dos iranianos e os ajudou a deixar de lado as diferenças. Diante de uma ameaça estrangeira, algumas nações se dividem e caem. Outras se unem em torno da bandeira, como o povo faz aqui toda noite. Nas noites em que lançamos mísseis, as ruas ficam muito mais cheias.
Os iranianos têm 7 mil anos de civilização e 2,5 mil anos de império. Passaram pela invasão mongol, pela invasão e ocupação árabe, e sabem suportar e revidar. O Irã tem várias cartas que ainda não jogou, enquanto os Estados Unidos jogaram todas: ataques cibernéticos, assassinatos, bombardeios, a morte de generais, líderes e cientistas, o bombardeio de cidades e até de escolas, como a de Minab [cidade da província de Hormozgan, no sul do Irã]. Por isso, os iranianos acreditam que uma terceira rodada seria boa para eles: encerraria a história, e eles venceriam. Essa crença ajuda a suportar a dificuldade econômica.
Estive aqui em novembro do ano passado e noto que as pessoas estão muito mais confiantes agora. Naquela época, tinham sobrevivido à guerra de 12 dias, mas a economia ia mal, e em dezembro houve protestos, de início legítimos, reconhecidos pelo próprio Líder [o aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo de 1989 até ser morto no ataque de fevereiro de 2026], e depois capturados pelo Ocidente e pelos sionistas. A situação hoje é mais complicada, mas as pessoas dizem: “Vamos sobreviver, os dirigentes sabem o que fazer”. Por quê?
Porque passaram por duas guerras seguidas. Na primeira perderam seus principais generais, e na segunda, a de 40 dias, perderam o líder. Às vezes, perder o líder faz um povo desmoronar e se render, esse era exatamente o plano de Donald Trump. Outras vezes, isso mobiliza o povo a exigir reparação, e foi o que aconteceu no segundo e no terceiro dia. O martírio do líder foi um choque, mas, em vez de ficarem passivos, os iranianos saíram às ruas exigindo justiça pelo seu sangue, e continuam.
Isso tem raiz na ideologia iraniana. Se você analisar só a política e a economia, como faria com qualquer outro país, o Irã deveria ter caído entre o primeiro e o quinto dia da guerra de 12 dias do ano passado, ou da guerra de 40 dias deste ano. Não caiu por causa de duas vertentes ideológicas. A primeira é o islã xiita e a história do Imam Hussein [neto do profeta Maomé e terceiro imã dos xiitas] em Karbala [batalha de 680, no atual Iraque, em que Hussein e seus companheiros foram mortos pelo exército do califa]. A segunda é a identidade iraniana: basta olhar os mitos iranianos para ver que muitos iranianos já eram assim há dois mil anos, antes do islã. Por isso abraçaram o xiismo e o Imam Hussein com tanto calor: é a mesma coisa.

Que mitos são esses, e como eles se encontram com a cultura xiita e com a história de Hussein?
A história do Imam Hussein tem um papel mais forte na resistência iraniana, é claro. Mas, antes dela, a civilização iraniana teve altos e baixos, e havia mitos que os iranianos adoravam. Um deles é Ariobarzanes (Ariobarzan, na forma persa; o nome que usamos em português vem do grego).
Os iranianos se orgulhavam das vitórias, do império, de ter tido meio mundo. Mas por que Ariobarzanes? Porque ele é um herói do tempo da derrota. Quando Alexandre [o Grande, rei da Macedônia, que conquistou o Império Persa entre 334 e 330 a.C.] enfrentou o exército aquemênida [da dinastia fundada por Ciro, o Grande] e os iranianos perderam a guerra, houve um comandante que não tinha perdido nenhuma batalha. Ele recebeu ordem de recuar porque todo o exército tinha sido derrotado. Os outros foram para o centro do Irã, para a província de Fars. Ele, não: foi para o oeste.
Para invadir o Irã, Alexandre precisava atravessar os montes Zagros, por um vale muito estreito cercado de montanhas altas, que ainda existe, na atual província de Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad. Ariobarzanes tinha, creio, uns mil soldados. Subiu as montanhas e esperou um exército de dezenas de milhares, e o deteve. Esperava-se que resistisse um dia, dois, uma semana; resistiu um mês, até ficar sem lanças, espadas, pedras, fogo, qualquer arma. Alexandre acabou encontrando um caminho até o alto. Ariobarzanes e seus homens poderiam ter fugido para Persépolis [a capital cerimonial do império], mas não fugiram. Com as dezenas de homens que lhe restavam, desarmados, atacaram aquele exército com as próprias mãos, corpo a corpo. Morriam quatro ou cinco deles para matar um soldado de Alexandre. Isso é coragem.
Parece a história de Hussein.
Sim. Quando digo que a identidade iraniana ajudou os iranianos a abraçar o xiismo e o Imam Hussein, não é algo que aconteceu da noite para o dia. Tem raízes na história. Os iranianos se orgulham do que conquistaram, mas se orgulham mais de Ariobarzanes. A história de Hussein é muito maior, com muito mais implicações: eles eram poucos e foram massacrados pelo exército de Yazid [segundo califa omíada].
Essa admiração existe entre todos os iranianos, até entre os que não são xiitas. Temos uma grande população sunita que admira o Imam Hussein. Conheço pessoalmente cristãos, armênios e outras minorias que vão às ruas no Muharram, o luto anual por Hussein. Ficam nas calçadas, choram e fazem doações em nome dele. Dizem: “Não queremos ser muçulmanos, temos a nossa religião, mas amamos Hussein e Abbas, seu meio-irmão. Para nós, ele é como Jesus Cristo”.
Isso se viu nesta guerra. No meu bairro, no leste de Teerã, os americanos parecem ter uma cota diária: bombardearam várias vezes por dia, nas duas guerras, matando muita gente. Logo nos primeiros ataques, documentaristas correram para o local e, para minha surpresa, encontraram os moradores diante das casas dizendo: “Graças a Deus estamos vivos. Isto não é nada perto do que Hussein passou. Vamos reconstruir, e ficamos aqui até reconstruir, por Hussein”. Há anos, nas cerimônias anuais, eles dizem: “Quem me dera estar em Karbala naquele dia, há 14 séculos”. Agora se veem em Karbala, com a chance de fazer isso.
É essa a diferença. Por isso Donald Trump pôde sequestrar Nicolás Maduro na Venezuela e mudar tudo sem custo, e aqui fracassou. Imaginou que faria o mesmo. Digo isso à imprensa internacional há duas décadas: vocês acham que têm orientalistas, que sabem de cor a história do Imam Hussein, mas fracassam em quebrar a resistência iraniana justamente por causa dele. Se entenderem isso, vão entender por que fracassaram de novo e de novo. Não se avança com pressão, sejam sanções, sejam guerras. A não ser que nos matem a todos, os iranianos não vão se submeter. Aprenderam com milhares de anos de invasões: sempre que se renderam, não sobrou nada do Irã, perderam território, foram massacrados.
As pessoas também pedem uma resposta mais dura?
Muitos reclamam: “Por que não mostramos o que temos? Vamos pôr fim às atrocidades de Israel e dos Estados Unidos”. E pedem a bomba atômica mais do que nunca.
Que percentual da população apoia a bomba atômica hoje?
Não sei, eu precisaria ver pesquisas confiáveis, e não uma ou duas. Mas esse discurso hoje vai muito além do setor revolucionário da sociedade. Outros dizem: “Gostemos ou não, gastamos muito e pagamos muito por este programa nuclear pacífico, e eles não vão nos deixar levá-lo adiante. Ao que parece, não nos deixaram outra escolha a não ser construir a bomba”. Ninguém ousa atacar a Coreia do Norte. O próprio Trump disse que precisa dizer “sim, senhor” ao líder coreano, e que, se o Irã tivesse a bomba, ele teria de tratá-lo de forma completamente diferente.
O Irã nunca quis a bomba atômica. Existe uma fatwa [decreto religioso de Ali Khamenei que proíbe as armas nucleares], e a posição das elites iranianas era: “não precisamos dela”. A bomba é do século 20. No século 21, a guerra é híbrida, com ataques cibernéticos e outras formas que não deixam responsabilidade. A era da dissuasão nuclear acabou: nós atacamos os Estados Unidos, um Estado com armas nucleares, e atacamos Israel, um regime com armas nucleares. A teoria da dissuasão nuclear precisa ser revista justamente pelo que o Irã fez contra eles.
Mas a dissuasão nuclear ainda dá alguma segurança contra um ataque nuclear. E é isso que os iranianos dizem agora, inclusive as elites e a classe instruída: “Não queríamos, mas não nos deixaram outra opção. Se é para acabar com tudo, precisamos da bomba”. É um produto da guerra americana contra o Irã. O debate mudou completamente: há dois anos, uma parte importante da sociedade, e até do próprio campo revolucionário, dizia que não queria a bomba. Hoje é o contrário.
Quando o senhor fala do setor revolucionário da sociedade, de quanto estamos falando?
Não há números confiáveis. Mas uma coisa é certa: nas concentrações noturnas, sobretudo nos primeiros um ou dois meses, dava para ver pela aparência que todas as classes da sociedade estavam nas ruas. Há muitas entrevistas, fotos e vídeos mostrando que até quem não segue o código islâmico de vestimenta estava lá. Por quê? Porque estão defendendo o país. Acreditam que os Estados Unidos e Israel não são inimigos só da República Islâmica, mas do Irã.
Isso acontece também fora do país, na diáspora. Muitos estão voltando desde o fim da guerra de 12 dias. E outra parte das pessoas, por assim dizer, foi esclarecida pelo ataque. Antes, culpavam a República Islâmica por várias razões, sob o efeito do império midiático da oposição, de canais como a Iran International e a BBC Persa [emissoras de TV em persa com sede em Londres], que faziam operações psicológicas.
Existem muitos canais em persa no exterior?
Entre 200 e 400, dependendo da conta. É um recorde mundial, um recorde de guerra. Esses canais diziam, por exemplo, que o líder supremo estava escondido a 60 ou 100 metros debaixo da terra. Atribuíam a ele o que Netanyahu fazia, ou diziam que ele tinha fugido. Quando ele foi martirizado no seu gabinete, muita gente mudou. Essas pessoas diziam diante das câmeras: “Ouvimos que ele estava escondido, e agora ficamos comovidos ao saber que estava no seu gabinete e foi martirizado”. Eu chamo isso de uma era de esclarecimento.
Havia fissuras antes, mas agora as pessoas toleram as diferenças e se unem em torno da mesma bandeira. Isso ampliou o campo dos que acreditam. O Líder martirizado sempre dizia: “Acredite ou não no sistema, vote”. O martírio dele abriu esse caminho: muitos se reconciliaram com o sistema. Um sinal disso são as divisões profundas na oposição liderada pelos monarquistas de Reza Pahlavi [filho do último xá, que vive nos EUA]. Agora eles brigam entre si, até os monarquistas entre eles. Opositores conhecidos, refugiados há décadas na Europa e nos Estados Unidos, disseram publicamente que querem voltar ao país. Perceberam que o que diziam há cinco décadas, que a República Islâmica ia cair logo, era um mito inventado por eles mesmos.
Esta foi a minha terceira guerra. A primeira foi contra Saddam Hussein [a guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988], e antes houve a revolução. As reações são as mesmas. A geração de cinco décadas atrás reagiu assim na revolução e na guerra contra Saddam. Os jovens de hoje nasceram há 20 ou 30 anos, se modernizaram, mas se comportam exatamente da mesma maneira.
Então a última vez que o país teve essa unidade foi no fim dos anos 1980, na guerra?
Exatamente. Veja a política interna. Sempre houve duas grandes facções no Irã, os reformistas e os revolucionários, e quem estava fora do poder ia a qualquer extremo para derrubar quem estava dentro. Era uma política bipolar. Mas, no último ano e meio ou dois, não se vê isso. Eu digo sempre aos meus amigos que Pezeshkian [Masoud Pezeshkian, presidente do Irã desde 2024] é o presidente mais sortudo do mundo, porque ninguém o culpa por nada. Ele é reformista e chefia um governo reformista, mas nem os revolucionários o criticam, mesmo quando deveriam. Todos, inclusive a imprensa, dizem: “Vamos ajudá-lo de todas as formas possíveis”. Esse é o produto mais recente da guerra e das políticas americanas.
Cada vez que os iranianos dizem: “Não cruzamos nossas linhas, os Estados Unidos têm de aceitar nossas condições, mas somos a favor de negociar”, muitos criticam, dizem que não é o discurso certo. Mas isso produz algo importante: mostra aos iranianos de todas as camadas que se fez de tudo para evitar a guerra. Não sobra outro caminho além da resistência. Do contrário, eles destroem você e o seu país.
O Irã surpreendeu o mundo todo com a capacidade militar para desafiar EUA e Israel ao mesmo tempo?Até nós mesmos nos surpreendemos. Eu acompanho o tema militar e sempre achei que um dia haveria uma guerra dos EUA contra a China, e que os chineses mostrariam ao mundo que os EUA já não são mais tão poderosos. Mas eu nunca imaginei que seríamos nós iranianos que faríamos isso.
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