Dia dos Finados transforma cemitérios em espaços de afeto, memória e encontros
Entre homenagens e reencontros, visitantes mantêm tradições e compartilham histórias de saudade nos cemitérios Parque da Paz e São João Batista
Por Gabriele Félix
Notícia
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Atualizado às 17:01, 02/11/2026 | Publicado às 17:00, 02/11/2026
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Resumo
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Famílias e amigos transformaram os cemitérios São João Batista e Parque da Paz em espaços de memória e reencontros.
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Visitantes mantiveram tradições com flores, orações, limpeza dos túmulos e recordações.
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Amigas de longa data aproveitaram a data para compartilhar histórias e homenagear pessoas queridas.
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Zeladoras conciliaram o trabalho com homenagens aos próprios familiares falecidos.
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Visitas também reforçaram a transmissão da memória familiar às novas gerações e a devoção a figuras populares.
Nas lápides sobre os túmulos, datas e frases saudosas guardam lembranças daqueles que já partiram. Nos cemitérios São João Batista e Parque da Paz, em Fortaleza, centenas de famílias e amigos se reuniram na manhã desta segunda-feira, 2, para prestar suas homenagens aos entes queridos durante às celebrações do Dia dos Finados.
Sentadas em um meio círculo à sombra de uma árvore no Parque da Paz, quatro amigas se encontraram em frente ao jazigo da família das irmãs Kelly Machado, 49, e Célia Machado, 63, onde estão sepultados seus pais e tio.
Compartilhando histórias e memórias da juventude, estavam também Iolanda Ferreira da Silva, 77, e Tereza “Deca” Silva de Andrade, 84, amigas de longa data da matriarca da família Machado, falecida há cerca de um ano. O grupo aproveitou para visitar o túmulo da filha de Deca, que morreu em 1994, durante um afogamento no Cauípe, aos 30 anos. Lá, também está sepultado seu falecido esposo.
O cemitério virou lugar de saudades, mas também de encontros. Ali, as amigas relembraram as histórias e aventuras da meninice que viveram juntas no bairro Montese. Além disso, providenciarem a limpeza e arrumação dos túmulos, fizeram orações e levaram rosas amarelas e vermelhas, as flores preferidas da matriarca da família Machado.
“É a primeira vez que eu tenho vindo, porque minha mãe faleceu há pouco tempo, faz um ano e um mês. Eu tenho vindo com frequência ao jazigo dela (Deca), ali perto da entrada e a gente está visitando os nossos túmulos aqui (...) Isso aqui vai ser mais especial, eu mandei colocar umas rosas amarelas e vermelhas lá, que ela gostava. Eu estou emocionada”, contou Kelly.
Perto dali, a auxiliar administrativa Amanda Barreto Grangeiro, 26, arrumava com esmero o túmulo do pai, falecido em maio de 2025. Os arranjos contaram com a ajuda da amiga da família, a contadora Auxiliadora Bezerra, 74, que cuidava da limpeza e manutenção dos túmulos, incluindo a colocação de calços para manter as velas em pé.
Amanda explicou que ela, a mãe e Auxiliadora mantêm o costume de ir ao cemitério em três momentos específicos do ano: no Dia dos Pais, no Dia de Finados e no aniversário de nascimento do pai.
Para ela, o Dia de Finados representa um momento de renascimento. Entre as tradições que mantém ao longo do tempo, conta ter rezado o Pai Nosso e Ave Maria. Depois, dedicou um tempo respeitoso em silêncio, sem deixar de lado as flores, consideradas pela auxiliar administrativa um símbolo importante de amor e saudade.
“A pessoa deixa um legado conosco, com a família, tudo que ela já passou com a gente. A gente dá essa importância pra saudade, que a pessoa não foi esquecida, a pessoa merece o reconhecimento que teve durante toda a vida e que ela, onde quer que esteja, não está sozinha, ela ainda tá com a gente, tem a gente no coração, tem a gente na mente”, homenageia.
Zeladoras do cemitério São João Batista confraternizam no Dia dos Finados
Compartilhando o mesmo sangue e a rotina de zeladoria no cemitério São João Batista há mais de 40 anos, as primas Rosa Maria Freira de Sousa, 64, e Francisca “Chica Loura” Pereira Lima, 76, chegaram cedo para realizar as manutenção dos túmulos de seus clientes para o Dia dos Finados. Por volta das 6 horas, as duas já haviam providenciado toda a arrumação necessária para as famílias prestarem suas homenagens.
A zeladora Rosa Maria, natural de Pernambuco, conta que é responsável pela limpeza, lavagem e manutenção de cerca de 30 túmulos contratados por clientes. Além disso, vende garrafas de caldo caseiro para visitantes e funcionários durante o período de Finados para completar a renda.
Este ano, explica que achou que o número de visitantes no cemitério diminuiu, mas que continuou tranquilo para o seu serviço.
Durante o feriado, quando o trabalho é de sobra, guarda a memória de sua mãe, que faleceu quando Rosa tinha apenas 7 anos. Como não pode viajar ao interior para visitar seu túmulo, manda celebrar missas e acender velas em sua memória.
“Para quem tem pai, tem mãe, esse dia é muito importante, porque tem gente aqui que diz: ‘Ah, morreu, acabou’. Mas eu não acho, porque ela aí, ela sabe, a minha mãe eu fiquei com ela só sete anos. Aí eu tô aqui dentro, mas eu estou o tempo todo me lembrando. Ah, se eu pudesse ir lá no interior ver visitar o turno da minha mãe, mas eu não posso”, lamenta.
A distância é compartilhada também por Chica Loura, como gosta de ser chamada. Vinda de Abílio Martins, no município de Ipu, a também zeladora homenageia a mãe, que viveu quase 103 anos; o pai; e o falecido esposo, para quem dedica saudosas lágrimas.
Emocionada, Francisca recorda que o marido levava diariamente seu café e almoço para o cemitério, enquanto ela trabalhava. Para mantê-lo perto, fez questão de comprar um terreno no São João Batista e transferi-lo para lá.
Pela proximidade, consegue prestar suas homenagens entre uma zeladoria e outra. Além disso, mantém o costume afetuoso de levar oferendas ao túmulo dele, como água e bolo mole, seu doce preferido em vida.
“Ele chegava de manhã às 9 horas, ele chegava com minha merenda, café, tudo que ele tá aqui tem. Eu tinha tudo que tinha de direito, sabe? Quando era meio-dia ele trazia o meu almoço, deixava já minha merenda de 3 horas. Era um esposo muito bom, minha filha, eu sinto toda hora falta”, explica comovida.
Para Chica Loura e Rosa, o cemitério é um espaço de alívio emocional, amizade e apoio mútuo. Lá, costumam inclusive preparar pratos, como a lasanha, mencionada por Francisca, para confraternizar com os funcionários da administração.
Sobre as superstições por trabalhar em um cemitério, as duas são sucintas: “Eu tenho medo é dos vivos, quem já morreu não faz mais mal a ninguém”, concordam cúmplices.
Homenagens aos vultos famosos marcam o Dia dos Finados no São João Batista
O fiscal de controle urbano, José Neido Gomes Beviláqua, 62, visitou o cemitério São João Batista na companhia da família, para prestar homenagem ao seu sogro, Francisco Alves Coelho.
Esta foi também a primeira vez em que levou o neto, Ângelo Francisco, para ensiná-lo sobre a relevância do Dia de Finados e o respeito à memória ancestral. Lá, ao avistar um túmulo com o sobrenome Beviláqua, fez questão de mostrar ao neto a história de sua própria linhagem familiar.
Para José Neido, a data é um momento essencial para confortar a saudade, acender velas, fazer orações e cultivar o sentimento de pertencimento familiar nas novas gerações. “É de uma importância grande que a gente relembre os entes queridos que partiram. É uma coisa que todos vamos, mas ninguém está preparados para isso”, pontua.
Apoiado sobre o túmulo da Menina Lúcia, o jovem Marcos Vinícius, 11, colocava um terço no anjinho junto à lápide, a pedido da avó, que fazia preces. No túmulo, está sepulta a criança que morreu em 1917, aos 2 anos de idade, e seu lugar de descanso se transformou em ponto de visitação e agradecimentos por graças alcançadas.
A avó, que preferiu não se apresentar por estar emocionada, contou que visita o cemitério semanalmente para rezar e buscar conforto espiritual perante a saudade da filha que morreu, sendo costumeiro levar mimos e bonequinhas para o túmulo.
“Estou aqui pela minha filha, eu rezo sempre por ela. Ave Maria. Hoje é um dia muito triste”, lamenta.
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