O Povo
02/11/2026 17:30

Dia dos Finados transforma cemitérios em espaços de afeto, memória e encontros

Fortaleza

Entre homenagens e reencontros, visitantes mantêm tradições e compartilham histórias de saudade nos cemitérios Parque da Paz e São João Batista

Por Gabriele Félix

Notícia

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Atualizado às 17:01, 02/11/2026 | Publicado às 17:00, 02/11/2026

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados(Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados(Fco Fontenele/O POVO) Crédito: FCO FONTENELE

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Resumo

  • Famílias e amigos transformaram os cemitérios São João Batista e Parque da Paz em espaços de memória e reencontros.

  • Visitantes mantiveram tradições com flores, orações, limpeza dos túmulos e recordações.

  • Amigas de longa data aproveitaram a data para compartilhar histórias e homenagear pessoas queridas.

  • Zeladoras conciliaram o trabalho com homenagens aos próprios familiares falecidos.

  • Visitas também reforçaram a transmissão da memória familiar às novas gerações e a devoção a figuras populares.

Nas lápides sobre os túmulos, datas e frases saudosas guardam lembranças daqueles que já partiram. Nos cemitérios São João Batista e Parque da Paz, em Fortaleza, centenas de famílias e amigos se reuniram na manhã desta segunda-feira, 2, para prestar suas homenagens aos entes queridos durante às celebrações do Dia dos Finados.

Sentadas em um meio círculo à sombra de uma árvore no Parque da Paz, quatro amigas se encontraram em frente ao jazigo da família das irmãs Kelly Machado, 49, e Célia Machado, 63, onde estão sepultados seus pais e tio.

Compartilhando histórias e memórias da juventude, estavam também Iolanda Ferreira da Silva, 77, e Tereza “Deca” Silva de Andrade, 84, amigas de longa data da matriarca da família Machado, falecida há cerca de um ano. O grupo aproveitou para visitar o túmulo da filha de Deca, que morreu em 1994, durante um afogamento no Cauípe, aos 30 anos. Lá, também está sepultado seu falecido esposo.

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados(Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados(Fco Fontenele/O POVO) Crédito: FCO FONTENELE

O cemitério virou lugar de saudades, mas também de encontros. Ali, as amigas relembraram as histórias e aventuras da meninice que viveram juntas no bairro Montese. Além disso, providenciarem a limpeza e arrumação dos túmulos, fizeram orações e levaram rosas amarelas e vermelhas, as flores preferidas da matriarca da família Machado.

“É a primeira vez que eu tenho vindo, porque minha mãe faleceu há pouco tempo, faz um ano e um mês. Eu tenho vindo com frequência ao jazigo dela (Deca), ali perto da entrada e a gente está visitando os nossos túmulos aqui (...) Isso aqui vai ser mais especial, eu mandei colocar umas rosas amarelas e vermelhas lá, que ela gostava. Eu estou emocionada”, contou Kelly.

Perto dali, a auxiliar administrativa Amanda Barreto Grangeiro, 26, arrumava com esmero o túmulo do pai, falecido em maio de 2025. Os arranjos contaram com a ajuda da amiga da família, a contadora Auxiliadora Bezerra, 74, que cuidava da limpeza e manutenção dos túmulos, incluindo a colocação de calços para manter as velas em pé.

Amanda explicou que ela, a mãe e Auxiliadora mantêm o costume de ir ao cemitério em três momentos específicos do ano: no Dia dos Pais, no Dia de Finados e no aniversário de nascimento do pai.

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados - Na foto: Amanda Barreto Granjeiro (Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério parque da paz no dia de finados - Na foto: Amanda Barreto Granjeiro (Fco Fontenele/O POVO) Crédito: FCO FONTENELE

Para ela, o Dia de Finados representa um momento de renascimento. Entre as tradições que mantém ao longo do tempo, conta ter rezado o Pai Nosso e Ave Maria. Depois, dedicou um tempo respeitoso em silêncio, sem deixar de lado as flores, consideradas pela auxiliar administrativa um símbolo importante de amor e saudade.

“A pessoa deixa um legado conosco, com a família, tudo que ela já passou com a gente. A gente dá essa importância pra saudade, que a pessoa não foi esquecida, a pessoa merece o reconhecimento que teve durante toda a vida e que ela, onde quer que esteja, não está sozinha, ela ainda tá com a gente, tem a gente no coração, tem a gente na mente”, homenageia.

Zeladoras do cemitério São João Batista confraternizam no Dia dos Finados

Compartilhando o mesmo sangue e a rotina de zeladoria no cemitério São João Batista há mais de 40 anos, as primas Rosa Maria Freira de Sousa, 64, e Francisca “Chica Loura” Pereira Lima, 76, chegaram cedo para realizar as manutenção dos túmulos de seus clientes para o Dia dos Finados. Por volta das 6 horas, as duas já haviam providenciado toda a arrumação necessária para as famílias prestarem suas homenagens.

A zeladora Rosa Maria, natural de Pernambuco, conta que é responsável pela limpeza, lavagem e manutenção de cerca de 30 túmulos contratados por clientes. Além disso, vende garrafas de caldo caseiro para visitantes e funcionários durante o período de Finados para completar a renda.

Este ano, explica que achou que o número de visitantes no cemitério diminuiu, mas que continuou tranquilo para o seu serviço.

Durante o feriado, quando o trabalho é de sobra, guarda a memória de sua mãe, que faleceu quando Rosa tinha apenas 7 anos. Como não pode viajar ao interior para visitar seu túmulo, manda celebrar missas e acender velas em sua memória.

“Para quem tem pai, tem mãe, esse dia é muito importante, porque tem gente aqui que diz: ‘Ah, morreu, acabou’. Mas eu não acho, porque ela aí, ela sabe, a minha mãe eu fiquei com ela só sete anos. Aí eu tô aqui dentro, mas eu estou o tempo todo me lembrando. Ah, se eu pudesse ir lá no interior ver visitar o turno da minha mãe, mas eu não posso”, lamenta.

A distância é compartilhada também por Chica Loura, como gosta de ser chamada. Vinda de Abílio Martins, no município de Ipu, a também zeladora homenageia a mãe, que viveu quase 103 anos; o pai; e o falecido esposo, para quem dedica saudosas lágrimas.

Emocionada, Francisca recorda que o marido levava diariamente seu café e almoço para o cemitério, enquanto ela trabalhava. Para mantê-lo perto, fez questão de comprar um terreno no São João Batista e transferi-lo para lá.

Pela proximidade, consegue prestar suas homenagens entre uma zeladoria e outra. Além disso, mantém o costume afetuoso de levar oferendas ao túmulo dele, como água e bolo mole, seu doce preferido em vida.

“Ele chegava de manhã às 9 horas, ele chegava com minha merenda, café, tudo que ele tá aqui tem. Eu tinha tudo que tinha de direito, sabe? Quando era meio-dia ele trazia o meu almoço, deixava já minha merenda de 3 horas. Era um esposo muito bom, minha filha, eu sinto toda hora falta”, explica comovida.

Para Chica Loura e Rosa, o cemitério é um espaço de alívio emocional, amizade e apoio mútuo. Lá, costumam inclusive preparar pratos, como a lasanha, mencionada por Francisca, para confraternizar com os funcionários da administração.

Rosa Maria Freire de Sousa trabalha como zeladora no cemitério São João Batista há mais de 40 anos

Rosa Maria Freire de Sousa trabalha como zeladora no cemitério São João Batista há mais de 40 anos
Crédito: FCO FONTENELE

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local

Há 46 anos, Francisca Pereira Lima, 76, trabalha na zeladoria dos túmulos do local
Crédito: FÁBIO LIMA

Sobre as superstições por trabalhar em um cemitério, as duas são sucintas: “Eu tenho medo é dos vivos, quem já morreu não faz mais mal a ninguém”, concordam cúmplices.

Homenagens aos vultos famosos marcam o Dia dos Finados no São João Batista

O fiscal de controle urbano, José Neido Gomes Beviláqua, 62, visitou o cemitério São João Batista na companhia da família, para prestar homenagem ao seu sogro, Francisco Alves Coelho.

Esta foi também a primeira vez em que levou o neto, Ângelo Francisco, para ensiná-lo sobre a relevância do Dia de Finados e o respeito à memória ancestral. Lá, ao avistar um túmulo com o sobrenome Beviláqua, fez questão de mostrar ao neto a história de sua própria linhagem familiar.

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Na foto: José Neudo Gomes Beviláqua e seu neto (Fco Fontenele/O POVO)
Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Na foto: José Neudo Gomes Beviláqua e seu neto (Fco Fontenele/O POVO) Crédito: FCO FONTENELE

Para José Neido, a data é um momento essencial para confortar a saudade, acender velas, fazer orações e cultivar o sentimento de pertencimento familiar nas novas gerações. “É de uma importância grande que a gente relembre os entes queridos que partiram. É uma coisa que todos vamos, mas ninguém está preparados para isso”, pontua.

Apoiado sobre o túmulo da Menina Lúcia, o jovem Marcos Vinícius, 11, colocava um terço no anjinho junto à lápide, a pedido da avó, que fazia preces. No túmulo, está sepulta a criança que morreu em 1917, aos 2 anos de idade, e seu lugar de descanso se transformou em ponto de visitação e agradecimentos por graças alcançadas.

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Francisca Pereira Lima (Fco Fontenele/O POVO)

Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Francisca Pereira Lima (Fco Fontenele/O POVO)
Crédito: FCO FONTENELE

Fortaleza, CE, BR 02.11.26  - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Marcos Vinícius Araújo (Fco Fontenele/O POVO)

Fortaleza, CE, BR 02.11.26 - Movimentação no cemitério São João Batista no dia de finados - Marcos Vinícius Araújo (Fco Fontenele/O POVO)
Crédito: FCO FONTENELE

A avó, que preferiu não se apresentar por estar emocionada, contou que visita o cemitério semanalmente para rezar e buscar conforto espiritual perante a saudade da filha que morreu, sendo costumeiro levar mimos e bonequinhas para o túmulo.

“Estou aqui pela minha filha, eu rezo sempre por ela. Ave Maria. Hoje é um dia muito triste”, lamenta.

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