Campo Grande News
Entre AVC e infarto, sintomas ainda confundem moradores de Campo Grande
Braço dormente, pontadas no peito, falta de ar e dor de cabeça. Ao tentar identificar os sintomas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), moradores de Campo Grande confundiram sinais da doença com os de um infarto ou admitiram não saber reconhecer a emergência. A dificuldade apareceu em entrevistas feitas pelo Campo Grande News nas ruas da Capital. A babá Jaqueline Lopes, 43 anos, reconheceu a sensação de dormência como um possível sinal, mas também mencionou pontadas no peito, que geralmente não estão relacionadas ao AVC e podem indicar problemas cardíacos. "Braço dormente, perna dormente, alguma palpitação no peito. A língua enrolada e o sorriso torto eu não sabia, são informações que a gente vai pegando no dia a dia”, ela falou. Quem também confundiu sintomas de AVC e de infarto foi a assistente social de serviço de atendimento domiciliar Rosilene dos Santos, 49 anos. “Alguns dos principais que eu vejo muitos declararem é um aperto no coração, uma dor na boca do estômago, falam que sentem dor de barriga, mas não é. Uma pressão muito forte abaixo do peito, muita dor de cabeça, muito calor e as pessoas começam a ficar com muita falta de ar”, citou. Rosilene acertou parcialmente. A dor de cabeça forte e súbita é um dos possíveis sintomas do AVC. A aposentada Maura França, 63 anos, afirmou que não sabe reconhecer os sinais, mas relatou que seu irmão morreu após sofrer um AVC. “Ele estava viajando e não estava tomando remédio certinho. Na hora que chegou, já caiu. Levaram na mesma hora para o hospital. Ficou na cadeira de rodas, mas depois morreu”, contou. O trabalhador de serviços gerais Antônio Cláudio de Menezes, 55 anos, também admite não ter conhecimento. “Tontura, dor na nuca… não sei muito bem, não”, disse. Quando era mais jovem, Antônio perdeu um amigo para o AVC. “Não sei como aconteceu. Ele estava com uns 30, 40 anos. Na época, ele era forte, trabalhava com obra, de repente teve o AVC”, relembra. Longa espera - A fisioterapeuta Dalila Menezes, 38 anos, orientou a mãe a pedir ao pai de 72 anos para sorrir, abraçar e falar algumas frases após desconfiar que ele havia sofrido mais um AVC. Segundo a família, o idoso apresentou alterações nesses três testes e foi levado ao CRS (Centro Regional de Saúde) Coophavilla em 19 de outubro. Dez dias depois, ele ainda aguardava transferência para um hospital. "O que deveria ter sido feito é aplicar medicação, fazer uma tomografia, mas isso depende de hospital. Já pensamos em levar embora porque se for para ficar aqui tomando soro e aferindo a glicemia, isso fazemos em casa", diz. Após a reportagem acionar a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), a transferência do paciente foi efetivada para a Santa Casa. "A Sesau informa que as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e os CRSs seguem protocolos clínicos padronizados para o atendimento inicial de pacientes com suspeita de AVC, incluindo estabilização clínica, administração de medicamentos conforme indicação e avaliação da gravidade para encaminhamento hospitalar. Quanto à transferência, a Secretaria esclarece que o encaminhamento depende da avaliação clínica e da disponibilidade de atendimento hospitalar. As condutas seguem os Protocolos Clínicos da Sesau, disponíveis no Diário Oficial de Campo Grande", explicou a pasta em nota. Tempo é o mais importante - Reconhecer os primeiros sinais e procurar atendimento médico o quanto antes pode fazer a diferença entre a recuperação e as sequelas. Segundo a neurologista neurovascular Simone Nascimento de Castro, do Hospital do Coração de Campo Grande, a falta de informação faz com que pacientes percam um tempo precioso para o tratamento. A médica relata casos de pessoas que perderam a força em metade do corpo, mas decidiram dormir e esperar uma melhora espontânea. “O conhecimento não pode ficar apenas para o profissional de saúde. Ele tem que ser reconhecido pelo filho, ele tem que ser reconhecido pelo vizinho, ele tem que ser reconhecido por todo mundo”, afirma a médica. Simone explica que é preciso anotar o horário do início dos sintomas e repassar ao profissional de saúde. A rapidez no atendimento é decisiva porque alguns tratamentos para o AVC isquêmico, provocado pela obstrução de uma artéria cerebral, só podem ser realizados dentro de determinados intervalos de tempo. O AVC afeta diretamente o cérebro e pode levar a sequelas ou à morte. Quanto mais tempo o órgão permanece sem receber oxigênio e nutrientes, maiores são os riscos de danos permanentes, que podem comprometer movimentos, fala, visão e sensibilidade. Para reconhecer os principais sinais, a orientação é pedir que a pessoa sorria, levante os dois braços e diga uma frase simples. Boca torta, fraqueza em um dos braços ou dificuldade para falar são sinais de alerta. Diante de qualquer suspeita, é necessário acionar imediatamente o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo telefone 192, mesmo que os sintomas desapareçam. O ideal é que o atendimento ocorra nas primeiras quatro horas e meia ou em 24 horas a partir dos primeiros sintomas. Os médicos podem administrar um medicamento chamado trombolítico, que atua na dissolução do coágulo responsável pela interrupção do fluxo sanguíneo, ou fazer uma trombectomia, procedimento que utiliza um cateter para retirar o coágulo da artéria. Há alternativas de tratamentos que podem ser aplicados em até 48 horas, a depender das condições de saúde do paciente. A neurologista ressalta que a indicação depende de uma avaliação especializada, já que os procedimentos apresentam riscos e não são adequados a todos. Conforme Simone, a cada minuto de obstrução de uma artéria cerebral, o paciente pode perder cerca de 2 milhões de neurônios. Quanto mais tempo o cérebro permanece sem receber oxigênio e nutrientes, maiores são os riscos de danos permanentes, que podem comprometer movimentos, fala, visão e sensibilidade. O controle da pressão arterial, da glicemia e de outras condições clínicas ajuda a evitar o agravamento das lesões.
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