Campo Grande News
03/11/2026 06:05

Desafios da inteligência artificial no ensino superior

Estamos passando por mais uma revolução com potencial disruptivo para a humanidade. A inteligência artificial generativa foi disponibilizada para o público no final de 2022, com o advento do ChatGPT, e, desde então, tornou-se uma presença constante na educação, inclusive na UnB. A inteligência artificial generativa permite que os estudantes produzam textos, imagens, vídeos, códigos e até simulações com comandos em linguagem natural, eliminando barreiras técnicas que antes exigiam anos de especialização. Na disciplina de Licenciatura do professor Bessa, ele estimula os estudantes a adequarem uma aula genérica às peculiaridades de uma turma fictícia usando a IA. De quebra, ele usa essa aula para discutir engenharia de prompt com os alunos. Numa das disciplinas do professor Bernhard, a turma programa simuladores de experimentos de física e modelos do sistema solar usando IA. Os resultados são surpreendentes. Essa facilidade de uso, contudo, não se traduz em ausência de riscos: plágio oculto, desatenção crítica e desigualdade de acesso passaram a figurar entre as preocupações docentes e institucionais. Talvez um dos principais riscos do uso da IA no ensino superior seja que o usuário delegue à IA uma habilidade que ele próprio ainda não desenvolveu. É possível fazer um paralelo com a calculadora. É muito mais fácil realizar determinados cálculos com ela, mas, se um dia você não tiver uma à mão, você conseguiria fazer aquele cálculo? Nesse caso, a calculadora é bem-vinda. Caso contrário, ela te impede de desenvolver um raciocínio. A IA tem um enorme potencial de simplificar processos que já sabemos fazer; só demoramos demais para isso. Usá-la antes de dominar essas habilidades será detrimental: corremos o risco de emburrecer ao delegar apenas a ela o papel de pensar. Assim, a Universidade de Brasília, como espaço formativo e produtor de conhecimento, enfrenta o desafio de regular, incentivar e investigar o uso dessas tecnologias sem comprometer os princípios de originalidade, rigor epistemológico e inclusão. Um bom começo para trazer o debate da regulamentação da IA no ensino superior é discutir, já nas primeiras semanas de aula, seu uso nas disciplinas que serão ofertadas. Ter isso explicitamente estabelecido no plano de aulas e debatido com a turma é fundamental. Alguns aspectos importantes a considerar são que os estudantes devem declarar diretamente o uso que fizeram da IA nos trabalhos entregues, possivelmente, inclusive, reportando os prompts usados. Talvez o mais importante seja que o estudante jamais deve entregar como seu um trabalho produzido pela IA. Quanto à avaliação, vale incluir na disciplina diversas formas de avaliação, especialmente formas mais resistentes ao uso da IA. Trabalhos que possam ser integralmente resolvidos usando IA devem ser adotados com cuidado. Acompanhar a produção dos trabalhos passo a passo, avaliando o que os estudantes fazem a cada semana, pode explicitar quem está de fato se dedicando à tarefa. Focar no processo, e não no produto, é outra alternativa. Apresentações dos trabalhos diante da turma toda, além de estimularem a oratória, exigem ao menos que o estudante se apodere do conteúdo apresentado. Até a prova oral ou avaliações em papel, feitas diante dos professores, têm se mostrado boas formas de verificar quem sabe o conteúdo da matéria: o aluno ou o ChatGPT. Por fim, reforçamos que ensinar pelo exemplo continua sendo o modo mais eficiente. Portanto, é fundamental que nós mesmos sejamos éticos e claros sobre o uso da IA em nossas aulas. Precisamos declarar quais materiais produzimos com IA e quais foram integralmente elaborados por nós mesmos, sem nos apropriarmos indevidamente de conteúdo. Também precisamos indicar como a IA foi utilizada, se apenas para revisar o texto ou para produzi-lo. A inteligência artificial generativa nos confere um enorme poder, mas grandes poderes devem sempre vir acompanhados de grandes responsabilidades. (*) Eduardo Bessa Pereira da Silva é professor da Faculdade UnB de Planaltina. Redige o blog Ciência à Bessa na rede Scienceblogs Brasil e é membro do comitê educacional da Animal Behavior Society.  Bernhard Georg Enders Neto é professor da Faculdade UnB de Planaltina. Ministra disciplinas na área de Física e Computação.
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