Campo Grande News
Quando a rede aproxima os iguais e transforma o outro em inimigo
Uma democracia precisa de divergência para respirar. Quando discordar passa a ser motivo para humilhar, ameaçar ou excluir alguém, o debate perde espaço para a intolerância. É esse ambiente que precisamos enfrentar nas redes sociais, onde a convicção política frequentemente se transforma em recusa de ouvir. O mecanismo é conhecido por quem acompanha as próprias telas. Quem se identifica com a direita encontra uma sequência de publicações que confirma suas posições. Quem se aproxima da esquerda pode viver experiência semelhante. Entre perfis escolhidos pelo usuário, mensagens de grupos e recomendações automáticas, forma-se um ambiente em que as mesmas certezas circulam, ganham aprovação e voltam reforçadas. Isso não significa que todos se comportem da mesma maneira, nem que a responsabilidade por cada ataque seja equivalente. Significa que nenhum campo político está imune ao fechamento em suas próprias convicções. Quando a identidade partidária passa a decidir antecipadamente o que merece crédito, até uma informação documentada pode ser rejeitada por contrariar o grupo. A repetição cria uma impressão enganosa de consenso. Se todos parecem pensar igual, quem diverge começa a ser tratado como desonesto, ignorante ou inimigo. A pergunta sobre a veracidade de uma informação cede lugar a outra: ela ajuda ou prejudica o meu lado? As redes não inventaram a intolerância. Mas seus mecanismos de distribuição podem ampliar conflitos e dar alcance a ataques que, antes, ficariam restritos a círculos menores. Por isso, a discussão precisa alcançar também as empresas que organizam a circulação das mensagens e vendem publicidade nesse ambiente. É necessário estabelecer regras. A dificuldade está em construí-las com precisão, protegendo simultaneamente a liberdade de expressão e o direito de participar do debate sem sofrer perseguição. Uma crítica dura, uma opinião impopular e uma ameaça exigem tratamentos diferentes. A palavra “intolerância”, sozinha, é ampla demais para justificar punições. Um caminho concreto seria exigir transparência sobre os sistemas de recomendação. O usuário precisa entender por que recebe determinados conteúdos e ter uma opção simples para acompanhar publicações sem recomendações baseadas em seu perfil. Também deve poder alterar suas preferências e reduzir a interferência dessas ferramentas. Há experiências que podem orientar esse debate. Na União Europeia, o Regulamento dos Serviços Digitais exige explicações sobre os principais critérios de recomendação e determina que plataformas de muito grande dimensão ofereçam uma alternativa sem personalização baseada no perfil do usuário. Prevê ainda justificativas para decisões de moderação e mecanismos para contestá-las. São instrumentos que ampliam o controle do cidadão sobre sua experiência digital. O Brasil deveria avançar em obrigações verificáveis: auditorias independentes sobre riscos dos sistemas de recomendação, transparência sobre publicidade e impulsionamento e procedimentos para identificar redes coordenadas de contas falsas usadas para perseguir pessoas ou simular apoio popular. A fiscalização deve preservar dados pessoais e permitir o trabalho de pesquisadores. Também é preciso exigir canais de denúncia que funcionem, atendimento adequado em português e respostas proporcionais à gravidade de cada situação. Quem sofre ameaça precisa encontrar proteção. Quem tem uma publicação removida precisa saber o motivo e ter direito a recurso. Eventuais sanções às plataformas devem decorrer do descumprimento de deveres claramente definidos, com fiscalização independente, direito de defesa e revisão judicial. Essas garantias são essenciais. Uma regulamentação democrática precisa impedir que governos, partidos ou empresas usem o combate aos abusos para silenciar críticas. A Unesco defende uma governança das plataformas baseada em transparência, supervisão independente e proteção dos direitos humanos, e alerta para os riscos de medidas regulatórias arbitrárias que resultem em censura. Nenhuma regra, entretanto, vai obrigar alguém a ouvir com boa-fé. A mudança também depende de educação para o uso das redes, disposição para conferir informações e responsabilidade de quem exerce influência pública. Lideranças políticas precisam responder pelo ambiente que estimulam. Não podem pedir respeito enquanto incentivam seguidores a perseguir adversários. A imprensa tem sua parcela de responsabilidade: verificar antes de publicar, corrigir erros e sustentar a cobrança sobre qualquer grupo político. Fatos precisam de apuração; opiniões precisam ser reconhecidas como opiniões. A preferência do público não pode determinar o resultado da investigação jornalística. No cotidiano, o primeiro freio pode ser simples: ler antes de compartilhar, procurar a fonte original e admitir a possibilidade de erro. É preciso recuperar a capacidade de reconhecer um argumento válido mesmo quando ele vem de alguém com quem discordamos. O país continuará tendo direita, esquerda e muitas posições entre elas. Seus cidadãos continuarão dividindo ruas, escolas, empresas, serviços públicos e o futuro das próximas gerações. Precisam conseguir discutir esse futuro. A democracia exige mais do que o direito de falar. Exige condições para que a divergência exista sem medo. As plataformas devem responder pelos riscos de seus serviços, o poder público deve estabelecer limites com garantias, e cada cidadão precisa reconhecer no outro alguém que tem o mesmo direito de participar. Nenhuma vitória política compensa a destruição dessa convivência.
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