Roberto Rodrigues aponta protagonismo do Brasil na produção de alimentos e energia durante o Green Rio Tech
O Brasil tem condições de ampliar seu protagonismo no cenário mundial diante de desafios como segurança alimentar, produção de energia, mudanças climáticas e desigualdade social. Essa foi a avaliação do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues durante a palestra de abertura do Green Rio Tech 2026, realizada na quinta-feira (29/10), na AXIA Marina da Glória, na Região Central do Rio.
Palestrante principal da abertura, Rodrigues é coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), onde também é professor emérito. Foi ministro da Agricultura e secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, além de ter presidido a Aliança Cooperativa Internacional (ACI) e a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB).
Durante a apresentação, Rodrigues abordou quatro questões que considera centrais para o futuro das nações: comida, energia, clima e desigualdade social. Ao falar sobre segurança alimentar, destacou a relação entre o acesso à comida e a estabilidade dos países. “É a única condição de estabilidade política e social de uma nação. Nação com fome derruba governo e leva à guerra”, afirmou.
Na sequência, o ex-ministro tratou da questão energética e destacou o potencial brasileiro na produção de combustíveis alternativos.
“Sobre a energia, a guerra do Irã mostrou para o mundo uma coisa que nós sabemos há 50 anos: não há alternativa ao petróleo. Metanol, biodiesel... Há um horizonte diferente na área de combustíveis e energia. E agora, com o avanço da inteligência artificial e os 'databases' que precisam de muita energia, é preciso produzir ainda mais! Não há uma solução pronta. E o mundo olhou para o Brasil e falou: 'Ué, esse negócio lá funciona'. Já existem empresas mundiais de navegação buscando outras alternativas ao petróleo. Então, o Brasil apareceu para o mundo, nos últimos anos, como uma potência alimentar e também energética”.
Agronegócio e mudanças climáticas
Rodrigues também relacionou a produção agrícola às mudanças climáticas e à necessidade de preservar os recursos naturais. Para ele, o desenvolvimento de um sistema produtivo capaz de conciliar produção e conservação ambiental é parte da resposta aos desafios climáticos.
“O terceiro ponto é o clima. A mudança climática é dramática! Muito mais importante do que o meio ambiente é o clima! É preciso cuidar do clima para que as coisas avancem positivamente”.
O ex-ministro apontou ainda a desigualdade social como um dos problemas mais difíceis de enfrentar atualmente. Segundo ele, o agronegócio pode contribuir para reduzir esse desequilíbrio por meio da geração de empregos, renda e oportunidades.
“E o quarto ponto, que para mim é o maior de todos, é a desigualdade social. Na verdade, é que todos esses mecanismos, inclusive agora potencializados [...], é pobreza versus riqueza, nós contra eles, que é um desastre global, sem solução visível a médio prazo. Então, como eu sou agricultor, agrônomo, velho agrônomo, eu tenho para mim que quem vai resolver isso aí é o agro”.
Brasil como referência na agricultura tropical
Na palestra, Rodrigues defendeu que o futuro da produção mundial de alimentos passa pelo desenvolvimento da agricultura em regiões tropicais. Ele argumentou que países do hemisfério norte já possuem pouca margem para ampliar suas áreas agricultáveis e que o cinturão tropical reúne condições para expandir a produção, desde que haja investimento em tecnologia.
“Os quatro temas: comida, energia, geração de emprego e riqueza e renda para essas pessoas é o agro. Mas qual agro? O agro tropical do planeta, que pega aquele cinturão, que pega toda a América Latina, toda a África Subsaariana e parte da Ásia também. Porque é nesse território que tem terra disponível para crescer e a tecnologia é baixa, a produtividade é muito baixa. No hemisfério norte não tem mais muito o que crescer, Europa, Estados Unidos, Canadá, a área agricultável está ocupada. Tem pouco o que crescer, a tecnologia chegou no limite possível economicamente viável. Então, é nesse cinturão tropical que a coisa vai acontecer em termos de crescimento efetivo”.
Nesse contexto, ele atribuiu à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) papel decisivo na transformação da agricultura brasileira, especialmente a partir do desenvolvimento de tecnologias adaptadas às condições tropicais.
“Desse cinturão, o único país que desenvolveu a tecnologia tropical sustentável é o Brasil, graças à Embrapa. Colocando isso claramente. A Embrapa é que nos anos 80 virou a chave. A agricultura, que era temperada, é tropical no mundo. Ninguém presta atenção nessas coisas. O Instituto Agronômico de Campinas, que é o primeiro instituto de pesquisa do Brasil, foi criado por Dom Pedro II, no Império ainda, e ele trouxe quem para organizar? Um francês! Porque a ciência era temperada na agricultura. O Brasil não tinha, o Brasil não existia”.
O ex-ministro voltou a destacar a importância da pesquisa científica para a expansão da produção agrícola e para a contribuição brasileira ao abastecimento mundial.
“Com a Embrapa e com a tropicalização da agricultura, esse cinturão tropical é a solução para comida, para energia, cuidando do clima e gerando riqueza e renda nos países pobres, portanto, reduzindo a desigualdade social. A agricultura surge em um momento interessante para resolver essas questões todas. E o Brasil como líder disso”
Demanda mundial por alimentos
Rodrigues também citou um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), segundo o qual a oferta mundial de alimentos precisaria crescer 20% em 10 anos para atender à demanda e evitar que mais pessoas passem fome. De acordo com os números apresentados por ele, o Brasil teria papel fundamental para alcançar esse resultado, com uma expansão de 40% na produção.
“Há cerca de 10 anos, a OCDE realiza anualmente um estudo muito relevante que ratifica todas as questões, que em 10 anos a oferta mundial de comida precisa aumentar em 20% para que ninguém tenha fome, portanto que haja paz no mundo. 'Ah, moleza.' Não é moleza, olha só os números. Estados Unidos cresce 10%, Canadá não, a União Europeia cresce no máximo 12%, entendeu? Ásia, China, Índia, Rússia, a própria Ucrânia, entre 12% e13% e a Oceania 9%. Ninguém cresce 20%, salvo o Brasil, de acordo com a OCDE, que diz: 'Para que o mundo cresça 20%, o Brasil tem que ser 40%'. Gente, é o 'think tank' mais importante do mundo! Não é o Brasil dizendo isso, é a OCDE dizendo isso. 'Brasil, por favor, em 10 anos aumente a oferta de comida em 40% para o mundo aumentar 20% e haja paz no planeta'. É uma demanda de fora para dentro, e nós só podemos fazer o quê? Nada”.
Para exemplificar a transformação da agricultura nacional, Rodrigues citou a expansão do cultivo de soja e o aumento da produtividade ao longo das últimas décadas. Segundo ele, o avanço foi resultado do trabalho conjunto entre pesquisa científica e produtores rurais.
“Há alguns anos, tínhamos 400 mil hectares de soja, que produziam 1.200 kg por hectare. Hoje, temos 48 milhões de hectares de soja no Brasil. Que país fez isso? Produzimos 4.000 kg por hectare! Que país fez isso? Nenhum país fez isso! A Embrapa tropicalizou a soja, que é esse monumento que temos hoje. Que plano houve? Nenhum plano. Qual foi o projeto? Nenhum. Quem fez? A ciência e o produtor rural, que investiram e transformaram o Brasil na maior potência mundial de soja. É um negócio exemplar que nenhum país do mundo fez. Isso é só um exemplo. Posso dar mais 50 exemplos aqui, mas dou esse porque é emblemático para mim”.
Rodrigues também destacou o potencial brasileiro para atender à demanda mundial por alimentos e apontou quatro fatores que, segundo ele, colocam o país em posição favorável.
“Há uma demanda planetária: ‘Brasil, pelo amor de Deus, aumenta a produção de comida em 40% em 10 anos’. O que eles estão fazendo? Zero. Mas por que a OCDE acha que o Brasil tem essa capacidade? Por quatro razões: o Brasil é o único país que reúne todas elas integralmente: o clima tropical, o empreendedorismo do produtor rural brasileiro, a terra disponível e as políticas públicas. Vários países têm dois ou três desses ecossistemas, mas os quatro, só o Brasil tem”.
Para Rodrigues, a combinação entre pesquisa, tecnologia e experiência dos produtores rurais coloca o Brasil em posição favorável para ampliar sua produção de alimentos.
Formada em cinema e jornalismo. Também trabalha como assessora de imprensa, locutora e repórter de TV.
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