RELACIONAMENTOS Quando alguém de confiança começa a namorar um filho
Luna* estava na casa dos pais quando Hugo apareceu, convidado para uma noite de “carteado”. Aos 33 anos, mãe solo, ela vinha de um divórcio. Ele tinha 49, era amigo da família e fazia negócios com o pai dela. A conversa que começou naquela noite logo virou interesse, e Hugo* fez questão de comunicar a todos, desde o início, que os dois estavam começando um namoro. “Nem o meu pai e nem a minha mãe esperavam”, lembra Luna, que descreve a notícia como uma surpresa para toda a família. A escolha dos dois, no entanto, não gerou ruído. “Acho que tem muitos fatores que contribuíram para essa aceitação. Um deles: eu já fui casada e já morava na minha própria casa há mais de 10 anos. Outro: a gente nunca fez segredo, sempre fomos transparentes e honestos. Acredito que meus pais se sentiram respeitados por isso. Além disso, na minha família não tem muito essa cultura de ficar metendo o bedelho na vida alheia”.
O que a família de Luna viveu com serenidade, porém, costuma causar estranhamento em outras casas. E a primeira turbulência decorre de uma mudança de posições, que exige uma nova acomodação, como explica o psicólogo Rodrigo Tavares Mendonça, especializado no atendimento a casais e famílias. “Primeira: acontece uma reestruturação dos papéis familiares. O amigo deixa de ser apenas amigo e se torna genro. A natureza da relação familiar se modifica. Segunda: acontece uma reestruturação das lealdades familiares. Lealdade é um conceito importante na terapia familiar. A quais familiares um membro é mais leal? A quem ele se une e contra quem ele costuma ficar?”, pontua. Para ele, os pais podem sentir que perderam a lealdade do amigo, e a pergunta vale também no sentido inverso: em caso de conflito do novo casal, os pais serão leais a quem?
Esse reposicionamento assinalado pelo especialista pode contribuir para o surgimento de uma sensação de traição. “Os pais podem sentir que o amigo traiu a confiança e a lealdade deles. Na verdade, eles podem sentir mais: que o amigo invadiu um espaço privado da família. É como se o amigo entrasse sem ser convidado. Se esses sentimentos aparecem, sentir raiva do amigo pode ser a reação mais comum”, menciona, adicionando outros elementos que podem contribuir para a turbulência, como o ciúme e o medo de perder o filho, em especial se a amizade não se mantiver e o filho se afastar das reuniões familiares.
Mas Mendonça lembra que esses sentimentos são responsabilidade dos próprios pais, mas não devem ser internalizados pelos filhos. “Eles podem expressar que se sentem traídos, que sentem ciúme, medo ou raiva, e colocarem limites na participação deles na relação dos dois, na convivência, pelo menos temporariamente. O problema maior acontece quando os pais culpam os filhos pelos próprios sentimentos”, opina, acrescentando, por outro lado, que o incômodo pode desaparecer depois de examinado: pode ter surgido porque a situação era nova e a família não tinha referências para lidar com ela.
O que gera mais ou menos incômodo
O psicólogo e analista comportamental Jailton de Souza também reconhece a possibilidade de sentimentos de traição e ciúme surgirem, mas sugere separá-lo do juízo sobre o filho. A análise comportamental, abordagem que avalia comportamentos observáveis e o contexto em que acontecem, ajuda nessa distinção. “Sim, algumas pessoas podem sentir que houve uma quebra de confiança, sobretudo se a relação foi mantida em segredo ou se havia acordos explícitos entre os envolvidos. Mas é importante distinguir o sentimento de traição de uma conclusão automática sobre a conduta do filho adulto. Os pais podem se sentir magoados por não terem sido informados, enquanto o filho pode entender que não precisava pedir autorização”, avalia, sublinhando que alguns fatores podem contribuir para um maior incômodo – por exemplo, a diferença de idade, a proximidade anterior com a família ou a mudança de papel. Mas ele alerta que a idade, por si só, não permite concluir que a relação seja saudável ou prejudicial. Vida a história de Luna e Hugo, cuja diferença é de 16 anos, o que não representou nenhum tipo de postura proibitiva de parte da família dela.
A reação das famílias também tende a variar com o gênero e a orientação dos envolvidos. “As pessoas aprendem regras sociais diferentes sobre o que consideram aceitável para homens, mulheres e casais LGBTQIAPN+. Por isso, uma mulher mais velha com um homem mais jovem pode ser julgada de maneira diferente de um homem mais velho com uma mulher mais jovem. Em casais do mesmo gênero, o preconceito contra a orientação sexual pode se somar às preocupações sobre idade e poder”, assinala Souza, que pondera: embora o construto social ajude a explicar a diferença de tratamento, ele não justifica nenhuma atitude de discriminação.
Há, porém, situações em que a preocupação dos pais se justifica, como indica o psicólogo, a listar o que, a seu ver, merece atenção: “É importante prestar atenção a pressão, controle, ameaças, isolamento, dependência financeira usada para influenciar decisões ou dificuldade de expressar discordância. Também devemos considerar se a pessoa mais velha teve uma posição de autoridade ou cuidado sobre a mais jovem”. Sobre quem conviveu com o jovem desde a infância, diz que conhecer alguém desde cedo não torna inadequado um relacionamento iniciado na vida adulta, mas pede cuidado. “Se a relação afetiva ou sexual começou quando a pessoa ainda era menor, ou foi preparada por meio de manipulação e abuso de confiança, isso é um sinal sério de preocupação”, adverte.
Hora da conversa
Seja frente a um incômodo justificado ou não, Jailton de Souza defende que o melhor caminho diante dessa mudança de papéis é o diálogo. Ele sugere: “Os pais podem descrever o que observaram, falar do que sentem e fazer perguntas sem dar ordens. Por exemplo: ‘Fiquei surpreso com a notícia e tenho algumas preocupações. Gostaria de entender como você está se sentindo nessa relação’”. Essa fronteira é ultrapassada, porém, quando a opinião vira pressão, ameaça ou tentativa de decidir pelo filho. “A autonomia afetiva pertence à pessoa adulta. A família pode conversar sobre os efeitos da relação na convivência, mas não precisa aprovar ou autorizar a escolha”, assevera.
Para o casal, o analista comportamental indica “um momento tranquilo” e uma conversa direta, sem transformar a notícia em provocação nem exigir aprovação imediata, e lembra que, se a pessoa é muito próxima da família, a alternância de papel também afeta a convivência. A família pode precisar de tempo, e o casal pode evitar pressionar os parentes a demonstrar uma aceitação que ainda não sentem. Rodrigo Tavares Mendonça também defende “o diálogo em que os adultos buscam compreender o ponto de vista do outro, assumem a responsabilidade pelos próprios sentimentos e falam a verdade”.
E se o relacionamento acabar, o que fazer com aquele laço de amizade familiar anterior? “Se a relação terminar, certamente a relação da família com o amigo/ex-genro será afetada. De que forma? Depende de muitas coisas, entre elas do motivo do término e da reação do ex-casal”, pontua Mendonça, para quem existe o risco de perder a amizade e também o de a relação dar certo e enriquecer a todos. Souza, por sua vez, lembra que a família não precisa fazer o papel de mediadora nem levar recados entre os ex-parceiros, embora faça ressalvas: “Se houve violência, coerção ou abuso, a prioridade é a proteção e o apoio à pessoa afetada. Nesse caso, manter a antiga amizade não pode ser colocado acima da segurança”.
*A pedido, personagens foram citados apenas com o prenome
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