Filme mineiro da Netflix chega aos cinemas e questiona perdão e maternidade no luto
Compartilhe esse conteúdo!
Compartilhe também nas redes sociais:
Um dia comum em Belo Horizonte, de repente, é suspenso por um acidente trágico. Rompendo de forma cruel a rotina da cidade, um ônibus urbano despenca de um viaduto, de costas, dando fim à vida de quase todos os passageiros — um deles era Wesley, o motorista.
LEIA MAIS | Cineasta Gabriel Martins: "Lançar 'Marte Um' em 2022 é reivindicar a vida"
Essa é a cena que Gabriel Martins cria para colocar sua plateia em estado de choque ao assistir a “Vicentina Pede Desculpas”, filme coproduzido pela Netflix que foi escolhido pelo Brasil para representar o País no Goya (prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha análogo ao que é o Oscar para os EUA).
A trama do filme ganha densidade quando a investigação policial considera a possibilidade do motorista ter provocado o acidente por vontade própria. Como uma mãe pode receber uma notícia tão cruel quanto essa?
Essa mãe é interpretada por Rejane Faria, uma atriz que talvez o Brasil ainda não tenha a percepção concreta da sua importância.
Movida por um sentimento de culpa que atravessa o próprio luto, ela toma para si uma missão arriscada: procurar os familiares de cada vítima para pedir desculpas em nome de seu filho. Ao encarar uma personagem com mais idade e com movimentos debilitados, Rejane apresenta uma camada física da sua presença que ainda não havia sido explorada no cinema.
“A gente começa pela caracterização, mexendo no cabelo, na pele, e emprestei pra ela várias coisas de mim pra Vicentina como manchas e marcas”, Rejane contou ao O POVO quando o filme fez sua estreia nacional no 27º Festival do Rio, em outubro. “Eu aprendi muito a ter paciência, a me entregar e a ter confiança”, conclui.
Ao apresentar o filme no palco, a atriz não conteve a emoção ao agradecer a parceria de décadas com a equipe capitaneada por Gabriel Martins. O diretor, honrado, também deixou as lágrimas rolarem: “A gente tem que lembrar de viver nesse momento político tão difícil, precisamos lutar por esses ancestrais, mulheres, indígenas e pessoas pretas que lutaram para hoje ter um diretor preto lançando um filme”, disse com a voz embargada.
A fala aconteceu no contexto de suspense do segundo turno das eleições presidenciais, e Gabriel projetou para o momento a força, a vontade e o carinho de Vicentina como uma resposta ao mundo.
Diante da tristeza da personagem, “Vicentina Pede Desculpas” exige que seu espectador calibre as expectativas porque a peregrinação pode não encontrar as respostas que um filme convencional daria. Por outro lado, o roteiro de Martins aproveita a lentidão da sua história — 150 minutos que questionam a natureza efêmera do streaming — para explorar emoções distintas sobre o significado do perdão.
O que Vicentina encontra em cada casa, diante de cada familiar em luto, vai da tristeza à coragem, da saudade ao alívio. A trilha sonora e a cenografia de tantas locações reforçam a Filmes de Plástico como uma das produtoras centrais para quem quiser ver com o que se parece o Brasil do dia a dia, da rotina, da vida ordinária. Distante da ideia de que esses sentimentos revelam um rumo novo para lidar com a morte, a história olha para a vida de uma mãe que perdeu seu filho e toma a áspera decisão de ser uma história comum.
Dúvidas, Críticas e Sugestões? Fale com a gente
Tags
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
