Intervenção nos juros preocupa o mercado

André Lara Resende (em foto de 2016) propôs redução forçada dos juros. (Foto: Marina Guillén/EFE)
A proposta de tabelamento dos juros, trazida ao presidente reeleito pelo economista André Lara Resende, assustou o mercado. Não só o mercado: assustou todo mundo. Ou melhor: todo mundo que não quer ver o país atirado em aventuras heterodoxas.
André Lara Resende é um dos autores e executores do Plano Real. Pode-se dizer que não há credencial mais valorizada no Brasil para um economista. Tratou-se não só de arquitetar uma reforma monetária de sucesso, mas também de implantá-la no fogo cruzado da política, realizando uma profunda faxina fiscal no país - o que significa dizer: contrariando uma multidão de interesses e feudos arraigados.
Agora Lara Resende surge com uma proposição que, de certa forma, contraria o seu próprio legado. Na época do Real, a âncora monetária (taxa de juros alta) foi utilizada como um remédio amargo para conter a especulação contra a moeda nascente. Uma vez estabilizado o real, a âncora foi retirada e a taxa de juros iniciou sua trajetória natural de queda, consequência direta do controle da inflação.
Hoje temos uma inflação constantemente fora da meta e uma taxa de juros pressionada por esse fator. O Comitê de Política Monetária do Banco Central - Copom, entidade que Lara Resende ajudou a consolidar - aponta como componente determinante da pressão inflacionária a expansão dos gastos públicos. A observação quase consensual sobre a atual política macroeconômica é de que se faz necessário um ajuste fiscal (contenção de gastos) - e esse tipo de observação não vem só de setores da oposição.
Do ponto de vista governamental, a proposta de André Lara Resende traz uma aparente vantagem política: seria possível conter os juros altos sem precisar cortar gastos
Mas aliados e até integrantes do governo já declararam que não haverá ajuste fiscal. Inclusive com a premissa de que isso não foi prometido na campanha. Se o remédio para os juros altos não é o governo controlar seus gastos, mas controlar a própria taxa de juros, passamos a um terreno bastante exótico em termos de expectativas.
Do ponto de vista governamental, a proposta de André Lara Resende traz uma aparente vantagem política: seria possível conter os juros altos sem precisar cortar gastos. Mas o fato é que nem a área econômica do governo endossou a proposição. Talvez diante da reação muito negativa do mercado, emissários do presidente já informaram que a proposta de tabelamento dos juros não está em cogitação para o próximo mandato presidencial.
Entre os que querem discutir o Brasil a sério, fica a pergunta intrigante sobre a origem dessa ideia inquietante. Será que o país entrará numa espiral de insensatez? Será que o cenário será tomado por franco-atiradores e formuladores voluntaristas? É interessante notar que acadêmicos como Roberto Mangabeira Unger, que já serviu a governos petistas e exerce uma espécie análoga de experimentalismo, neste ano estavam na oposição.
Reeleito em pleno desgaste econômico e político, o governo Dilma colocou Joaquim Levy, um economista respeitado pelo mercado e não afeito a aventuras heterodoxas, para tentar dar um tom de responsabilidade na gestão fazendária (acabou não sendo suficiente para corrigir o rumo). Vejamos se virá da atual administração reeleita algum sinal similar, ou se a aposta diante das perspectivas preocupantes será apenas em propaganda.

Guilherme Fiuza
Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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