Crise do Grupo Mateus: 13 lojas fecham no Pará e milhares de empregos são cortados
A crise enfrentada pelo Grupo Mateus, uma das maiores redes de supermercados do Brasil, atingiu diretamente o Pará, onde 13 lojas da bandeira Eletro Mateus foram fechadas somente no último trimestre de 2025. O movimento integra uma reestruturação nacional que resultou no encerramento de 28 unidades especializadas em eletrodomésticos e eletrônicos e na redução líquida de 6.673 postos de trabalho entre dezembro de 2025 e março de 2026. A companhia também enfrenta queda nos lucros, desvalorização de ações e questionamentos sobre inconsistências contábeis bilionárias.
O impacto no mercado paraense ganha dimensão especial pela presença do grupo em diferentes municípios, por meio das bandeiras Mateus Supermercados, Mix Mateus e Eletro Mateus. As mudanças atingem uma rede que, durante anos, apostou na expansão acelerada pelo Norte e Nordeste, mas agora concentra esforços na redução de despesas e recuperação da rentabilidade.
O Pará concentrou 13 dos 28 fechamentos da Eletro Mateus registrados em 2025, equivalente a 46,4% do total. O número de trabalhadores desligados especificamente no estado não foi informado pela empresa.
Reestruturação do Grupo Mateus impacta o Pará
O fechamento das 13 unidades representa uma das consequências mais visíveis da reorganização do Grupo Mateus no mercado paraense. A companhia também encerrou departamentos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos em outras 20 lojas de varejo alimentar distribuídas por sua área de atuação, preservando nessas unidades a comercialização de alimentos.
A estratégia reduz despesas com estoques, manutenção de estruturas e ocupação de espaços comerciais. Entretanto, também provoca efeitos sobre o mercado de trabalho, fornecedores e consumidores nas localidades atingidas.
No primeiro trimestre de 2026, a Eletro Mateus ainda mantinha 19 lojas no Pará, diante de 54 no Maranhão e cinco no Piauí. A empresa não divulgou a relação completa dos endereços encerrados nem o número de demissões em cada município.
Em Canaã dos Carajás, no sudeste paraense, reportagem publicada pelo portal Zé Dudu em 2 de novembro destacou que a atividade econômica impulsionada pela mineração continua sustentando o comércio local, apesar das dificuldades enfrentadas pelo grupo nacionalmente.
Milhares de trabalhadores foram desligados
A dimensão nacional da reestruturação aparece nos indicadores de emprego. O quadro de funcionários passou de aproximadamente 47,9 mil trabalhadores, em dezembro de 2025, para 41,2 mil em março de 2026, redução de 13,9%.
Os ajustes atingiram operações no Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia. A diminuição de 6.673 postos representa o saldo entre admissões e desligamentos, não necessariamente o número exato de demissões realizadas no período.
Conforme noticiaram o Diário do Nordeste, O Povo e o Diário do Comércio, a empresa passou a priorizar unidades com maior rentabilidade, depois de um ciclo de crescimento acelerado.
A companhia afirma que a reorganização busca eliminar estruturas pouco eficientes e melhorar os resultados operacionais, sem significar o abandono de todos os projetos de expansão.
Rombo contábil abalou confiança do mercado
As dificuldades ganharam maior repercussão em novembro de 2025, quando o Grupo Mateus revelou uma inconsistência de aproximadamente R$ 1,1 bilhão na contabilização dos estoques, relacionada à apuração dos custos médios das mercadorias.
A revisão reduziu o valor anteriormente registrado dos estoques de 2024, de aproximadamente R$ 6 bilhões para R$ 4,9 bilhões, com reflexos negativos de quase R$ 695 milhões no patrimônio líquido.
O episódio provocou questionamentos de investidores e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em comunicado oficial, a empresa explicou que as alterações decorreram da revisão de critérios contábeis e do aprimoramento dos controles internos.
A inconsistência não significa, por si só, o desaparecimento físico de R$ 1,1 bilhão em mercadorias, mas representou uma correção expressiva nos demonstrativos financeiros da companhia.
O caso contribuiu para aumentar a desconfiança do mercado em relação à qualidade das informações contábeis do grupo, fundado pelo empresário Ilson Mateus Rodrigues.
Lucro despenca quase 40% em 2026
Os problemas também aparecem nos resultados financeiros. No segundo trimestre de 2026, o lucro líquido do Grupo Mateus caiu 39,3%, para R$ 236,8 milhões, embora a receita tenha crescido 12,2% na comparação anual.
A queda demonstra que o aumento das vendas não foi suficiente para preservar a rentabilidade. No primeiro trimestre, a receita líquida havia alcançado R$ 9,4 bilhões, enquanto as despesas operacionais ultrapassaram R$ 1,6 bilhão, avanço de 29,3% em relação ao mesmo período de 2025.
O grupo permanece como a terceira maior rede de varejo alimentar do Brasil, segundo o Ranking ABRAS 2026, com faturamento de R$ 43,55 bilhões em 2025. Os números mostram que a companhia continua movimentando bilhões, apesar das dificuldades financeiras e operacionais.
Autuação fiscal e desafios de recuperação
Outro problema surgiu em 29 de junho de 2026, quando a companhia comunicou uma autuação da Receita Federal no valor de R$ 1,28 bilhão contra sua controlada Armazém Mateus.
A cobrança envolve o tratamento tributário de créditos presumidos de ICMS nas bases de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), referentes aos exercícios de 2022 e 2023.
A autuação representa uma disputa tributária e não uma dívida definitivamente reconhecida. Ainda assim, acrescenta um fator de incerteza ao cenário enfrentado pela empresa, que já precisa recuperar a confiança dos investidores após as revisões contábeis.
Em julho, a agência Fitch reafirmou a classificação de crédito nacional AAA(bra) do Grupo Mateus, sinalizando que, apesar dos desafios, a companhia ainda apresentava uma avaliação favorável de capacidade de pagamento.
Impacto no mercado de trabalho paraense
No Pará, o encerramento das lojas da Eletro Mateus evidencia uma mudança de estratégia em um mercado que recebeu investimentos importantes do grupo nos últimos anos.
O impacto não se limita aos empregados diretamente envolvidos. A redução das operações pode atingir serviços terceirizados, transportadoras, fornecedores e pequenos negócios instalados nas proximidades das unidades encerradas. A extensão desses efeitos, entretanto, ainda não foi quantificada.
A ausência de informações detalhadas sobre as cidades atingidas e o número de desligamentos no estado dificulta uma avaliação precisa das consequências sociais e econômicas.
A companhia ainda não apresentou publicamente um levantamento individualizado dos cortes por município paraense. Também não há confirmação de que as 13 unidades fechadas serão reabertas.
A divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026 está prevista para 12 de novembro, quando investidores poderão avaliar se as medidas de contenção de despesas começaram a produzir uma recuperação consistente.
Desafios e perspectivas futuras do Grupo Mateus
A reorganização do Grupo Mateus representa uma mudança importante na trajetória de uma empresa que construiu sua presença nacional com inaugurações sucessivas e diversificação de negócios.
Agora, a prioridade declarada é melhorar margens, controlar despesas e concentrar investimentos nas operações mais rentáveis. Isso não significa que a companhia tenha interrompido completamente sua expansão, nem que exista confirmação de insolvência.
Para o Pará, entretanto, os números já revelam consequências concretas: 13 lojas especializadas encerradas e participação em uma reestruturação que reduziu milhares de postos de trabalho no conjunto das operações regionais.
O desafio será conciliar a recuperação financeira com a preservação de empregos e da presença comercial no estado. Enquanto isso, a população paraense acompanha os reflexos de uma crise empresarial que ultrapassou os balanços financeiros e chegou às portas das lojas.
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