Lula 4 precisa pautar a disputa política no debate público, defende o ex-ministro Franklin Martins
A virada histórica no segundo turno que deu a vitória ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) se deu por uma combinação de fatores, sendo os principais a mobilização popular, o engajamento digital e o medo de que a família Bolsonaro voltasse ao poder.
Ao jornal É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, o jornalista e ex-ministro de Comunicação, Franklin Martins, avalia que houve uma diferença muito profunda entre o primeiro e o segundo turno no que diz respeito à disputa política. “O essencial é a disputa política. Propaganda é para consolidar certas ideias”, aponta.
Segundo Martins, no primeiro turno, a campanha de Lula, em muitos momentos, parecia estar desfilando, ostentando um certo clima de “oba-oba”. Essa postura representou obstáculos muito práticos para fazer frente à agressividade da extrema direita. “O Lula sempre falou uma coisa muito interessante; ele dizia: ‘Eu tenho uma boca e dois ouvidos para ouvir mais do que falar’. E, nos últimos tempos, parecia que tinha duas bocas e um ouvido, e olhe lá. Mas ele percebeu que tem que voltar a ser o Lula com dois ouvidos e uma boca”, pondera.
A mudança de postura ocorreu quando a militância e a sociedade civil assumiram o protagonismo do processo eleitoral. “A rua e a rede passaram a comandar a disputa, um comando de frente ampla”, afirma.
Martins avalia que havia uma resistência interna do PT e do campo progressista como um todo sobre a necessidade de mudar a forma de se comunicar e que essa visão não é de hoje, mas remonta às eleições de 2014. “Todos tiveram muita dificuldade para entender que tinham que mudar. Demoraram muito a mudar e só mudaram porque bateu a consciência de que, se não mudasse, não virava. E virou. Foi mais gente votar, reduziu a abstenção. Quem estava como eleitor enrustido do Lula foi para a rua. Houve uma disputa, houve um clamor na sociedade e, ao mesmo tempo, isso jogou nas cordas o Flávio Bolsonaro, mostrando quem ele é, um zero à esquerda”, analisa.
De olho no futuro
O ex-ministro Franklin Martins observa que, para consolidar a governabilidade diante de um Congresso conservador e construir um governo próximo da população, será fundamental ampliar o diálogo com diversos segmentos da sociedade, indo além dos conselhos e conferências tradicionais. A estratégia exige aproximar o Executivo não apenas das bases populares e dos trabalhadores.
“Precisa ouvir a sociedade, os setores populares, os trabalhadores, as pessoas mais pobres, os carentes, mas tem de ouvir também a classe média, tem que conversar com a chamada classe C, que é uma coisa impressionante, foi quem alcançou, nos governos progressistas, um patamar de vida que não tinha antes e que, depois, foi onde o Flávio Bolsonaro teve o seu melhor desempenho. É um pessoal que tem medo de perder o que conquistou”, aponta. “Tem que ter conversa, por exemplo, com os evangélicos; não pode continuar achando que evangélico tem que ser tratado à distância”, continua.
No campo da comunicação, o grande desafio não reside na veiculação de propaganda ou publicidade governamental, mas sim na condução da disputa ideológica permanente na sociedade. “Tem que entender o seguinte: a mídia, o establishment, o que eles querem é ter um governo que ajoelhe no milho para eles e faça o que eles querem”, avalia.
Em um cenário de mídia fragmentada, no qual veículos tradicionais perderam parte de sua centralidade, o governo necessita de liderança para pautar o debate nas redes e nas ruas. “Theodore Roosevelt, nos Estados Unidos, tinha uma expressão que ele usava na época em que a imprensa era muito forte: ‘Eu tenho que pautar a disputa política, então eu preciso usar o bully pulpit [visibilidade presidencial]’. E ele pautava, e foi por isso que foi um presidente tão forte”, defende.
As prioridades de Lula 4 devem combinar a continuidade das políticas sociais, defesa dos direitos e um esforço de melhoria econômica, aproveitando a abundância de energia limpa e minerais críticos do Brasil. “É preciso ter um projeto que continue com a inclusão social, continue com respeito aos direitos e, ao mesmo tempo, reintroduza a reindustrialização do país”, avalia.
Embora defenda a manutenção de uma política fiscal rigorosa, o ex-ministro avalia que o principal obstáculo para a geração de empregos e renda é a manutenção de taxas de juros reais extremamente elevadas, que desestimulam o investimento no setor produtivo em favor da renda fixa.
“Tem que ter um projeto de país, ao mesmo tempo, que enfrente os gargalos que impedem o nosso crescimento. O nosso principal problema não é, hoje em dia, um problema fiscal, embora tenha que continuar a ter uma política fiscal correta, etc. Nosso principal problema no Brasil são os juros escandalosos do país”, aponta.
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h da manhã, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
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