Consumo interno é maior incógnita para carne bovina em 2027, diz Rabobank
O consumo doméstico de carne bovina será a principal incógnita para o mercado brasileiro em 2027, diante da perda de competitividade da proteína em relação ao frango e à carne suína, segundo avaliação do Rabobank. Embora a oferta menor de animais para abate deva sustentar os preços do boi gordo, o encarecimento da carne bovina em relação às concorrentes pode limitar a demanda e pressionar as cotações ao longo do próximo ano.
O banco holandês projeta que o consumo brasileiro de carne bovina recue para 31,4 quilos por habitante em 2027, uma projeção 6,2% menor que a estimativa de 33,4 quilos para 2026.
Para Wagner Yanaguizawa, analista de proteínas do Rabobank, a dificuldade de manter a competitividade da carne bovina no varejo é hoje o principal ponto de atenção para o setor.
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Desde o fim de 2024, os preços da carne bovina no varejo vêm se distanciando dos valores do frango e da carne suína. Neste ano, o movimento ganhou força com a maior oferta dessas duas proteínas, que pressionou suas cotações e ampliou a diferença em relação à carne bovina.
Entre janeiro de 2024 e julho de 2026, a competitividade do frango em relação à carne bovina aumentou cerca de 49%, enquanto a da carne suína avançou 20%, segundo os dados apresentados pelo analista.
“Não estamos falando de uma diferença pequena. Estamos realmente vendo uma migração de parte da população para as proteínas mais baratas, que deve ser o cenário que vai se manter no próximo ano”, afirmou Yanaguizawa, durante coletiva de imprensa.
A preocupação do banco é que uma demanda doméstica mais fraca limite a capacidade de sustentação dos preços, mesmo com a continuidade da procura internacional pela carne brasileira. O mercado interno absorve aproximadamente 61% de toda a oferta de carne bovina do país, o que torna o comportamento do consumidor um fator determinante para a formação das cotações.
Para o analista, o primeiro trimestre de 2027 merece atenção especial. Historicamente, o período registra o menor consumo doméstico de carne bovina, mas as indicações do mercado futuro apontam preços do boi gordo acima de R$ 400 por arroba nos primeiros meses do ano.
Na avaliação de Yanaguizawa, se a demanda ficar abaixo do esperado justamente nesse período, poderá haver pressão sobre os preços, mesmo com a China mantendo um ritmo elevado de compras. O analista observa que, especialmente no segundo semestre deste ano, a combinação entre oferta e consumo doméstico teve maior influência sobre as cotações do que a demanda externa.
“Se tiver alguma intempérie no ano que vem, em termos de pressão de preço, entendo que pode ser via consumo do mercado local”, disse.
Considerando o cenário de oferta e demanda, o Rabobank avalia que o preço médio do boi gordo deve ficar um pouco abaixo de R$ 400 por arroba em 2027. O analista não descarta, porém, picos acima desse patamar ao longo do ano.
Oferta brasileira deve cair 3%
Do lado da oferta, o Rabobank projeta que a produção brasileira de carne bovina recue 3% em 2027, para 11 milhões de TEC (toneladas equivalente carcaça), contra 11,3 milhões de TEC estimadas para 2026.
A redução está relacionada ao ciclo pecuário e à continuidade da retenção de fêmeas pelos produtores. Com a diminuição do número de vacas destinadas ao abate, aumenta a disponibilidade de matrizes para reprodução e, consequentemente, a produção de bezerros. O efeito, no entanto, é uma menor oferta de animais para abate no curto prazo.
O estoque de fêmeas no Brasil vem renovando mínimas históricas, em um movimento de retenção que deve continuar no próximo ano. A escassez de animais de reposição, especialmente bezerros e bois magros, também deve permanecer como uma característica do mercado.
A oferta global de carne bovina deve seguir restrita em 2027. O Rabobank projeta estabilidade ou queda de até 0,5% na produção mundial, depois de uma retração estimada entre 1,5% e 2% em 2026. Brasil e Estados Unidos são os principais responsáveis pela pressão sobre a disponibilidade global.
Nos Estados Unidos, o banco estima queda de 4,5% na produção em 2026. Para 2027, a expectativa é de uma recuperação marginal, entre 0,5% e 1%. O rebanho americano deve continuar limitado, mantendo os abates próximos dos níveis atuais. Uma das estratégias dos produtores para compensar a menor disponibilidade de animais é elevar o peso médio das carcaças.
No Brasil, outro fator que pode limitar a oferta no início do próximo ano é o clima. Yanaguizawa destacou os possíveis efeitos do El Niño sobre as pastagens. Caso o fenômeno provoque períodos mais prolongados de veranico no fim deste ano e no começo de 2027, a engorda a pasto poderá ser prejudicada, reduzindo a disponibilidade de animais para abate no primeiro trimestre.
Exportações devem crescer 1,5%
Apesar da expectativa de queda na produção, as exportações brasileiras de carne bovina devem continuar avançando. O Rabobank projeta embarques de 4,5 milhões de toneladas em 2027, alta de 1,5% em relação à estimativa para 2026.
A oferta global mais restrita deve abrir espaço para o Brasil consolidar mercados já atendidos e ampliar a presença em novos destinos. Entre as oportunidades, Yanaguizawa destacou Japão e Coreia do Sul. Segundo ele, os processos de habilitação estão em estágio avançado, com os protocolos já cumpridos e a expectativa de divulgação dos relatórios finais pelas autoridades.
A abertura desses mercados pode ser particularmente relevante diante da suspensão dos embarques brasileiros para a União Europeia. Na avaliação do analista, a retomada das exportações ao bloco não deve ocorrer nos próximos dois anos. A expectativa considera o tempo necessário para o nascimento dos bezerros e seu desenvolvimento até o abate, dentro do ciclo de produção da carne bovina.
China e outros mercados
Para a China, o Rabobank trabalha com a possibilidade de um aumento de aproximadamente 3% na cota brasileira em relação ao volume deste ano, o equivalente a cerca de 33 mil toneladas adicionais. A medida, no entanto, ainda não foi confirmada pelas autoridades chinesas.
Uma das discussões para o próximo ano envolve a distribuição dos volumes da cota ao longo dos 12 meses. A proposta, que reúne Ministério da Agricultura, Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) e frigoríficos, busca evitar a concentração dos embarques em determinados períodos e reduzir oscilações acentuadas de preços.
Neste ano, a perspectiva de esgotamento da cota levou exportadores a anteciparem embarques para a China, provocando mudanças no ritmo das vendas externas. O movimento contribuiu para uma curva de preços com pico no segundo trimestre, pressão no terceiro trimestre e expectativa de recuperação no último trimestre.
Caso haja alinhamento entre os frigoríficos para distribuir os embarques mensalmente, a tendência seria de menor amplitude das oscilações de preços ao longo de 2027, segundo o analista.
Além da China, o Rabobank identifica oportunidades no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, regiões em que o consumo de carne bovina tende a crescer.
Yanaguizawa também chamou a atenção para a exportação de gado vivo, especialmente para a Turquia. A atividade pode ter impacto sobre a disponibilidade de animais no mercado interno, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde há áreas especializadas nesse tipo de operação.
Nos Estados Unidos, apesar da oferta restrita, o banco espera uma ligeira redução da demanda doméstica por carne bovina em 2027. Esse movimento pode desacelerar o crescimento das exportações brasileiras para o país, que avançaram neste ano.
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