O Tempo
04/11/2026 16:30

Eleições nos EUA: derrota de Trump pode frear política de intervenções na América Latina

A derrota política de Donald Trump, que levou os republicanos a perderem a maioria no Congresso dos EUA, pode limitar as intervenções americanas na América Latina e estimular negociações comerciais com o Brasil para resolver a questão das tarifas.

Também pode enfraquecer a estratégia de Trump de ampliar a influência dos EUA na região e conter o avanço econômico da China. Essa política foi marcada pela invasão da Venezuela, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro de 2026, e posterior acordo petroleiro com Caracas, que reservou 21% do petróleo do país para uma empresa ligada ao Pentágono, dos EUA, com parte do óleo a ser vendido pelo preço de custo.

A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), disse que um Congresso de maioria democrata vai impor uma série de limites para Trump, como na autorização de gastos para ações no exterior, e na abertura de investigações contra membros do Executivo.

“No âmbito da defesa, isso vai ser muito importante. Eu imagino que o Congresso tende a sustar os gastos desse setor. Na América Latina, isso tende a ser percebido, inclusive, dentro do Escudo das Américas, com talvez menos recursos e menos ênfase a essa política. Portanto, pode vir a representar um freio para interromper essas políticas intervencionistas”, avalia.

Uma das iniciativas que marca a política de Trump neste segundo mandato é o Escudo das Américas, criado sob a justificativa de combater os cartéis de drogas, mas que tem sido apontado instrumento de interferência dos EUA na região.

Na Bolívia, o Escudo das Américas foi usado para prender o procurador-geral do país, Roger Mariaca, por uma acusação de colaboração com o narcotráfico. A prisão de Mariaca levantou suspeitas porque ele investigava o operador digital Fernando Cerimedo, ligado ao movimento de Trump nos EUA, e que atuou como assessor dos presidentes da Argentina, Javier Milei, e da própria Bolívia, Rodrigo Paz. 

+ Duas mineiras são eleitas nas Midterms dos EUA; veja quem são os brasileiros que conquistaram vagas

Tarifas 

Entre outras medidas da Casa Branca, o tarifaço aplicado pelo governo Donald Trump contra o Brasil vem sendo interpretado pelo governo brasileiro como uma interferência política que mirou as eleições de outubro a favor do adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.  

O doutor em ciência política Juliano Machado Pires avalia que a derrota eleitoral desta terça-feira (3) deve funcionar como um incentivo para o governo Trump chegar a um acordo com o Brasil.

“Se eles aprenderam algo com a derrota, é que a economia precisa melhorar. Comprar briga com o Brasil neste momento não faz o menor sentido”, disse à Agência Brasil.

Juliano acrescentou ainda que o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, responsável pela política externa do governo Trump, deve ficar mais ocupado dando explicações ao Congresso agora com maioria democrata.

“Eles precisam de uma série de acordos que eles têm interesse no Brasil, em várias áreas, como nas tarifas, terras raras e data centers. Se eles forem racionais, é o momento de fazer as pazes com o governo brasileiro”, disse.

Juliano Machado não descarta, no entanto, a possibilidade de o governo Trump buscar criar “factóides” no exterior para desviar a atenção de problemas internos.

+ Democrata faz história ao se tornar o primeiro brasileiro eleito deputado estadual na Flórida

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