JustiçaAlexandre Tourinho aposta em inteligência artificial e cerco ao crime organizado para novo mandato à frente do MPPA O procurador-geral de Justiça Alexandre Tourinho apresentou suas prioridades para um novo ciclo à frente do Ministério Público do Pará, com foco em tecnologia, combate ao crime organizado e proteção de vítimas.
Aos 50 anos, o procurador-geral de Justiça Alexandre Marcus Fonseca Tourinho se prepara para iniciar um novo ciclo à frente do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA). Com um ano e meio de gestão, candidatura única à recondução e uma agenda que combina tecnologia, combate ao crime organizado e aproximação com a população, ele apresentou suas prioridades durante entrevista ao jornalista Mauro Bonna, exibida na última terça-feira (3), às 22h, no programa Argumento, da RBA TV.
Tourinho fez um balanço das iniciativas implantadas desde que assumiu o comando da instituição, em 2025, e projetou o trabalho para os próximos dois anos e meio, considerando o período restante da atual gestão e uma eventual recondução por mais dois anos. Entre os principais desafios estão o avanço das facções criminosas sobre atividades econômicas, a modernização das investigações, a proteção de vítimas e a ampliação da presença do Ministério Público no interior.
A eleição interna está prevista para 1º de dezembro. Como único candidato inscrito, Tourinho deverá ter seu nome submetido à governadora Hana Ghassan, responsável pela nomeação. Ele lembrou que situação semelhante ocorreu na recondução do ex-procurador-geral César Mattar Jr. A candidatura única, entretanto, não dispensa a votação nem o ato formal de nomeação.
Inteligência artificial para aproximar o MP da população
Uma das maiores apostas de Tourinho é o uso da inteligência artificial para reduzir tarefas burocráticas e permitir que promotores dediquem mais tempo ao atendimento das comunidades. Segundo ele, o MPPA já dispõe de mais de 160 agentes de IA integrados às atividades institucionais.
Entre as ferramentas estão o Marias, voltado ao enfrentamento da violência doméstica; o Diana, que auxilia na análise de tratados e decisões internacionais de direitos humanos; e o Antonieta, desenvolvido para receber denúncias eleitorais pelo WhatsApp e encaminhá-las aos promotores responsáveis.
“A ideia da inteligência artificial é tirar o promotor da frente do computador. Eu quero ver o promotor de Justiça do lado do padre, do pastor, do agente comunitário, indo discutir na Câmara dos Vereadores, o promotor de Justiça na comunidade, que é onde o Ministério Público mais precisa estar”, afirmou.
Na fiscalização da administração pública, sistemas automatizados já fazem a leitura de diários oficiais, acompanham informações sobre repasses financeiros e ajudam a identificar situações que merecem análise dos promotores, inclusive em licitações e contratos.
Tourinho ressaltou que as ferramentas não substituem a avaliação humana. O MPPA investiu em capacitação, sistemas internos de acesso controlado e proteção de dados. A modernização também inclui um novo centro de processamento de dados, com investimento próximo de R$ 20 milhões, segundo o procurador-geral.
Combate ao crime organizado e avanço sobre a economia
O combate às organizações criminosas será outro eixo central da próxima etapa da gestão. Tourinho revelou que investigações já identificaram a atuação de grupos criminosos em postos de combustíveis no Pará, inclusive em Belém, e apontou preocupação com a cobrança de taxas ilegais e a extorsão de comerciantes.
Segundo ele, as facções não dependem mais exclusivamente do tráfico de drogas. Golpes digitais, lavagem de dinheiro e infiltração em atividades empresariais passaram a integrar o campo de atuação dessas organizações.
“Aqui no Pará nós temos a taxa do crime. Já é de conhecimento nosso, já estamos em investigação, e investigação bastante avançada. O crime organizado está se caracterizando por uma tecnologia muito ágil, muito preparada, e nós, do outro lado, temos também que seguir essa regra”, declarou o PGJ.
Para enfrentar esse cenário, o MPPA ampliou a estrutura de investigação especializada. Além do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Tourinho destacou equipes voltadas à defesa do patrimônio público, aos crimes dolosos contra a vida e às fraudes digitais.
O procurador-geral citou ainda o sistema Janos, que integra informações de diferentes órgãos e bases de segurança para auxiliar na identificação de investigados e no cruzamento de dados. A ferramenta também é utilizada no apoio a investigações patrimoniais, em articulação com instituições como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Outra frente envolve crimes contra defensores de direitos humanos. Uma força-tarefa passou a examinar casos antigos, alguns com famílias que aguardam respostas há mais de duas décadas.
Meio ambiente e combate ao garimpo ilegal
Na área ambiental, Tourinho demonstrou preocupação com a presença de organizações criminosas na exploração ilegal de ouro e com os impactos da atividade sobre rios e comunidades amazônicas.
“Nossa intenção de estruturar um núcleo especializado na questão mineral, além de fortalecer a atuação do Grupo de Atuação Especializado em Meio Ambiente (Gaema). O trabalho inclui monitoramento por satélite, apoio técnico aos promotores do interior e responsabilização de envolvidos em queimadas, desmatamento e outras infrações ambientais”, antecipou.
Tourinho reconheceu, porém, que as investigações são complexas e que as punições nem sempre chegam com a rapidez esperada. Em muitos casos, a responsabilização ocorre por meio de multas e perda de patrimônio, não necessariamente com prisão.
Sobre os créditos de carbono, manifestou posição favorável à utilização do mecanismo para financiar a preservação da floresta, desde que eventuais irregularidades sejam corrigidas e investigadas. Reconheceu que existem divergências jurídicas e institucionais sobre o tema.
Proteção às vítimas e presença do MP no Marajó
A proteção de crianças, adolescentes e mulheres também aparece entre as prioridades. Tourinho anunciou a previsão de colocar em operação uma embarcação destinada ao atendimento de vítimas de violência no arquipélago do Marajó.
A iniciativa, desenvolvida em parceria com outras instituições, deverá ampliar o acolhimento e facilitar a produção de provas em casos de abuso e exploração sexual, especialmente em localidades com dificuldade de acesso a serviços especializados.
O procurador-geral explicou que a ausência de estruturas adequadas de atendimento e perícia prejudica investigações e pode contribuir para a impunidade.
Outro projeto é a criação de uma unidade móvel terrestre para levar serviços do MPPA às comunidades, com orientação sobre direitos, atendimento a vítimas, questões de consumo e encaminhamento de denúncias.
A proposta é complementar o trabalho já realizado pelas promotorias e aproximar a instituição de pessoas que dificilmente conseguem chegar às suas sedes.
Balanço de gestão e independência institucional
Ao avaliar o período à frente do MPPA, Tourinho destacou avanços na modernização tecnológica, na capacitação de servidores e promotores e na ampliação de estruturas especializadas.
A instituição também desenvolveu iniciativas reconhecidas em premiações nacionais, incluindo projetos nas áreas de saúde, proteção de crianças e adolescentes e atendimento a comunidades.
Na formação profissional, foram ampliadas parcerias com universidades e instituições de ensino, com oferta de especializações e mestrados. Tourinho citou ainda articulações para viabilizar doutorados e intercâmbios internacionais.
Na estrutura física, mencionou novas instalações em municípios do interior, a preparação de um prédio na Cidade Velha, em Belém, e o projeto de uma futura sede na avenida Almirante Barroso.
“A construção dessa sede, ainda em fase de planejamento, é estimada em aproximadamente R$ 500 milhões e poderá seguir um modelo de contratação de longo prazo, com transferência do imóvel ao patrimônio institucional ao final do contrato”
Apesar dos investimentos, Tourinho reconheceu limitações orçamentárias e dificuldades para manter profissionais em regiões distantes. Atualmente, segundo ele, o MPPA possui presença física em 119 dos 144 municípios paraenses.
Independência diante dos governos
A relação institucional com o Executivo estadual foi um dos assuntos abordados no encerramento da entrevista. Tourinho afirmou que manteve diálogo com o ex-governador Helder Barbalho e com a governadora Hana Ghassan e espera preservar essa relação com o governador eleito Daniel Santos.
Ele confirmou ter recebido Daniel para uma conversa que classificou como republicana, mas rejeitou a ideia de que a boa convivência institucional signifique interferência nas investigações.
“Tenho aqui no meu gabinete, em razão da competência própria do procurador-geral de Justiça, mais de mil ações contra gestores dos municípios. Tenho ações contra o governo do Estado do Pará. Jamais vamos ser subservientes a quem quer que seja”, afirmou.
Tourinho também contestou acusações de que o Ministério Público protegeria aliados políticos do governo estadual. Segundo ele, o órgão precisa preservar o sigilo das investigações e não pode transformar cada operação em exposição pública de pessoas investigadas.
Ao projetar o relacionamento com a próxima administração estadual, reforçou a disposição para o diálogo, sem abrir mão das atribuições constitucionais do Ministério Público.
“Teremos um excelente relacionamento, espero ter o relacionamento mais republicano possível. Mas que não se espere um Ministério Público recuado, que não se espere um Ministério Público de quatro para quem quer que seja”, declarou.
Próximos passos da gestão Tourinho no MPPA
Para os próximos dois anos e meio, Tourinho pretende consolidar os sistemas de inteligência artificial, fortalecer o combate às facções e às fraudes financeiras, ampliar a fiscalização ambiental e levar o atendimento institucional a regiões mais isoladas.
O plano inclui também melhorar a infraestrutura digital, avançar nas obras previstas e ampliar a formação de promotores e servidores.
O principal desafio será transformar os investimentos tecnológicos e a reorganização administrativa em resultados percebidos pela população, especialmente nas comunidades mais distantes dos grandes centros.
A recondução, caso confirmada após a eleição interna e a nomeação pela governadora, dará a Tourinho mais dois anos para executar essa agenda.
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