Diário do Pará
04/11/2026 16:30

JustiçaAlexandre Tourinho aposta em inteligência artificial e cerco ao crime organizado para novo mandato à frente do MPPA O procurador-geral de Justiça Alexandre Tourinho apresentou suas prioridades para um novo ciclo à frente do Ministério Público do Pará, com foco em tecnologia, combate ao crime organizado e proteção de vítimas.

Aos 50 anos, o procurador-geral de Justiça Alexandre Marcus Fonseca Tourinho se prepara para iniciar um novo ciclo à frente do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA). Com um ano e meio de gestão, candidatura única à recondução e uma agenda que combina tecnologia, combate ao crime organizado e aproximação com a população, ele apresentou suas prioridades durante entrevista ao jornalista Mauro Bonna, exibida na última terça-feira (3), às 22h, no programa Argumento, da RBA TV.

Tourinho fez um balanço das iniciativas implantadas desde que assumiu o comando da instituição, em 2025, e projetou o trabalho para os próximos dois anos e meio, considerando o período restante da atual gestão e uma eventual recondução por mais dois anos. Entre os principais desafios estão o avanço das facções criminosas sobre atividades econômicas, a modernização das investigações, a proteção de vítimas e a ampliação da presença do Ministério Público no interior.

A eleição interna está prevista para 1º de dezembro. Como único candidato inscrito, Tourinho deverá ter seu nome submetido à governadora Hana Ghassan, responsável pela nomeação. Ele lembrou que situação semelhante ocorreu na recondução do ex-procurador-geral César Mattar Jr. A candidatura única, entretanto, não dispensa a votação nem o ato formal de nomeação.

Inteligência artificial para aproximar o MP da população

Uma das maiores apostas de Tourinho é o uso da inteligência artificial para reduzir tarefas burocráticas e permitir que promotores dediquem mais tempo ao atendimento das comunidades. Segundo ele, o MPPA já dispõe de mais de 160 agentes de IA integrados às atividades institucionais.

Entre as ferramentas estão o Marias, voltado ao enfrentamento da violência doméstica; o Diana, que auxilia na análise de tratados e decisões internacionais de direitos humanos; e o Antonieta, desenvolvido para receber denúncias eleitorais pelo WhatsApp e encaminhá-las aos promotores responsáveis.

“A ideia da inteligência artificial é tirar o promotor da frente do computador. Eu quero ver o promotor de Justiça do lado do padre, do pastor, do agente comunitário, indo discutir na Câmara dos Vereadores, o promotor de Justiça na comunidade, que é onde o Ministério Público mais precisa estar”, afirmou.

Na fiscalização da administração pública, sistemas automatizados já fazem a leitura de diários oficiais, acompanham informações sobre repasses financeiros e ajudam a identificar situações que merecem análise dos promotores, inclusive em licitações e contratos.

Tourinho ressaltou que as ferramentas não substituem a avaliação humana. O MPPA investiu em capacitação, sistemas internos de acesso controlado e proteção de dados. A modernização também inclui um novo centro de processamento de dados, com investimento próximo de R$ 20 milhões, segundo o procurador-geral.

Alexandre Tourinho apresentou no programa Argumento os resultados de sua gestão e as prioridades para um novo mandato à frente do MPPA hoje.

Combate ao crime organizado e avanço sobre a economia

O combate às organizações criminosas será outro eixo central da próxima etapa da gestão. Tourinho revelou que investigações já identificaram a atuação de grupos criminosos em postos de combustíveis no Pará, inclusive em Belém, e apontou preocupação com a cobrança de taxas ilegais e a extorsão de comerciantes.

Segundo ele, as facções não dependem mais exclusivamente do tráfico de drogas. Golpes digitais, lavagem de dinheiro e infiltração em atividades empresariais passaram a integrar o campo de atuação dessas organizações.

“Aqui no Pará nós temos a taxa do crime. Já é de conhecimento nosso, já estamos em investigação, e investigação bastante avançada. O crime organizado está se caracterizando por uma tecnologia muito ágil, muito preparada, e nós, do outro lado, temos também que seguir essa regra”, declarou o PGJ.

Para enfrentar esse cenário, o MPPA ampliou a estrutura de investigação especializada. Além do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Tourinho destacou equipes voltadas à defesa do patrimônio público, aos crimes dolosos contra a vida e às fraudes digitais.

O procurador-geral citou ainda o sistema Janos, que integra informações de diferentes órgãos e bases de segurança para auxiliar na identificação de investigados e no cruzamento de dados. A ferramenta também é utilizada no apoio a investigações patrimoniais, em articulação com instituições como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Outra frente envolve crimes contra defensores de direitos humanos. Uma força-tarefa passou a examinar casos antigos, alguns com famílias que aguardam respostas há mais de duas décadas.

Meio ambiente e combate ao garimpo ilegal

Na área ambiental, Tourinho demonstrou preocupação com a presença de organizações criminosas na exploração ilegal de ouro e com os impactos da atividade sobre rios e comunidades amazônicas.

“Nossa intenção de estruturar um núcleo especializado na questão mineral, além de fortalecer a atuação do Grupo de Atuação Especializado em Meio Ambiente (Gaema). O trabalho inclui monitoramento por satélite, apoio técnico aos promotores do interior e responsabilização de envolvidos em queimadas, desmatamento e outras infrações ambientais”, antecipou.

Tourinho reconheceu, porém, que as investigações são complexas e que as punições nem sempre chegam com a rapidez esperada. Em muitos casos, a responsabilização ocorre por meio de multas e perda de patrimônio, não necessariamente com prisão.

Sobre os créditos de carbono, manifestou posição favorável à utilização do mecanismo para financiar a preservação da floresta, desde que eventuais irregularidades sejam corrigidas e investigadas. Reconheceu que existem divergências jurídicas e institucionais sobre o tema.

O procurador-geral apontou o uso de mais de 160 agentes de inteligência artificial para apoiar o trabalho de promotores em todo o Pará hoje. O sistema Janos integra informações de segurança e auxilia investigações, segundo o procurador-geral Alexandre Tourinho, na entrevista à TV.

Proteção às vítimas e presença do MP no Marajó

A proteção de crianças, adolescentes e mulheres também aparece entre as prioridades. Tourinho anunciou a previsão de colocar em operação uma embarcação destinada ao atendimento de vítimas de violência no arquipélago do Marajó.

A iniciativa, desenvolvida em parceria com outras instituições, deverá ampliar o acolhimento e facilitar a produção de provas em casos de abuso e exploração sexual, especialmente em localidades com dificuldade de acesso a serviços especializados.

O procurador-geral explicou que a ausência de estruturas adequadas de atendimento e perícia prejudica investigações e pode contribuir para a impunidade.

Outro projeto é a criação de uma unidade móvel terrestre para levar serviços do MPPA às comunidades, com orientação sobre direitos, atendimento a vítimas, questões de consumo e encaminhamento de denúncias.

A proposta é complementar o trabalho já realizado pelas promotorias e aproximar a instituição de pessoas que dificilmente conseguem chegar às suas sedes.

Balanço de gestão e independência institucional

Ao avaliar o período à frente do MPPA, Tourinho destacou avanços na modernização tecnológica, na capacitação de servidores e promotores e na ampliação de estruturas especializadas.

A instituição também desenvolveu iniciativas reconhecidas em premiações nacionais, incluindo projetos nas áreas de saúde, proteção de crianças e adolescentes e atendimento a comunidades.

Na formação profissional, foram ampliadas parcerias com universidades e instituições de ensino, com oferta de especializações e mestrados. Tourinho citou ainda articulações para viabilizar doutorados e intercâmbios internacionais.

Na estrutura física, mencionou novas instalações em municípios do interior, a preparação de um prédio na Cidade Velha, em Belém, e o projeto de uma futura sede na avenida Almirante Barroso.

“A construção dessa sede, ainda em fase de planejamento, é estimada em aproximadamente R$ 500 milhões e poderá seguir um modelo de contratação de longo prazo, com transferência do imóvel ao patrimônio institucional ao final do contrato”

Apesar dos investimentos, Tourinho reconheceu limitações orçamentárias e dificuldades para manter profissionais em regiões distantes. Atualmente, segundo ele, o MPPA possui presença física em 119 dos 144 municípios paraenses.

Tourinho afirmou que o MPPA investiga a atuação de facções em postos de combustíveis e casos de extorsão no comércio central de Belém no PA. O combate a garimpos ilegais e queimadas está entre as prioridades ambientais apontadas pelo gestor do Ministério Público do Estado do Pará.

Independência diante dos governos

A relação institucional com o Executivo estadual foi um dos assuntos abordados no encerramento da entrevista. Tourinho afirmou que manteve diálogo com o ex-governador Helder Barbalho e com a governadora Hana Ghassan e espera preservar essa relação com o governador eleito Daniel Santos.

Ele confirmou ter recebido Daniel para uma conversa que classificou como republicana, mas rejeitou a ideia de que a boa convivência institucional signifique interferência nas investigações.

“Tenho aqui no meu gabinete, em razão da competência própria do procurador-geral de Justiça, mais de mil ações contra gestores dos municípios. Tenho ações contra o governo do Estado do Pará. Jamais vamos ser subservientes a quem quer que seja”, afirmou.

Tourinho também contestou acusações de que o Ministério Público protegeria aliados políticos do governo estadual. Segundo ele, o órgão precisa preservar o sigilo das investigações e não pode transformar cada operação em exposição pública de pessoas investigadas.

Ao projetar o relacionamento com a próxima administração estadual, reforçou a disposição para o diálogo, sem abrir mão das atribuições constitucionais do Ministério Público.

“Teremos um excelente relacionamento, espero ter o relacionamento mais republicano possível. Mas que não se espere um Ministério Público recuado, que não se espere um Ministério Público de quatro para quem quer que seja”, declarou.

Na entrevista a Mauro Bonna, Tourinho defendeu a autonomia do MPPA diante do governo atual e futuro e a fiscalização de gestores do Pará. A candidatura única de Alexandre Tourinho à recondução será submetida à votação interna em dezembro, antes da nomeação pelo Poder Executivo.

Próximos passos da gestão Tourinho no MPPA

Para os próximos dois anos e meio, Tourinho pretende consolidar os sistemas de inteligência artificial, fortalecer o combate às facções e às fraudes financeiras, ampliar a fiscalização ambiental e levar o atendimento institucional a regiões mais isoladas.

O plano inclui também melhorar a infraestrutura digital, avançar nas obras previstas e ampliar a formação de promotores e servidores.

O principal desafio será transformar os investimentos tecnológicos e a reorganização administrativa em resultados percebidos pela população, especialmente nas comunidades mais distantes dos grandes centros.

A recondução, caso confirmada após a eleição interna e a nomeação pela governadora, dará a Tourinho mais dois anos para executar essa agenda.

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