HISTÓRIA E MEMÓRIA Instituto Histórico de Alagoas abre debates sobre os povos e o futuro do São Francisco
HISTÓRIA E MEMÓRIA
III Ciclo de Debates do IHGAL acontece nos dias 11 e 12 de novembro, em Maceió, com pesquisadores e empreendedores discutindo história, sustentabilidade, turismo e economia dos municípios ribeirinhos

Maylson Honorato | 04/11/2026 às 16h58
Departamento de criação da Central Gazeta de Notícias | Foto: Departamento de criação da Central Gazeta de Notícias
No número 382 da Rua do Sol, no Centro de Maceió, há um silêncio solene, típico de um lugar que protege arquivos de séculos que há muito se foram. Prestes a completar 157 anos em dezembro, o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, terceiro mais antigo do país, guarda em suas salas relíquias que ajudam a contar a história do estado. Nos últimos dois anos, a casa passou a fazer um movimento diferente com esse acervo: em vez de esperar apenas pelo pesquisador de luvas e caderno de notas, abriu o Salão Nobre para que a rua entrasse.
Em julho de 2024, o primeiro ciclo de debates pôs Lampião no centro da roda, cercado pelas peças originais do cangaço que o museu guarda. O de 2025 tratou do Padre Cícero. Faltava o chão e a água por onde cangaceiros e beatos passaram.
“O ciclo do Lampião foi fantástico. A gente recebeu pessoas que eram a favor, que eram contra, a história do bandido, do herói, e todo mundo conversou, colocou suas opiniões, fez perguntas aos especialistas. A mesma coisa aconteceu com o Padre Cícero: recebemos romeiros aqui, que contaram alguns momentos das suas experiências, com idas ao Juazeiro. E não só aqui, porque a gente também vai buscar fora. Foi no ciclo do Lampião que muita gente viu de perto as peças que o museu guarda do cangaço”, lembra Quel Lira, que coordena o ciclo ao lado de Fabiana.
Nos dias 11 e 12 de novembro, o III Ciclo deixa os personagens para tratar do cenário: o Rio São Francisco, seus povos e memórias, e o desenvolvimento de Alagoas ao redor. A inscrição é pela plataforma Even3.com.br, e o mapa do evento acompanha o rio por onze municípios, de Delmiro Gouveia a Piaçabuçu, passando por Olho d’Água do Casado, Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, São Brás, Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo.
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“Todo ano a gente faz algumas propostas de tema para o ciclo de debates. O ciclo é anual, sempre com um tema específico, e este ano, entre as propostas que apresentamos, o escolhido foi o Rio São Francisco, e o rio ganhou pela dimensão que tem para Alagoas. Há no São Francisco, às suas margens, a história que precisamos conhecer para construir um futuro”, conta Fabiana.
Fundado em 1869 como Instituto Archeologico e Geographico Alagoano, o IHGAL é um museu privado. “O nosso acervo é muito eclético: tem a história, principalmente no nosso museu, a geografia, a parte indígena, a arqueológica. Com Lampião, a gente tem um acervo riquíssimo e original do cangaço. Com o Padre Cícero, tem a questão da religiosidade, e vários sócios eram e são religiosos, então a gente consegue trazer um pouco desse público. E agora o São Francisco, que é um universo: além das cidades ribeirinhas, tem o universo da economia, do turismo, pontos que são pertinentes na atualidade. A cada ciclo a gente puxa um fio desse acervo”, diz Quel.
| Foto: Departamento de criação da Central Gazeta de Notícias
A primeira mesa, na tarde do dia 11, às 14h30, trata de Delmiro Gouveia e dos caminhos do desenvolvimento, com Dilton Maynard e Edvaldo Nascimento, sob mediação de Álvaro Antônio Machado. O calendário dá peso à conversa: em 10 de outubro, duas semanas atrás, completaram-se 109 anos da morte a tiros do industrial cearense, na varanda do chalé, no povoado da Pedra. Em junho de 1914 ele havia inaugurado ali a Fábrica da Pedra, cujos teares empregaram mais de 800 operários nos primeiros anos.
A memória de Delmiro como desbravador, que Dilton Maynard examinou na tese de doutorado O Senhor da Pedra, convive hoje com um capítulo recente. A fábrica funcionou até 2017: teve a energia cortada em abril de 2016 e demitiu, em janeiro de 2017, 402 dos 420 funcionários que restavam. A cidade, que leva o nome do industrial e foi criada como município em 1952, recebe hoje turistas pelo rio.
Na segunda mesa do dia, às 15h40, Emerson Carlos Soares e Manoel de Melo Maia Nobre tratam de geografia, água e sustentabilidade, com mediação de Inácio Loiola. O rio que banha Alagoas responde hoje menos à chuva da cabeceira do que às comportas de Xingó, que regulam o que desce até a foz.
O segundo dia começa pela economia. Eliseu Gomes, da Reserva Ecológica Castanho, que em 2012 abriu o porto de embarque dos cânions do São Francisco em Delmiro Gouveia, divide a mesa das 14h com Fátima Aguiar e Liza Bádue, sob mediação de Luiz Otávio Gomes, vice-presidente do instituto.
“Este Ciclo também vem atender um público diferente, o microempresário. Com o patrocínio do Sebrae, a gente consegue atender uma demanda que não faz parte exatamente desse nosso público de estudantes e pesquisadores, mas que é importante para o crescimento do Estado. O instituto está começando a se inserir também nesse ambiente. Essa conversa entre quem pesquisa e quem empreende é nova para a casa, e nos interessa muito”, afirma Fabiana.
| Foto: REPRODUÇÃO/GAZETA
Com o dinheiro público de volta às margens do rio, o governo estadual anunciou em maio R$ 91 milhões para reativar a Rota do Imperador, que refaz o trajeto de Dom Pedro II em outubro de 1859. Ele desembarcou em Piranhas no dia 18, às 11h45, e tirou, segundo o diário histórico, “uma vista à pressa do rio” pela grade de pau da janela do quarto.
“Alagoas tem um turismo muito forte, Maceió mais voltado para as praias. No São Francisco tem o turismo histórico, na região de Penedo, e mais para dentro tem os cânions. O turismo ali é muito forte e acaba envolvendo a população local, empresários, microempreendedores, que vão se beneficiar desse turismo atraído pelo rio, pelos cânions, pelas belezas que ele traz. Do barqueiro ao artesão, tem muita gente que vive disso”, diz Quel.
O tema não é novo na casa. Em 1905, Moreno Brandão publicou O Baixo São Francisco: o rio e o vale, e em 1941 o padre Luiz de Menezes Medeiros Neto, que presidiria o IHGAL de 1983 a 1992, apresentou sua História do São Francisco. A mesa que encerra o ciclo, às 15h30 do dia 12, trata de povos, tradições e memórias, com Aldemir Barros e Ângela Leite e mediação do jornalista Ênio Lins, sócio do instituto. Os povos que viviam nas margens chamavam o rio de Opará, rio-mar, e o nome de santo veio com os navegadores europeus.
Para as coordenadoras, o resultado das duas tardes se mede fora das estantes. “O que a gente propõe como possível resultado dos ciclos de debates é sempre trazer essas discussões à luz do dia. Às vezes as coisas ficam muito limitadas à academia, cada um com a sua pesquisa, cada um na sua mesa de gabinete. Quando a gente faz um ciclo para discutir um tema, coloca todo esse conteúdo à luz do dia para que as pessoas perguntem, entendam. A ideia é que o que se discute aqui continue na boca de quem participou”, diz Fabiana.
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