Diário do Rio de Janeiro
04/11/2026 17:33

CCBB Rio recebe primeira grande exposição sobre memes no Brasil com entrada gratuita

nstalação Alisa Meu Pelo - Foto: Gui Caiell

O Brasil é um dos países que mais produzem e consomem memes no mundo. Agora, as imagens, vídeos e frases que fazem sucesso nas redes sociais vão ocupar as salas de um dos principais centros culturais do Rio de Janeiro. A exposição "MEME: no Br@sil da memeficação" chega ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio) neste sábado (7/11), a partir das 12h, com entrada gratuita e mais de 800 criações de 200 artistas e produtores de conteúdo.

Com curadoria de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, a mostra reúne desde memes conhecidos da internet até obras de arte que exploram o humor, a sátira e a crítica social. Depois de passar pelos CCBBs de São Paulo, Brasília e Belo Horizonte, a exposição chega ao Centro do Rio, onde permanece em cartaz até 1º de fevereiro de 2027.

Entre os participantes estão nomes como Paulo Gustavo, Marcelo Adnet, Porta dos Fundos, Rafael Portugal, Felipe Neto, Anna Maria Maiolino e Nelson Leirner. A proposta é mostrar que os memes não são apenas uma forma de diversão, mas também uma linguagem usada pelos brasileiros para comentar política, comportamento e acontecimentos do cotidiano.

A exposição ocupa a rotunda e o primeiro andar do CCBB Rio, com vídeos, esculturas, pinturas, quadrinhos, roupas, instalações audiovisuais, objetos e experiências interativas.

Logo na entrada, o visitante encontra uma instalação inspirada no famoso meme "alisa meu pelo", que viralizou em 2017 a partir da imagem da onça-pintada presente na nota de R$ 50. Na mostra, onças produzidas com diferentes materiais podem ser tocadas pelo público. As peças foram criadas pelos artistas José Francisco Afrânio, Jorge Gomes e Vinicius Vaitsmann.

Do Pasquim ao Porta dos Fundos: o humor carioca ganha destaque

A passagem da exposição pelo Rio tem uma ligação especial com a história do humor brasileiro. Afinal, a cidade foi berço de publicações, programas e grupos que fizeram da sátira uma maneira de comentar a realidade.

Um dos destaques é O Pasquim, semanário criado no Rio em 1969 que usou o humor para enfrentar a censura durante a ditadura militar. A publicação aparece no núcleo dedicado à sátira política, ao lado de trabalhos dos cartunistas Chico Caruso e Claudius Ceccon.

O humor produzido para a televisão e para a internet também marca presença. Marcelo Adnet, Rafael Portugal, Raphael Vicente, Felipe Neto e Paulo Gustavo, nascido em Niterói, estão entre os nomes representados na exposição.

Outro destaque é o Porta dos Fundos, coletivo fundado no Rio em 2012 que ajudou a transformar a comédia brasileira na internet. Um de seus fundadores, Gregório Duvivier, participa de uma série de entrevistas exibidas no encerramento do percurso.

A mostra também reúne artistas ligados ao estado do Rio, como Felipe Barbosa, Victor Arruda, Laura Lima, Panmela Castro, Pietrina Checcacci, Alexandre Mury, Gustavo Speridião e Regina Vater.

Entre os criadores de conteúdo estão Ademara, Dri Maria (Blogueira Trans), Erika Affonso, Fábio Cruz (Fabão), Felipe Haiut, Gilberto Porcidonio, Guto TV, História no Paint, Juju dos Teclados, Nathalia Cruz, Rafael Madeira e Valentina Bandeira.

Exposição mostra como memes se tornaram uma linguagem política e social

Mais do que reunir conteúdos engraçados, a exposição busca explicar como os memes passaram a influenciar a maneira como as pessoas enxergam notícias, acontecimentos políticos e até suas próprias identidades.

A curadora Clarissa Diniz, professora da Escola de Belas Artes da UFRJ, afirma que essas imagens se tornaram parte da maneira como o país discute suas diferenças e contradições.

“Os memes são ferramentas políticas e afetivas. É por meio deles que o Brasil elabora e expressa, em tempo real, suas diferenças sociais, raciais, de gênero e estéticas”, afirma Clarissa Diniz.

Para ela, o fenômeno não começou com as redes sociais. O Carnaval, os bordões da televisão, as charges e até os outdoors já utilizavam recursos semelhantes, como a repetição, a paródia e a inversão de significados.

O outro curador, Ismael Monticelli, conhece esse universo de perto. Ele criou, em 2020, o perfil @newmemeseum, no Instagram, que chegou a reunir quase meio milhão de seguidores. Durante cinco anos, manteve sua identidade em segredo, enquanto publicava memes e observava como essas imagens circulavam na internet.

“É impossível compreender o Brasil de hoje sem entender seus memes”, afirma Ismael Monticelli.

Segundo o artista, os memes também interferem na forma como a sociedade constrói sua memória e interpreta os acontecimentos.

“Os memes não apenas representam a realidade: eles interferem nela, produzem memória e disputam sentidos. Enquanto fazemos memes, os memes também refazem o Brasil”, acrescenta.

A ideia de organizar uma exposição sobre o tema surgiu durante a pandemia de Covid-19. Na época, os dois curadores conversavam pela internet e perceberam como os memes conseguiam expressar sentimentos e situações que nem sempre eram fáceis de colocar em palavras.

O perfil @newmemeseum acabou funcionando como uma espécie de laboratório para o projeto. A página permaneceu ativa até dezembro de 2025, quando foi removida pela Meta.

Cinco núcleos exploram a história e os significados dos memes

A exposição está organizada em cinco núcleos temáticos, além de uma instalação de abertura e um espaço dedicado a entrevistas com criadores brasileiros.

O primeiro núcleo, "Ao pé da letra", explora os jogos de palavras e as relações entre textos e imagens. Estão presentes referências às dublagens humorísticas, ao tiopês e ao pajubá, além de nomes como Greengo Dictionary, Melted Vídeos, Nelson Leirner e Rafael Portugal. A jornalista e nutricionista Ruth Lemos, conhecida pelo viral do "sanduíche-íche", também aparece nessa parte.

Em "A hora dos amadores", o foco está na maneira como a internet permitiu que pessoas comuns conquistassem visibilidade. O espaço reúne trabalhos de Alessandra Araújo, Malfeitona, O Brasil Que Deu Certo e Raphael Vicente, entre outros criadores que transformaram situações cotidianas em conteúdos conhecidos nacionalmente.

Já "Da versão à inversão" mostra como a imitação e a paródia podem modificar o sentido original de uma imagem ou situação. O núcleo reúne Porta dos Fundos, John Drops, Alexandre Mury, Festa da Firma, Renata Felinto e Victor Arruda, entre outros participantes.

A quarta parte, "O eu proliferado", aborda a exposição da vida privada nas redes sociais e a construção de identidades digitais. Estão presentes Coach de Fracassos, Frases Pra Você, Galinhas Inseguras, Panmela Castro, Regina Vater e Valeska Soares.

O núcleo mais político é "Combater ficção com ficção", que analisa o uso de memes em disputas ideológicas, campanhas políticas, manifestações e episódios de desinformação. Reúne trabalhos de Augusto de Campos, Claudio Tozzi, História no Paint, Marcelo Tas, O Pasquim, Paulo Gustavo, Porta dos Fundos e Sensacionalista, entre outros.

O percurso termina com "Memes: o que são? Onde vivem? Do que se alimentam?", espaço produzido em parceria com a equipe do #MUSEUdeMEMES, projeto da Universidade Federal Fluminense (UFF) coordenado pelo pesquisador Viktor Chagas.

São dez entrevistas em vídeo com criadores brasileiros, incluindo Gregório Duvivier, Malfeitona e Marcelo Zorzanelli, um dos criadores do Sensacionalista. Os convidados tentam responder uma pergunta que parece simples, mas ganha diferentes interpretações ao longo da mostra: afinal, o que é um meme?

Exposição gratuita fica no CCBB Rio até fevereiro de 2027

A exposição "MEME: no Br@sil da memeficação" é uma produção da Patuá Produções, com patrocínio do Banco do Brasil e da BB Asset.

A mostra poderá ser visitada de quarta a segunda-feira, das 9h às 20h. O CCBB fica na Rua Primeiro de Março, 66, no Centro do Rio, e não funciona às terças-feiras.

A entrada é gratuita, com ingressos disponíveis na bilheteria do espaço e no site de cultura do Banco do Brasil.

Serviço — MEME: no Br@sil da memeficação

Local: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB Rio)
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro
Abertura: Sábado, 7 de novembro de 2026, a partir das 12h
Temporada: Até 1º de fevereiro de 2027
Horário de funcionamento: Quarta a segunda-feira, das 9h às 20h
Entrada: Gratuita
Classificação indicativa: Livre
Curadoria: Clarissa Diniz e Ismael Monticelli

Quintino Gomes Freire

Defensor do Carioca Way of Life

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