Naufrágio que terminou em caça às bruxas tem segredo revelado por tomografia 400 anos depois
Pesquisadores e conservadores de museus conseguiram desvendar o mecanismo interno de um cadeado de latão do século XVI recuperado de um naufrágio na costa do País de Gales.
Sem danificar a peça, a equipe utilizou tecnologia de microtomografia computadorizada — habitualmente empregada em pesquisas biológicas — para mapear o interior do objeto e identificar a senha de quatro letras que o mantinha trancado desde 1583: a palavra ANCE.
O naufrágio e a acusação de feitiçaria
O artefato pertence ao acervo do Ann Francis, um navio mercante elisabetano pertencente à família de comerciantes e contrabandistas Shaxton, de King’s Lynn. Em 28 de dezembro de 1583, a embarcação retornava da Península Ibérica carregada de moedas de ouro e prata recebidas pelo pagamento de trigo quando foi atingida por uma tempestade e destruída na praia de Margam, perto de Port Talbot.
A tragédia marítima resultou na morte de 14 marinheiros. Registros paroquiais da época documentam que as mortes foram atribuídas a Mother Gabley, moradora de King’s Lynn. Ela foi processada e condenada sob a Lei de Feitiçaria de 1562, acusada de ter provocado a tempestade ao manipular ovos em um balde de água fria.
O achado arqueológico e a tecnologia biomédica
A carga e os pertences do navio permaneceram enterrados na areia por mais de quatro séculos. Entre 1996 e 2017, o detectorista de metais Peter Hughes recuperou cerca de 870 moedas de ouro e prata de diversas origens (espanholas, portuguesas, mexicanas e alemãs), além de instrumentos de navegação e o cadeado de combinação em latão.
Como o mecanismo do cadeado permaneceu selado, a equipe do Museu Nacional do País de Gales recorreu à Instalação de Pesquisa em Biomecânica Musculoesquelética da Escola de Engenharia da Universidade de Cardiff.
Sob a liderança do pesquisador David Williams, a tomografia computadorizada gerou um modelo tridimensional interno, permitindo visualizar o alinhamento das ranhuras com as letras sem abrir ou danificar a estrutura de latão.
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Exposição pública
Os especialistas apontam que o cofre protegia moedas de valor ou documentos de navegação. O cadeado e as moedas recuperadas integram a exposição Tides of Treasure no Museu Nacional Waterfront, em Swansea, onde permanecem em exibição pública.
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