MAIS COMIDA, MENOS APOSTAProibição das bets faz consumo de alimentos crescer 6,5% no Brasil, aponta Abras Em audiência no STF, João Galassi apresentou dados de crescimento nas compras dos supermercados e alertou para os efeitos das apostas sobre o orçamento das famílias brasileiras.
A proibição das bets no Brasil foi associada a um aumento no consumo de alimentos pelas famílias brasileiras. Durante audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF), realizada na terça-feira, 3 de novembro, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Carlos Galassi, apresentou dados que mostram crescimento de até 6,5% nas compras de alimentos em outubro, na comparação com os mesmos períodos de 2025.
O levantamento, realizado pela Abras em parceria com a NielsenIQ, identificou aumento de 6,5% no consumo alimentar entre os dias 5 e 11 de outubro. Já na semana seguinte, de 12 a 18 de outubro, a alta chegou a 6,3%. Na semana posterior, o crescimento registrado foi de 5,4%.
Os números foram apresentados durante uma audiência convocada pelo ministro Luiz Fux, relator da ADIn 8.027, que discute a constitucionalidade da Medida Provisória 1.394/26, responsável pela proibição das apostas de quota fixa no país.
Segundo Galassi, o avanço nas compras apareceu em diferentes formatos do varejo alimentar. O movimento também ganhou destaque nos estabelecimentos frequentados pelas famílias das classes C, D e E, que comprometem uma parcela maior da renda com despesas básicas, especialmente alimentação.
O presidente da Abras ressaltou que a entidade acompanha o comportamento de consumo dos brasileiros há mais de duas décadas. Ele também destacou que o reajuste do Bolsa Família começou a ser pago somente em 19 de outubro. “O aumento do benefício não explicaria o crescimento observado nas duas primeiras semanas do mês”, justificou.
Proibição das bets e o impacto no consumo
Durante a audiência, Galassi apresentou uma projeção sobre o impacto das apostas no orçamento doméstico. De acordo com a estimativa, caso o consumo de alimentos registre recuperação de 4% ao longo de 2026, o volume de compras que as famílias deixaram de realizar poderá ultrapassar R$ 50 bilhões.
“Consideramos a possibilidade de que parte do dinheiro anteriormente destinado às plataformas de apostas volte a circular na economia por meio de despesas essenciais”, detalhou.
Nesse cenário, supermercados e outros estabelecimentos do varejo alimentar podem receber uma parcela maior dos recursos disponíveis no orçamento doméstico. Além disso, a recuperação das compras pode movimentar setores ligados à produção e à distribuição de alimentos.
Galassi também citou informações do Banco Central, divulgadas pela Agência Brasil, que apontaram uma queda inicial de 10% nas transações via Pix durante os três primeiros dias após a proibição das apostas. Outro dado mencionado foi a devolução de mais de R$ 1 bilhão em saldos aos apostadores durante outubro.
Apesar dos indicadores, é importante destacar que a evolução do consumo não comprova, isoladamente, que a proibição das bets provocou todo o aumento nas compras. Outros fatores econômicos também podem influenciar o comportamento das famílias.
Pesquisa revela prejuízos das apostas para famílias
Além dos dados sobre o consumo nos supermercados, o presidente da Abras apresentou resultados de uma pesquisa divulgada pela Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) e elaborada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O estudo ouviu 1.500 apostadores das classes C, D e E e identificou impactos nas despesas básicas dos participantes.
De acordo com a pesquisa, 41% dos entrevistados reduziram a compra de alimentos, medicamentos ou produtos de higiene em consequência dos gastos com apostas. O levantamento também apontou que 81% dos participantes tinham dívidas e 99% relataram prejuízos com jogos nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Os resultados apresentados mostram como o comprometimento da renda com plataformas de apostas pode afetar diretamente o planejamento financeiro das famílias. Em muitos casos, os consumidores recorrem a empréstimos depois de perder dinheiro nos jogos, o que amplia as dificuldades para pagar contas e manter as despesas essenciais.
O dirigente também mencionou uma estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Segundo o cálculo apresentado, os prejuízos relacionados às apostas, incluindo custos diretos e indiretos para a área da saúde, chegam a R$ 30 bilhões por ano.
Abras defende manutenção da proibição das apostas
Ao defender a continuidade da MP 1.394/26, João Carlos Galassi argumentou que a discussão sobre os efeitos econômicos das bets precisa considerar também os prejuízos que as apostas podem provocar no orçamento das famílias.
Na avaliação do presidente da entidade, o debate não deve ficar restrito à arrecadação de impostos gerada pelas plataformas. “O varejo alimentar movimenta uma ampla cadeia produtiva, com participação da agricultura, indústria, transporte e distribuição, além de gerar empregos e tributos”, projetou.
Galassi também sustentou que a recuperação do poder de compra dos consumidores pode beneficiar diferentes setores da economia, especialmente aqueles ligados ao abastecimento e à comercialização de produtos essenciais.
Durante a audiência pública no STF, o presidente da Abras resumiu sua posição sobre os efeitos da medida provisória:
““O alimento está voltando para a mesa dos trabalhadores e essa transformação é que precisamos conservar”, destacou.
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