João XXIII opera com corredor lotado e baixo estoque de remédios
Um dos maiores prontos-socorros da América Latina e referência nacional em atendimento a politraumatizados, o João XXIII, em Belo Horizonte, está à beira de um colapso. Servidores da unidade denunciam falta de medicamentos para tratar infecções causadas por bactérias super-resistentes, seringas e outros insumos básicos necessários para a realização de cirurgias. Por se tratar de um hospital porta aberta, que recebe pessoas de várias regiões do Estado, pacientes não param de chegar mesmo em meio ao cenário complexo. Com a superlotação dos leitos, muitos são acomodados nos corredores, enquanto os médicos e enfermeiros racionam os materiais disponíveis.
De janeiro a setembro deste ano, segundo dados abertos de internações hospitalares, o HPS João XXIII recebeu 10.485 pessoas, em atendimentos que passam pelo pronto-socorro, bloco cirúrgico, unidade de internação para queimados e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) adulta e pediátrica. O volume corresponde a 21% do total de atendimentos nas unidades gerenciadas pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). "O HPS João XXIII é o principal hospital de urgência e o maior centro de referência em trauma do Estado. Cumpre um papel muito importante não só para BH, como para toda a Região Metropolitana e toda Minas Gerais. Por ser esse centro principal, ele participa da rede de urgência atendendo demandas que só são resolvidas lá. É um hospital estratégico, eu diria fundamental para o funcionamento do sistema de saúde de MG", explica o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Minas) e ex-secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais, Fausto dos Santos.
Um dos medicamentos com estoque em baixa na unidade é o Torgena, usado para combater bactérias super-resistentes. "Ele é um medicamento muito usado no contexto de diferentes traumas e grandes lesões. A falta dele pode causar amputações de membros, sepse e até mesmo levar à morte", denuncia um servidor, que terá a identidade preservada. O medicamento citado custa entre R$ 8 mil e R$ 16 mil.
Diante da restrição no estoque, a equipe médica necessita tomar decisões extremas, como conta outra pessoa que trabalha no João XXIII. "A partir do momento em que o médico faz o diagnóstico e prescreve o antibiótico, quem está na farmácia não sabe o que fazer. Então tem sido preciso uma tomada de decisão em conjunto entre médico e farmacêutico para definir se interrompe o tratamento de um paciente para que se inicie o de outro. Não podemos omitir um tratamento somente pelo fato de a unidade não fazer a compra de algo que deveria ter no estoque", conta.
Outro item em falta no HPS João XXIII, segundo os servidores, é a mangueira de aspiração — tubo flexível que suga o sangue e os líquidos acumulados durante as cirurgias, limpando a área afetada e garantindo a precisão do procedimento. "Tivemos, num feriado recente, uma situação em que passamos o plantão com a conta exata de mangueiras. Como pode uma unidade de saúde desse porte ficar assim?", questiona uma servidora, indignada. Ela lembra também a falta do frasco coletor, responsável por armazenar secreções durante o procedimento cirúrgico. "Estamos usando o coletor de vidro, que é esterilizado e que nem se usa mais", diz.
A falta de seringas no João XXIII também compromete a administração e a dosagem correta dos remédios. "A gente não tem seringa de tamanho nenhum e vivemos à base de empréstimos. É uma das situações mais caóticas. Um hospital de porta aberta, um dos maiores que temos não só no âmbito estadual, mas a nível nacional, estar vivendo à base de empréstimo de seringa. Tem vez que temos a seringa, mas não temos o medicamento”, afirma outro servidor.
Os profissionais ressaltam que, por se tratar de uma unidade de porta aberta, o hospital atende a demandas tanto de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto de pessoas que possuem plano de saúde. "Em uma situação de extrema urgência, seja traumática ou de acidente, se a pessoa estiver sem identificação ela vai ser atendida no João XXIII. Por isso a importância de denunciarmos a situação que estamos enfrentando aqui", afirma.
Possível causa
Segundo os servidores, a pressão sobre os estoques aumentou após o fechamento do Hospital Maria Amélia Lins (HMAL), referência em cirurgias de ortopedia e traumatologia, em dezembro de 2024, e vem se agravando. “Falaram que conseguiriam absorver a demanda, mas francamente confesso que não sei se absorver demandas é colocar paciente nos corredores de ponta a ponta. As pessoas, dessa forma, correm risco de pegar infecções. Não há dignidade alguma para os pacientes", rebate um servidor ouvido pela reportagem. O HMAL funcionava como retaguarda do João XXIII, realizando uma média de 200 procedimentos mensais. Cirurgias que foram transferidas para o HPS João XXIII. “A gente sequer consegue andar nos corredores de tão cheios. Imagina quando for preciso passar com uma maca de forma rápida. É perigoso até derrubar outro paciente", complementa.
A reportagem procurou o governo de Minas, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) e o Ministério da Saúde para comentar sobre as denúncias dos servidores, os custos mensais da unidade, além dos investimentos previstos para melhorias. Os retornos são aguardados.
Atendimentos por área e mês – Hospital de Pronto-Socorro João XXIII
Dados de janeiro a setembro de 2026
| Mês | Bloco Cirúrgico | Pronto-Socorro | UTI | UTI Pediátrica – 2º andar | Unidade Clínica Neurológica – 5º andar | Unidade de Queimados Médios – 8º andar | Total |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Janeiro | 9 | 1.017 | 0 | 0 | 0 | 0 | 1.026 |
| Fevereiro | 16 | 956 | 0 | 0 | 0 | 0 | 972 |
| Março | 14 | 1.154 | 0 | 0 | 0 | 0 | 1.168 |
| Abril | 13 | 1.149 | 0 | 8 | 0 | 0 | 1.170 |
| Maio | 16 | 1.189 | 1 | 21 | 0 | 0 | 1.227 |
| Junho | 16 | 1.243 | 2 | 18 | 0 | 0 | 1.279 |
| Julho | 11 | 1.185 | 2 | 4 | 1 | 0 | 1.203 |
| Agosto | 9 | 1.236 | 0 | 1 | 0 | 1 | 1.247 |
| Setembro | 8 | 1.181 | 0 | 4 | 0 | 0 | 1.193 |
| TOTAL | 112 | 10.310 | 5 | 56 | 1 | 1 | 10.485 |
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