Cinco vezes em que a censura chinesa ultrapassou as fronteiras
Na última semana de outubro, um atacante francês pediu desculpas em mandarim por uma frase dita num programa francês, e uma empresa japonesa pediu desculpas por produtos da Hello Kitty vendidos apenas no Japão. Nenhum dos episódios aconteceu em território chinês. Mesmo assim, mostram o alcance da censura do Partido Comunista, que atinge qualquer um que dependa do mercado chinês.
Dentro do país, as regras são conhecidas. Em agosto, veio a público que o Departamento de Cultura e Turismo de Wuhan investigava Guo Degang, um dos humoristas mais conhecidos da China, porque ele trocou o verso de uma canção revolucionária num show no fim de julho: onde a letra fala do lago Weishan, ele cantou que tudo estava tranquilo na Cidade Proibida, antiga sede do poder imperial em Pequim.
O órgão alegou que o trecho não constava do material submetido à aprovação prévia, e apresentações da turnê foram canceladas. Em 2023, a produtora do comediante Li Haoshi levou multa de 14,7 milhões de yuans porque ele associou, numa piada sobre dois cães que adotou, o comportamento dos animais a um slogan de Xi Jinping para o Exército de Libertação Popular. A empresa rescindiu o contrato dele, e a polícia de Pequim abriu investigação.
Os cinco casos abaixo mostram o mesmo critério aplicado a empresas e estrelas estrangeiras.
1) Mbappé e o ditador
Em abril, nos bastidores do The Bridge, programa apresentado por Aurélien Tchouaméni, colega de Real Madrid, Kylian Mbappé contou que o meme mais engraçado sobre ele era o que punha seu rosto sobre "um sujeito, acho que é um ditador chinês", uma referência a montagens com imagens de Mao Tsé-tung. O programa publicou o trecho em 26 de outubro e o apagou logo depois, quando ele já circulava nas redes chinesas. Em 27 de outubro, três patrocinadores chineses, entre eles a Mengniu, maior produtora de laticínios do país, romperam com o jogador, e o China Media Group, conglomerado estatal que controla a TV CCTV, anunciou a suspensão das transmissões do Campeonato Espanhol e dos anúncios com Mbappé.
Mbappé se desculpou em francês, inglês e mandarim, seguido pela LaLiga e pelo Real Madrid. Boa parte do público que se ofendeu não sabia exatamente o que ele havia dito. A imprensa estatal falou apenas em "comentários inapropriados sobre a China", sem citar Mao, e, segundo a agência AFP, a fala original não aparecia nas redes sociais do país. "O que ele disse? Muitos chineses preferem não repetir", escreveu o jornal estatal Global Times.
2) A Hello Kitty vestida de espiã japonesa
Vivant, série de espionagem da emissora japonesa TBS, estreou em julho uma segunda temporada em que o inimigo é uma organização de inteligência chinesa fictícia, cujos agentes torturam um espião japonês numa das cenas. A Sanrio havia lançado uma linha de produtos com Hello Kitty e outros personagens vestidos como os espiões da série, vendida, segundo a empresa, apenas no Japão. A CCTV acusou a produção de difamar deliberadamente a China, e o Global Times publicou um editorial intitulado "Hello Kitty não deve dançar com a direita japonesa", em que advertia que a Sanrio arriscava perder muito mais do que vendas de curto prazo.
A subsidiária chinesa da empresa anunciou o fim da parceria pela rede social Weibo na noite de 28 de outubro, alegando que o conteúdo contrariava a filosofia corporativa do grupo, e pediu desculpas pela preocupação causada. A TBS respondeu que Vivant é uma obra inteiramente ficcional. No dia seguinte, o porta-voz da chancelaria chinesa disse que a série revelava a existência, no Japão, de uma força que usa produtos culturais para difamar a China.
3) O mapa sem Taiwan num vídeo de Counter-Strike
Em meados de outubro, a Team Spirit, uma das principais organizações de esportes eletrônicos (e-sports) do mundo e campeã do torneio Major de Xangai de 2024, publicou um vídeo em que jogadores de seu time de Counter-Strike 2 participavam de um jogo de adivinhação. Um dos mapas exibidos mostrava a China sem Taiwan. A organização apagou o vídeo e pediu desculpas, explicando que o material viera de um site de terceiros e que não havia conferido sua exatidão. No comunicado, declarou que compartilha e apoia o princípio de Uma Só China, a posição de Pequim segundo a qual Taiwan, governada de forma autônoma desde 1949, pertence ao seu território. Parte dos fãs chineses considerou o pedido insuficiente e cobrou desculpas pessoais dos jogadores, o que causou estranhamento no público de língua inglesa, já que os atletas não haviam escolhido o mapa.
4) As barras coloridas no sinal da CNN
Na noite de 16 de março, um programa da CNN exibia reportagem sobre como os censores chineses vinham deixando circular na internet do país vídeos feitos com inteligência artificial que atacavam Donald Trump. O apresentador chamou então o correspondente da emissora em Pequim, que acompanhava ao vivo o sinal transmitido para a China e avisou que, se dissessem algo considerado problemático, a imagem seria trocada por barras coloridas. Foi o que aconteceu, duas vezes. A emissora mostrou aos espectadores americanos a tela que os chineses viam, com o aviso "Sem sinal, por favor aguarde".
O bloqueio atinge também o que as redações estrangeiras conseguem apurar. Em agosto, quando o colapso de uma geleira provocou enchentes na fronteira entre Nepal e Tibete, Pequim informou 558 desaparecidos no condado de Gyirong, centenas deles estrangeiros. As imagens das câmeras de segurança do posto de fronteira circularam pelo mundo e sumiram da internet chinesa. Jornalistas estrangeiros só entram no Tibete com autorização do governo, e pedidos para ir à região foram negados. A correspondente da BBC na China escreveu que costuma ser mais fácil falar com entrevistados em Pyongyang do que em Lhasa.
5) O tambor japonês na Muralha da China
Em 30 de maio, a canadense Lululemon reuniu mais de 2 mil pessoas num festival de ioga no trecho de Huanghuacheng da Muralha da China, no distrito de Huairou, em Pequim, num evento pensado para celebrar a cultura chinesa. O ponto alto foi uma apresentação de percussão com o ator Zhu Yilong, embaixador da marca no país, num tambor descrito como tradicional chinês. Usuários do Weibo e músicos apontaram que o instrumento parecia um taiko japonês, e parte deles associou a cena à invasão japonesa durante a Segunda Guerra. Em 16 de junho, a empresa publicou no Weibo um pedido de desculpas ao público e ao ator e retirou das redes o material do evento, e o grupo de percussionistas também se desculpou. Doze dias antes, numa teleconferência com investidores, a direção da Lululemon havia citado o festival como exemplo do tipo de evento que a marca pretendia continuar promovendo.
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