As redes sociais transformaram todo mundo em analista político
“Fica muito difícil para um homem defender alguma coisa da qual ele está inteiramente convencido. E comparativamente fácil quando se está convencido em parte.” (Chesterton)
A frase em epígrafe, retirada do inescapável Ortodoxia, de G.K. Chesterton, é um retrato exato do que vivemos hoje. No último fim de semana estive em casa de parentes e uma tia falava, com certeza apodítica, sobre as eleições. Não só: falava sobre política e tudo aquilo que só não vê quem não quer. Lula, Jair e Flávio Bolsonaro, urnas eletrônicas, STF e uma leitura panorâmica de como as coisas realmente funcionam no país. Para ela, que é crente como eu – extrapolando a análise política e abrindo os olhos espirituais –, Lula é a personificação do Anticristo e Jair Bolsonaro teria sido o muro de contenção espiritual que represaria a Grande Tribulação. Claro, se Lula não tivesse, suspeitissimamente, vencido as eleições.
O curioso disso tudo é que essa respeitável senhora, até pouco mais de cinco anos atrás, jamais tinha aberto a boca para falar de política e jamais tinha nem sequer prestado atenção no assunto. Ela disse, inclusive, que seu voto era orientado. Ela perguntava ao marido: “em quem você vai votar?” Ele respondia e ela, sem nem saber quem era o candidato, ia lá e votava. Até o Grande Despertar, nos idos de 2020, com toda a celeuma que envolveu a pandemia, política era para ela uma barafunda interminável e desinteressante.
As bolhas cognitivas cerraram as portas do diálogo, instauraram a polarização e revestiram cada microcosmo de certezas absolutas
Ela não sabe quem foi Dom Pedro II, não conhece Prudente de Moraes ou Juscelino Kubitschek; ignora totalmente a ditadura Vargas (exceto pela CLT) e mesmo todos os desmandos dos 20 anos ditatoriais comandados pelos militares. Não compreende o que aconteceu no impeachment de Fernando Collor, não sabe como foi arquitetado o Plano Real e o que foi a Carta ao Povo Brasileiro, de Lula, em 2002, que lhe deu a primeira vitória eleitoral. Ela não sabe que a República foi um golpe de Estado e que toda a ordem política e econômica, desde então, se fundamenta sobre oligarquias patrimonialistas – das quais ela, obviamente, nunca ouviu falar.
Não a culpo por isso. Esse é o retrato do que aconteceu – tema que, de certo modo, se conecta ao artigo da semana passada – com o país após o crescimento do antipetismo, fruto dos gigantescos escândalos de corrupção dos governos Lula e Dilma. A partir daquela indignação disforme das Jornadas de Junho, de 2013; as manifestações que se seguiram, em 2014; até o impeachment de Dilma, em 2016; a prisão de Lula, em 2018; e o surgimento de Jair Bolsonaro como o catalisador dessa indignação, uma direita surgiu como um ornitorrinco ideológico, um bicho que a gente não sabe muito bem definir, mas que é curioso de ver.
Some-se a isso o surgimento das redes sociais e a infodemia que as inundou quando elas deixaram de ser apenas plataformas digitais de interação e compartilhamento de conteúdo para se tornarem grandes motores da economia, da cultura e do comportamento humano, bem como em verdadeiras engrenagens de Economia da Atenção, tragando as pessoas, com seus algoritmos, para o vício e as doenças psicológicas dele decorrentes.
As bolhas cognitivas fizeram o resto: cerraram as portas do diálogo, instauraram a polarização e revestiram cada microcosmo de certezas absolutas.
Outro exemplo me ajuda e reforçar o argumento: essa semana surgiu um vídeo dos deputados-influenciadores de esquerda, como Guilherme Cortez e a indefectível Ana Elisa, dizendo que o aumento do ICMS sobre combustíveis, aprovado no último dia 29 de outubro para entrar em vigor em 1.º de fevereiro de 2027, não pode ser colocado na conta do presidente Lula, pois o ICMS é de competência dos estados. Eles estão, em parte, certos, pois o ICMS de fato é cobrado pelos estados. Mas eles colocaram tudo na conta dos políticos que se elegem prometendo combater o aumento de impostos – ou seja, os governadores de direita.
O que eles não disseram é que o aumento do ICMS sobre os combustíveis não decorreu simplesmente de uma decisão arbitrária dos governos estaduais: ele está relacionado à metodologia de atualização anual estabelecida pela Lei Complementar 192/2022, que considera a variação dos preços médios dos combustíveis apurados pela ANP em determinado período. Nesse cálculo, a valorização internacional do petróleo e as oscilações cambiais também exercem influência sobre os preços domésticos e, consequentemente, sobre a atualização tributária. Além disso, a aprovação dos novos valores passou pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), com participação de todos os governos estaduais – inclusive os de esquerda, com os da Bahia, Ceará e Piauí, que também votaram a favor do aumento.
Ou seja, as coisas não são tão simples, mas vi gente que conheço, pessoas completamente ignorantes em política (e em economia e tributação), compartilhando o vídeo dos deputados-influenciadores da esquerda como se engajamento fosse atestado de autoridade no assunto, e como se a culpa do aumento fosse da direita.
O texto ainda exige atenção, mesmo que se discorde dele. Nas redes sociais, é tudo sobre reações e viés de confirmação
O problema é: se as pessoas de sua bolha cognitiva compartilham, você acredita, pois, se Fulano que eu sigo está compartilhando, só pode ser verdade, pois ele é confiável. E esse processo, de cegos conduzindo cegos, é a regra na internet hoje. E todo mundo virou especialista – na sua bolha.
Sabemos que, para Platão, a consciência da própria ignorância é o fundamento do conhecimento. Na Apologia, ele diz que Sócrates, durante a conversa com um político que reputava por um homem sábio – a fim de descobrir o porquê de o Oráculo de Delfos ter afirmado que ele era o homem mais sábio da Grécia –, “quis parecer-me que ele passava por sábio para muita gente, mas principalmente para ele mesmo, quando, em verdade, estava longe de sê-lo”. E conclui:
“Mais sábio do que este homem terei de ser, realmente. Pode bem dar-se que, em verdade, nenhum de nós conheça nada belo e bom; mas este indivíduo, sem saber nada, imagina que sabe, ao passo que eu, sem saber, de fato, coisa alguma, não presumo saber algo. Parece, portanto, que nesse pouquinho eu o ultrapasso em sabedoria, pois, embora nada saiba, não imagino saber alguma coisa.”
Este princípio, completamente ignorado na era das redes sociais, é a única garantia que temos para avançarmos na busca por justiça em nossa política. A educação – o movimento platônico de sair da Caverna – continua sendo o único meio de avançarmos como sociedade. O leitor desta Gazeta do Povo, a quem sempre agradeço, está um passo à frente, pois o texto ainda exige atenção, mesmo que se discorde dele. Nas redes sociais, é tudo sobre reações e viés de confirmação. Que Deus e o conhecimento nos protejam dos políticos-influenciadores.
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