BAHIA Projeto de megahotel 6 estrelas deixa ruínas na Mata Atlântica de Itacaré
Quem percorre a trilha entre as praias de Camboinha e Engenhoca, em Itacaré, no sul da Bahia, encontra vestígios de um empreendimento que prometia colocar o município no mapa internacional do turismo de luxo. Quase 20 anos depois da paralisação das obras, as estruturas do Warapuru Resort permanecem espalhadas pela Mata Atlântica, em meio à vegetação que voltou a ocupar parte da área devastada para a construção do complexo.
A reportagem do portal A TARDE esteve no município entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro e constatou o estado de abandono das construções. Parte das estruturas está em ruínas, pichadas, apresentando sinais de desabamento e presença de morcegos. Durante a trilha, também foram encontrados fragmentos metálicos deteriorados no chão. A equipe, inclusive, foi orientada a não passar por baixo de uma das construções devido ao risco de queda.
Tudo sobre Bahia em primeira mão!O guia de turismo Jô, da BNB Turismo, explicou que a intervenção na vegetação foi feita para abrir a vista dos bangalôs para o mar. “Eles queriam estar na mata ou sem a mata. O que é que eles fizeram? Derrubaram tudo”, afirmou.
O cenário atual contrasta com a dimensão do projeto anunciado no início dos anos 2000. Idealizado para ser o primeiro hotel seis estrelas da América Latina, o Warapuru previa bangalôs, vilas residenciais e passarelas suspensas sobre a mata, em uma área próxima ao mar.A estimativa é de que, na época, mais de R$ 180 milhões tenham sido investidos na iniciativa antes da interrupção das obras.
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Luxo em meio à Mata Atlântica
Lançado em 2004 pelo empresário português João Vaz Guedes, ligado à família fundadora da construtora Somague, o Warapuru foi concebido para receber turistas de alto poder aquisitivo e transformar Itacaré em um destino de referência no segmento de luxo.
O projeto arquitetônico foi desenvolvido pela designer e arquiteta britânica Anouska Hempel, conhecida internacionalmente por trabalhos em hotéis de alto padrão. A proposta reunia referências a civilizações antigas, como as maias e egípcias, em uma estrutura planejada para se integrar à paisagem natural e revestida por paredes e pisos de mármore — embora a execução tenha provocado questionamentos justamente pela intervenção na vegetação local.
De acordo com os dados técnicos do empreendimento, o terreno tinha aproximadamente 500 mil metros quadrados, com previsão de 45 mil metros quadrados de área construída. O complexo reuniria 20 casas, 45 bangalôs, recepção, áreas de lazer, espaços administrativos e estruturas de apoio.
A divulgação internacional ajudou a alimentar a expectativa em torno do resort. A revista do The New York Times descreveu o empreendimento como “o refúgio mais exclusivo do Brasil”, enquanto a publicação Wallpaper o comparou a um esconderijo no estilo James Bond. As 17 vilas residenciais anunciadas, com preços a partir de US$ 1,2 milhão, teriam sido vendidas logo após o lançamento.
A inauguração chegou a ser prevista para 2007 e, posteriormente, para 2009. Mas a construção não foi concluída e deixa seus rastros até hoje em um dos principais cartões postais do Brasil.
Questionamentos ambientais e embargo
Os problemas do Warapuru começaram ainda durante a implantação do complexo, em uma área de aproximadamente 49 hectares da Fazenda Engenhoca. Em fevereiro de 2007, o Ministério Público Federal (MPF) em Ilhéus e o Ministério Público da Bahia (MP-BA) ajuizaram uma ação civil pública para tentar interromper as obras.
Na ação, os órgãos apontaram possíveis irregularidades no licenciamento ambiental e intervenções em áreas protegidas. Entre os problemas identificados em vistorias do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do próprio Ministério Público estavam a supressão de vegetação de Mata Atlântica em estágio médio e avançado de regeneração e a ocupação de áreas de preservação permanente (APP).
O MPF e o MP-BA também questionaram a dispensa de estudo prévio de impacto ambiental e relatório de impacto ambiental (EIA-Rima). Na avaliação dos órgãos, o empreendimento não se enquadrava nas hipóteses legais que permitiriam a supressão de vegetação protegida por razões de utilidade pública ou interesse social.
A ação foi apresentada contra o Ibama, o Centro de Recursos Ambientais (CRA), o município de Itacaré, a empresa Harmattan e a construtora NM. Os autores pediram a suspensão das licenças concedidas, a realização dos estudos ambientais e a recuperação de áreas degradadas.
Em um primeiro momento, a Justiça Federal negou o pedido de paralisação. O MPF recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), e o desembargador Souza Prudente concedeu uma liminar determinando a suspensão das obras.
Mobilização contra a construção
Jô relatou que a intervenção na área chamou a atenção de ambientalistas e do Ministério Público, o que levou à mobilização contra o empreendimento. “Isso chamou a atenção dos órgãos ambientalistas e do Ministério Público. E começou a gerar uma promoção popular e a galera começou a cair de cima e aí começou toda uma questão de embargo e conseguir embargar”, contou Jô à reportagem.
O guia também descreveu como seria a circulação dentro do complexo. “Seria uma coisa tão monstruosa, que eles não iam caminhar no chão, eles teriam passarela que ligaria de um bangalô pro outro. Então assim, seria algo extremamente luxuoso”, afirmou.
O acesso à praia também seria diferente do utilizado atualmente pelos visitantes. “A praia, basicamente, seria privativa, né? Porque esse acesso a gente não teria por aqui, teria que ser pela costa”, explicou.

Tentativa de retomada não avançou
Com a paralisação, surgiu a possibilidade de o empreendimento ser incorporado à marca portuguesa Aquapura. Segundo o jornal Diário de Notícias, de Portugal, a negociação foi cogitada entre 2007 e 2009, mas não avançou.
O cofundador da rede, Miguel Simões de Almeida, confirmou ao periódico que a Aquapura não assumiria a gestão do Warapuru. A empresa chegou a avaliar a operação como uma oportunidade de ampliar seu portfólio, mas reviu seu programa de investimentos. As obras permaneceram paradas.
Interesse de Daniel Vorcaro
Anos depois, o empreendimento voltou a aparecer em uma negociação envolvendo um nome que ganhou destaque no noticiário financeiro: Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master.
Em reportagem publicada pelo BNews em 2025, o veículo informou que Vorcaro e sócios demonstraram interesse em adquirir a massa falida da empresa responsável pelo Warapuru Resort. A possibilidade de aquisição foi apresentada pelo portal como parte da estratégia do grupo de buscar ativos imobiliários e empreendimentos de grande apelo comercial.
O interesse teria alcançado a antiga estrutura hoteleira em Itacaré, que permanecia abandonada e envolvida em questões judiciais. A matéria relacionou a movimentação à investigação sobre operações financeiras do Banco Master.
Como está o processo?
De acordo com a apuração do portal A TARDE, a disputa judicial sobre o empreendimento também teve movimentações recentes. Em decisão posterior, o juiz Lincoln Pinheiro Costa extinguiu a ação civil pública sem resolução do mérito, com fundamento no artigo 485, inciso VI, do Código de Processo Civil.
Na sentença proferida em maio de 2025, o magistrado considerou que a continuidade da ação contrariaria decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na Suspensão de Liminar 159. O texto menciona entendimento de que não havia comprovação de dano ambiental nos autos e que os órgãos ambientais haviam realizado fiscalização. A decisão, contudo, ressalvou que a continuidade das obras não dispensaria a fiscalização pelos órgãos competentes.
O Ministério Público Estadual e o MPF haviam manifestado interesse na continuidade do processo. A massa falida da Harmattan também declarou interesse em retomar as obras, enquanto o Ibama voltou a pedir a extinção da ação. O município de Itacaré, por sua vez, afirmou não ter causado os supostos danos ambientais.
Em 2025, o MPF apresentou recurso de apelação contra a sentença. O despacho determinou a intimação das partes rés para apresentação de contrarrazões e posterior encaminhamento dos autos ao TRF-1. Ainda não há atualizações do processo desde então.
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