Campo Grande News
Divórcio sem despedida: falta de dinheiro mantém ex-casais na mesma casa
O amor acabou, mas a conta do aluguel continua chegando. Na geladeira, os alimentos ainda são divididos. Na pia, a louça se mistura. E, debaixo do mesmo teto, duas pessoas que já decidiram seguir caminhos diferentes precisam encontrar uma maneira de continuar convivendo. Não é reconciliação nem uma segunda chance para o relacionamento. É falta de dinheiro para bancar duas casas. A situação, que pode parecer saída de um roteiro de cinema, faz parte da realidade de casais que adiam a mudança de endereço mesmo depois da separação. Em Mato Grosso do Sul, a advogada Mariana Nogueira, especialista em Direito de Família e Sucessões, relata casos em que essa convivência se prolongou por cerca de um ano. Entre o fim da relação e o começo de uma nova vida, há uma conta que nem sempre cabe no orçamento. Além de reorganizar as contas do cotidiano, quem decide formalizar o fim do casamento precisa avaliar as despesas do divórcio. Mariana explica que os valores variam conforme as questões que os envolvidos precisam resolver. "Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, os honorários para um divórcio partem de aproximadamente 6 mil reais e pode chegar a 10 mil ou mais, dependendo de quantas questões precisam ser resolvidas. Partilha de bens, guarda dos filhos, pensão alimentícia e outras questões ali envolvidas no acordo ou no processo judicial.” Esses valores correspondem ao trabalho do advogado. A divisão do patrimônio pode acrescentar cobranças, assim como os procedimentos necessários para transferir os bens. “Quando tem patrimônio para ser dividido, também pode ser cobrado um percentual sobre os bens, que costuma ficar em torno de 5%, conforme o caso e conforme os honorários ali combinados com o advogado. Além disso, pode existir despesa com cartório, imposto, transferência de imóveis, por isso o custo final varia bastante de acordo com a realidade de cada família”, explica. Para quem não consegue contratar um profissional, Mariana aponta a Defensoria Pública como alternativa gratuita. Também cita a Justiça Itinerante para divórcios consensuais que se enquadrem nos serviços disponíveis. O acesso à formalização, porém, não elimina as despesas que vêm depois. “Na prática, muitas vezes o que mais pesa não é nem necessariamente o custo de formalizar o divórcio, mas o de manter duas casas. São despesas com aluguel, água, energia, alimentação e principalmente quando existe filhos, custos para manter essa rotina familiar. Por isso tem casais que já se consideram separados emocionalmente, mas continuam dividindo a mesma residência por meses ou até anos, porque não conseguem arcar com os custos de uma segunda moradia.” Segundo a advogada, os ex-companheiros podem formalizar o divórcio e manter temporariamente o mesmo endereço. Nessa situação, a organização da convivência exige acordos para evitar novas disputas. “É perfeitamente possível formalizar o divórcio e continuar morando no mesmo imóvel, pelo menos temporariamente. O importante é estabelecer regras claras sobre o uso da casa, o pagamento de despesas, quando tiver filho, a organização da rotina familiar”, orienta. Quando há crianças, essa negociação também precisa contemplar os cuidados e as decisões sobre a vida dos filhos. Mariana ressalta que compartilhar a guarda não significa, necessariamente, dividir o tempo da criança em duas partes iguais. “Isso não significa necessariamente que a criança vai ficar metade do tempo com cada um, como muita gente pensa. E sim que as responsabilidades e as decisões importantes deverão ser compartilhadas. A principal dificuldade costuma ser separar os conflitos do relacionamento das responsabilidades com os filhos, porque muita gente acaba confundindo isso.” Se o imóvel pertence aos dois e apenas um deles permanece na residência, os ex-companheiros também podem discutir o pagamento de aluguel ou de uma indenização pelo uso exclusivo. A possibilidade depende da análise de cada situação. “Isso pode ajudar financeiramente quem sai da residência a se organizar e conseguir uma nova moradia enquanto o imóvel não é vendido e a partilha não é concluída. Mas isso depende das circunstâncias do caso e não é automático. É preciso avaliar a situação patrimonial, eventual financiamento e outros fatores envolvidos”, afirma. A advogada recomenda que os envolvidos formalizem o que combinarem sobre a residência e as despesas. A intenção é permitir que ambos reorganizem a vida sem transformar os ajustes financeiros em novos conflitos. O tema faz parte da realidade de um Estado que já apareceu entre os primeiros do País em taxa de divórcios. Em reportagem de 2025, o Campo Grande News a presentou dados das Estatísticas do Registro Civil do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes a 2023. Naquele ano, Mato Grosso do Sul ocupou a terceira posição nacional, atrás de Rondônia e do Distrito Federal.
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