ARTIGOS Salvador, cidade da resistência e da democracia
O Brasil viveu, no último domingo (25), um dos dias mais tensos de sua história democrática recente. A vitória de Lula, com 51,79% dos votos válidos, representa mais do que um resultado eleitoral: é a vitória da democracia sobre o fascismo, a derrota de Flávio Bolsonaro e a reafirmação de que o futuro do país não pode ser construído sobre o ódio, a intolerância e a retirada de direitos. E Salvador teve papel decisivo nessa demonstração de resistência.
Na capital baiana, Lula recebeu 73,24% dos votos válidos, mais de 1,15 milhão de votos que na primeira eleição. Na Bahia, alcançou 71,31%. Mesmo diante do caos no transporte público, Salvador registrou uma redução expressiva da abstenção. O número de eleitores ausentes caiu de 393.755 no primeiro turno para cerca de 308 mil no segundo. Foram aproximadamente 85 mil abstenções a menos.
Tudo sobre Artigos em primeira mão!Caminhei pela cidade, conversei com eleitores e presenciei uma cena que não sairá da minha memória. Nos pontos de ônibus, mulheres com filhos, pessoas idosas e trabalhadores esperavam por mais de horas pela chegada dos coletivos. Ninguém estava disposto a desistir do voto.
A falta de ônibus em diferentes regiões, com veículos retidos em garagens e denúncias que mobilizaram a Justiça Eleitoral, criou obstáculos concretos ao exercício de um direito fundamental. A gravidade levou o Supremo Tribunal Federal a prorrogar o horário de votação em todo o país. É necessário apurar responsabilidades. Não podemos naturalizar circunstâncias que dificultem a participação popular.
Salvador é uma cidade majoritariamente negra, marcada pela resistência e por revoltas históricas, como a Revolta dos Búzios e a Revolta dos Malês, que carregavam a luta pela liberdade, contra a escravidão e por direitos sociais. Na Independência da Bahia, o povo baiano também teve papel decisivo na expulsão das tropas portuguesas. Essa história de luta se renova agora: conseguimos derrotar o bolsonarismo em Salvador nas urnas. A população preta e parda, maioria dos moradores da capital, sempre negligenciada, que enfrenta diariamente as dificuldades do transporte, do trabalho, da renda e do acesso aos serviços públicos, não abriu mão de decidir os rumos do país.
O soteropolitano é alegre, acolhedor, mas também é forjado na resistência. Tem uma história de enfrentamento às desigualdades, de organização popular e de luta por liberdade. Salvador mostrou que o Brasil pode contar com a Bahia e com seu povo para defender a democracia, ampliar direitos e conquistar desenvolvimento com justiça social. Terra de gente trabalhadora, de mães que lutam pelos filhos, de idosos que não desistem, de jovens que querem oportunidades e de uma população que sabe que o voto é instrumento de transformação.
Salvador resistiu, votou e venceu.
Marta Rodrigues é Vereadora de Salvador pelo PT e presidente da Comissão de Reparação da Câmara.
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