ESTUDO Território ocupado por favelas no país cresce 150% em 40 anos
ESTUDO
Segundo levantamento, 54% da expansão das favelas ocorreu sobre áreas naturais

Folha de S.Paulo | 05/11/2026 às 4h00
Ocupação alterou a relação das favelas com as áreas verdes | Foto: — Divulgação
O território ocupado por favelas cresceu mais de 150% em quatro décadas no Brasil, em ritmo superior ao aumento da área urbanizada, que foi de 132% no mesmo período.
Segundo levantamento do MapBiomas — iniciativa que reúne universidades, organizações não governamentais e empresas de tecnologia para monitorar as transformações do uso da terra no país —, os territórios ocupados por favelas passaram de 60,2 mil hectares em 1985 para 151,7 mil hectares em 2025.
Em relação à área urbanizada geral, o crescimento foi de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares.
Com o acréscimo de 2,5 milhões de hectares, essa área urbanizada passou a ocupar 0,5% do território nacional, ante 0,2% no início da série histórica, em 1985.
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O avanço da ocupação alterou a relação das favelas com as áreas verdes. Em 1985, essas moradias dispunham de 43% mais vegetação por hectare do que as demais regiões urbanas. Em 2025, essa disponibilidade passou a ser 15% menor.
Isso não significa que a vegetação dentro das favelas tenha diminuído em extensão total. Ela cresceu, mas em ritmo inferior ao da ocupação. Como resultado, a quantidade de verde por hectare urbanizado caiu cerca de um terço. Fora das favelas, esse indicador aumentou aproximadamente 10%.
Distribuídas por 651 municípios, essas comunidades apresentam diferenças regionais expressivas. O Norte concentra 27,9% da área ocupada por favelas do país, embora reúna apenas 9,4% de toda a área urbanizada nacional.
Manaus lidera o ranking de área urbanizada em favelas, com 10,5 mil hectares distribuídos em 235 comunidades. São Paulo tem quase seis vezes mais favelas — 1.359 —, mas elas ocupam uma extensão menor: 6 mil hectares.
O levantamento também aponta divergências na origem dos terrenos ocupados. Nas favelas, 54% da expansão ocorreu sobre áreas naturais. Na urbanização brasileira em geral, a principal origem foi a pastagem, responsável por 38% do avanço.
Em números absolutos, porém, a conversão de vegetação natural em zona urbanizada foi 17,5 vezes maior fora das favelas: 866,8 mil hectares, contra 49,5 mil hectares nessas comunidades.
A ocupação também avançou em terrenos suscetíveis a desastres. A área urbanizada em favelas situadas em zonas de risco muito alto para inundações mais que dobrou, segundo o estudo. No caso de deslizamentos, o crescimento foi de 12%. Esses indicadores descrevem as características dos locais e não representam a quantidade de ocorrências registradas.
Outro recorte do estudo mostra a relação entre vegetação e aquecimento nas cidades brasileiras. No verão, setores urbanos com até 10% de cobertura vegetal apresentam intensidade média de ilhas de calor de 5 °C. Nos setores com 80% de vegetação, a diferença cai para 1,1 °C, segundo medições da temperatura na superfície do solo.
Paralelamente, a área com luz artificial noturna detectável por satélite cresceu 37% no Brasil entre 2013 e 2025, um acréscimo de 1,7 milhão de hectares. O Sudeste concentra 40% da área iluminada mapeada no país, e o Mato Grosso registrou o maior crescimento proporcional, de 97%.
De acordo com o MapBiomas, os dados ajudam a investigar impactos ambientais e mudanças na ocupação do território, bem como a identificar locais onde a arborização e a ampliação de áreas verdes são mais necessárias.
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