Gazeta do Povo
05/11/2026 07:00

Por que quase 3 milhões de eleitores a mais foram às urnas no segundo turno?

No primeiro domingo de outubro, um eleitor decidiu ficar em casa. Talvez estivesse cansado da política, confuso diante de tantos candidatos ou sem condições de chegar à seção eleitoral. Três semanas depois, poderia ter mudado de ideia. O país era o mesmo. Os problemas também. Mas alguma coisa havia mudado na decisão de participar.

Esse é um dos fatos mais intrigantes das eleições presidenciais de 2026. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção caiu de 33,5 milhões para 30,5 milhões de eleitores entre os dois turnos, passando de 21,08% para 19,22%. Os votos brancos e nulos também diminuíram, somados, em aproximadamente 1,8 milhão. Em 2022, a abstenção já havia recuado, mas apenas de 20,95% para 20,59%. Em 2026, a redução foi mais de cinco vezes maior, em pontos percentuais. O que levou tantos brasileiros às urnas quando, historicamente, a participação tende a diminuir no segundo turno?

A teoria econômica da democracia oferece algumas pistas. Em An Economic Theory of Democracy (1957), Anthony Downs mostrou que a participação política também responde a incentivos. Votar exige tempo, informação e deslocamento, embora a probabilidade de um único voto decidir uma eleição presidencial seja praticamente nula. Esse é o conhecido paradoxo do voto. William Riker e Peter Ordeshook, no artigo A Theory of the Calculus of Voting (1968), publicado na American Political Science Review, aprofundaram essa questão ao incorporar benefícios associados ao dever cívico e à satisfação de participar da vida política. A ideia central é simples: a decisão de votar depende não apenas dos resultados esperados, mas também dos custos e benefícios da própria participação. E esses incentivos podem mudar entre dois turnos de uma mesma eleição.

No primeiro turno de 2026, o brasileiro precisou fazer seis escolhas: deputados federais e estaduais, dois senadores, governador e presidente. No segundo, restaram duas candidaturas presidenciais e, em alguns estados, também a disputa para governador. A decisão tornou-se menos complexa. Isso pode ter reduzido uma espécie de imposto informacional, o esforço necessário para compreender as alternativas políticas e decidir em quem votar.

As eleições de 2026 mostraram que o comportamento eleitoral pode mudar em poucas semanas. Compreender essa mudança exige olhar tanto para os incentivos políticos quanto para as condições concretas que permitem ao cidadão exercer seu direito

A competitividade oferece outra explicação. Quando a eleição parece apertada, cresce a percepção de que comparecer importa. A polarização pode reforçar esse sentimento, especialmente quando o eleitor considera a vitória do adversário uma perda importante. A economia comportamental ajuda a compreender esse mecanismo: o receio de perder algo valorizado pode mobilizar mais do que a expectativa de obter um ganho equivalente.

Os partidos também mudam suas estratégias. Depois do primeiro turno, conhecem melhor a distribuição territorial dos votos e podem concentrar esforços onde a abstenção foi elevada. Contatos pessoais, redes de apoio e mobilização comunitária podem incentivar o comparecimento. Pesquisas de Alan Gerber e Donald Green mostram que determinados esforços de mobilização eleitoral produzem resultados concretos, embora sua eficácia dependa das circunstâncias. Mas seria um erro procurar a explicação apenas nas campanhas. As instituições também podem influenciar os custos de participar.

Após o primeiro turno, a Justiça Eleitoral reforçou orientações sobre o direito de votar mesmo para quem havia faltado à primeira votação. Em 22 de outubro, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, orientou os tribunais regionais a fiscalizar a oferta de transporte coletivo gratuito, divulgar horários e itinerários e comunicar irregularidades. A gratuidade já estava prevista para os dois turnos, conforme as regras eleitorais e o entendimento anterior do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para quem depende de ônibus, mora longe da seção eleitoral ou enfrenta dificuldades financeiras, o deslocamento pode representar uma barreira concreta. O transporte gratuito reduz esse custo. Mas sua existência, por si só, não explica a diferença entre os turnos. Seria necessário verificar se a oferta efetiva melhorou, se houve maior divulgação do serviço e em quais municípios essas mudanças ocorreram.

No próprio dia 25 de outubro, diante de problemas relatados no transporte, o ministro Cristiano Zanin, do STF, autorizou a extensão da votação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas às 17h. Segundo levantamento posterior do TSE, 34.393 votos foram registrados após esse horário, dos quais apenas 1.994 depois das 18h. Esses números não identificam quantos votos dependeram da decisão judicial, mas mostram que a prorrogação, isoladamente, não explica a redução de quase 3 milhões de abstenções. A questão mais interessante, portanto, não é escolher uma explicação única, mas descobrir quanto cada mecanismo contribuiu para a mudança observada.

Os dados do TSE oferecem um caminho. É possível comparar municípios e seções eleitorais, identificar onde a participação mais cresceu e investigar sua relação com a competitividade da disputa, a mobilização partidária e as condições de transporte. Também seria importante comparar os estados que tiveram segundo turno para governador com aqueles onde ocorreu apenas a eleição presidencial.

Essas análises exigem cuidado. A redução líquida da abstenção não revela quais eleitores mudaram de comportamento, muito menos em quem votaram. Sem evidências adicionais, não é possível atribuir o resultado a determinado partido, candidato ou decisão judicial. Uma explicação plausível não equivale a uma causa comprovada.

Para as políticas públicas, a lição é relevante. Reduzir a abstenção não depende apenas de campanhas de conscientização. Também exige informação acessível, transporte adequado e menores barreiras ao comparecimento. Cabe às instituições garantir essas condições de forma imparcial e avaliar, com dados, quais iniciativas realmente ampliam a participação.

As eleições de 2026 mostraram que o comportamento eleitoral pode mudar em poucas semanas. Compreender essa mudança exige olhar tanto para os incentivos políticos quanto para as condições concretas que permitem ao cidadão exercer seu direito. Quase 3 milhões de ausências deixaram de ocorrer entre dois domingos. Ainda não sabemos quanto dessa mudança se deve à mobilização política, à simplificação da escolha ou à redução dos custos de votar.

Talvez a principal lição das eleições de 2026 seja esta: a participação eleitoral não depende apenas da vontade dos cidadãos, mas também dos custos e das condições para exercer o direito ao voto. Nesse contexto, o Tribunal Superior Eleitoral desempenha um papel fundamental. Mais do que organizar eleições e contar votos, cabe à Justiça Eleitoral assegurar a transparência do processo, orientar os eleitores, fiscalizar o cumprimento das regras e contribuir para a redução das barreiras à participação, sempre com imparcialidade.

A expressiva queda da abstenção no segundo turno oferece uma oportunidade para aperfeiçoar essas ações por meio de políticas públicas baseadas em evidências. É preciso investigar quais medidas efetivamente facilitaram o comparecimento, em quais regiões produziram resultados e quais grupos de eleitores foram mais beneficiados. Sem essa avaliação, corre-se o risco de confundir boas intenções com resultados concretos. Afinal, a qualidade de uma democracia não se revela apenas na contagem dos votos, mas também nas condições que permitem a cada cidadão chegar às urnas e fazer sua escolha.

Giacomo Balbinotto Neto é professor de Economia – PPGE/UFRGS.

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