AC24horas
05/11/2026 07:00

Discursos de Vitrine

A cada trágico episódio de violência contra a mulher, a administração pública ensaia a mesma coreografia de notas de repúdio. O fenômeno suscita duas curiosidades: o silêncio sepulcral de autoridades que deveriam liderar o debate e o fervoroso ativismo de gestores que, na intimidade dos gabinetes, são notórios por não tratar suas servidoras com a mesma reverência. Aparentemente, a revolução estrutural é fantástica, desde que não exija arrumar as gavetas da própria secretaria.

Violência contra a mulher

Dos cinco municípios do Vale do Juruá, apenas Cruzeiro do Sul ostenta a Patrulha Maria da Penha, protegendo 150 mulheres. Nas outras quatro cidades, pelo visto, a violência de gênero já deve ter sido milagrosamente erradicada. Sem presídio feminino em Cruzeiro do Sul, as detentas são despachadas para Tarauacá. Afinal, impor 250 quilômetros de distância e inviabilizar as visitas das famílias deve ser o mais novo e revolucionário método de ressocialização do Estado.

Transição e Planejamento

Em recente entrevista, a governadora reeleita Mailza Assis transmitiu a imagem de uma gestora que prioriza o planejamento estratégico como ferramenta fundamental para a tomada de decisões. A transição de governo — mesmo quando ocorre para o próprio grupo político ou para a própria mandatária — é um período crucial que aponta diretrizes para os próximos quatro anos. É imprescindível que esse processo seja conduzido com rigor e seriedade, servindo como base sólida não apenas para os futuros investimentos, mas também para a organização da equipe interna.

A intrigante ontologia de Ney Amorim

É palpável o sutil desconforto de certas alas do MDB ao se verem, de forma tão cordial, excluídas da seleta equipe de transição do governo Mailza Assis. Há quem tente apaziguar os ânimos sugerindo que a sigla estaria muitíssimo bem representada pela figura de Ney Amorim. Ocorre que, em termos de fidelidade partidária, Ney representa única e exclusivamente a respeitável instituição “Ney”. Como é de conhecimento público, sua bússola aponta com admirável docilidade para a direção que a chefe do Executivo determinar. Uma trajetória de lealdade tão flexível que beira a poesia. Ou o mais melancólico epílogo.

O Papel da Casa Civil

O atual chefe da Casa Civil da governadora Mailza Assis, Cristovam Moura, ilustra os desafios inerentes ao cargo. A função exige grande habilidade de articulação, tato e equilíbrio. O ocupante não deve ser excessivamente discreto, a ponto de ter sua presença ignorada, tampouco demasiadamente expansivo, para não ofuscar o protagonismo e a liderança da chefe do Executivo.

A Dinâmica Partidária

O ex-governador Jorge Viana, historicamente conhecido por exercer um controle rigoroso sobre seu partido no Acre, demonstra manter certa resistência em compreender a dinâmica autônoma das legendas. Utilizando os resultados eleitorais deste ano, Viana tem criticado o que chama de “atraso” das siglas e defendido uma “modernização” — movimento comparável à desconexão vista no caso de João Amoêdo e o partido Novo. Contudo, é necessária muita cautela: a desvalorização do sistema partidário é uma armadilha política perigosa que fragiliza as instituições, deixando o sistema vulnerável e criando um terreno fértil para o populismo e o proselitismo.

Hierarquia no Legislativo

No âmbito do Poder Legislativo, a pretensão do recém-chegado deputado Samir Bestene de já pleitear a presidência da Assembleia Legislativa do Estado do Acre (Aleac) tem sido vista com ressalvas. No processo democrático, é prudente respeitar o tempo, a moderação e as hierarquias políticas institucionais, evitando posturas que possam ser interpretadas como excesso de ambição.

Segurança Pública

A análise recente sobre a gestão da Segurança Pública foi considerada precipitada por especialistas da área. A proposta de extinguir a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e convertê-la em uma diretoria vinculada à Casa Civil não teve boa receptividade. Defende-se a manutenção de sua estrutura tradicional: uma instância coordenadora, indispensável para integrar as ações da Polícia Militar e da Polícia Civil.

Fronteiras e Apreensões

Em um espetáculo de inabalável zelo cívico, o Grupo Especial de Operações em Fronteiras (Gefron) promoveu 335 incursões pelas nossas permeáveis divisas nos primeiros dez meses do ano. O saldo do braço forte do Estado resultou na apreensão de modestas 6,3 toneladas de substâncias de efeito recreativo não legalizado, além de 44 veículos, 11 armas de fogo e exatos 34.860 maços de cigarros — um verdadeiro revés para os empreendedores do comércio alternativo não tributado. A operação cumpriu ainda 34 mandados judiciais, lembrando aos incautos de que a lei, embora às vezes tarde, costuma chegar de camburão.

A Corrida Contra o Relógio

A zelosa Prefeitura de Acrelândia decretou o dia 19 de novembro de 2026 como o derradeiro limite para a reorganização orçamentária do município. Trata-se do tradicional e aguardado ajuste de contas de fim de ano, exigindo que as secretarias tirem os esqueletos de seus respectivos armários financeiros. Aos responsáveis pela execução das despesas públicas, recomenda-se parcimônia e noites mal dormidas; afinal, fechar o balanço municipal sem sobressaltos com o Tribunal de Contas é uma arte tão rara quanto bela.

A Cornucópia Acriana

O Acre desponta como o verdadeiro celeiro de divisas da pátria, acumulando um nababesco superávit comercial de US$ 95,7 milhões de janeiro a setembro de 2026 — obliterando, com requintes de crueldade estatística, todo o desempenho do ano de 2025 (US$ 93,6 milhões). Com importações pífias de parcos US$ 5,2 milhões, o estado inunda o globo com suas carnes, frutas, castanhas e soja. Pelo visto, o apetite estrangeiro por nossas iguarias é inversamente proporcional à nossa vontade de adquirir bugigangas importadas.

Onde Está o Meu Imóvel?

Em uma virtuosa cruzada contra o esquecimento cartográfico, o governo estadual decidiu, por meio do edital nº 139/2026 e das graças do Progestão, georreferenciar cerca de dois mil imóveis públicos. A iniciativa visa atualizar o cadastro patrimonial e garantir controle administrativo adequado. É o poder público lançando mão de satélites de última geração para, enfim, descobrir por onde andam e quais são, de fato, as suas próprias propriedades.

O Pacto da Bomba

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) selou um acordo de cooperação decenal com o Acre e outros 22 entes federativos. O escopo da aliança? Compartilhar afetuosamente dados fiscais para vigiar o sempre efervescente mercado de combustíveis. Uma união de esforços para garantir que, na hora de encher o tanque, a única coisa a evaporar seja o próprio hidrocarboneto, e nunca os impostos devidos ao sacrossanto erário.

Inflação, Consumo e Economia

O cenário econômico apresenta aquela clássica dualidade tupiniquim: se, por um lado, o prato de comida pesou mais no bolso do rio-branquense (alta de 1,14% nos alimentos em setembro), por outro, a inflação geral da capital comportou-se com invejável timidez (0,53%), ficando abaixo da média nacional. Em sintonia com essa mágica dos números, o otimismo das famílias atingiu 122,4 pontos, embalado pela inabalável fé na manutenção dos empregos. Contudo, na hora de comprar a geladeira nova, o ânimo despenca. Pudera: com os oráculos do Banco Central projetando a taxa Selic a módicos 13,5% e a inflação nacional em 5,22%, até o cidadão mais confiante prefere deixar as prestações para a próxima encarnação.

Clima Organizacional na Comunicação

Durante o atual período de transição, o ambiente na Secretaria de Estado de Comunicação (Secom) tem se mostrado tenso. Com a saída de Nayara Lessa — que possivelmente assumirá funções no Tribunal de Contas do Estado (TCE) —, relata-se uma preocupante inversão de papéis. Profissionais recém-chegados e com menos experiência vêm adotando posturas autoritárias diante de servidores veteranos, que há anos contribuem com o Estado. É recomendável que as novas equipes ajam com urbanidade, harmonia e respeito à trajetória dos mais experientes, lembrando sempre que as posições de poder na administração pública são transitórias.

Independência de Poderes

Quem acredita na total ausência de interferência do Executivo na eleição da Mesa Diretora pode, gentilmente, tirar o cavalinho da chuva. Nos bastidores, comenta-se que o prefeito Alysson Bestene segue em compasso de espera. O motivo da pausa dramática? Ele aguarda o “sinal verde” — ou o palpite estratégico — da governadora Mailza Assis, sua colega de partido. Caberá a Alysson, no fim das contas, decidir se acata ou não o sábio conselho do Palácio.

A Aceitação do Ciclo Político

Em relação ao ex-prefeito Tião Bocalom, suas críticas à criação da Guarda Municipal, embora possuam certa coerência argumentativa, parecem divergir do atual momento; trata-se de um avanço institucional praticamente consolidado e irrefreável na gestão pública. Ademais, é salutar que o ex-gestor assimile o encerramento do ciclo eleitoral. Suas redes sociais ainda refletem um distanciamento do resultado definido pela maioria nas urnas. O processo de transição pode ser difícil, mas a aceitação democrática é o caminho mais respeitoso e maduro a seguir.

Do contra

O ex-prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, fez questão de expor sua contrariedade à criação da Guarda Municipal, anunciada por seu então pupilo, Alysson Bestene. Questionado se era contra a proposta, o homem do café respondeu: “sempre fui”. E não parou por aí. Boca ainda comentou em rede social sobre o assunto: “vamos ver quem tinha razão”.

O Pai da Criança

Após a gestão anterior rechaçar solenemente a Guarda Municipal, o atual prefeito anunciou sua criação, inaugurando um comovente espetáculo de paternidade tardia. Vereadores, deputados e coletivos subitamente descobriram que lutavam por isso desde o berço. Em meio a tantos pais adotivos disputando os holofotes, os bastidores sussurram que a jogada foi milimetricamente orquestrada por uma única mente nos corredores municipais, que apenas esperou a plateia sentar para abrir as cortinas.

Herança de Baixo do Tapete

Os ecos e poeiras da gestão anterior continuam a ressoar, embora tenham sido estrategicamente varridos da vista do público. Com a troca de comando, uma fila de otimistas bate à porta do novo prefeito, carregando pendências e denúncias na esperança de um milagre administrativo. Resta aos munícipes a clássica dúvida republicana: o atual gestor promoverá uma faxina rigorosa no passivo herdado ou apenas providenciará a compra de um tapete maior?

A prosperidade do setor de combustíveis

Desde o peculiar revés eleitoral do estimado Bocalom, o súbito e incondicional apreço dos servidores municipais pelas intensas agendas de Alysson tem sido, de fato, comovente. Consta que até detentores de altos cargos comissionados estão se desdobrando na nobre missão cívica de garantir os sagrados proventos no fim do mês. Em contrapartida, figuras notórias como Cid e Eracides adotaram o minimalismo presencial e, elegantemente, evaporaram. Os postos de gasolina da capital, é claro, aplaudem de pé tamanha movimentação democrática.

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