O Tempo
05/11/2026 08:01

VIDA A DOIS Como falta de dinheiro afeta o relacionamento amoroso?

Viver só de amor não paga a conta de todo mês. Nos filmes românticos, ninguém fala da importância de saber fazer uma boa administração financeira na vida a dois. O fato é que a falta de dinheiro no bolso pode afetar a qualidade emocional do relacionamento. Em muitos casos, pode ser a via principal para a separação. “Quando um casal passa por um aperto financeiro, não são apenas as contas básicas que pesam, né? Vem a ansiedade, a preocupação, a irritabilidade”, assinala a sexóloga Renata Dietze.

E, para quem gosta de lembrar as promessas do matrimônio, quando o casal se compromete no altar a estar junto “na riqueza e na pobreza”, Renata frisa o quão importante é manter os momentos prazerosos da relação. “Como diz a música do Titãs, ‘a gente não quer só comida’, né? A gente não quer só pagar conta. Também queremos viver, viajar, sair para jantar, fazer programa diferente... E, muitas vezes, tudo isso acaba ficando em segundo plano quando a gente não tem dinheiro”, registra. 

“Aí o casal pode entrar numa rotina de privações que, às vezes, não foi nem escolhida. E isso gera frustração, distanciamento e conflitos. Uma frase que eu gosto de falar para meus pacientes é que, quando as preocupações financeiras entram dentro de casa, primeiro se sentam à mesa. Depois, deitam na cama com a gente”, alerta Renata, sobre o impacto no desejo sexual. “A intimidade continua sendo um espaço de acolhimento, de relaxamento, de prazer, conexão. A satisfação conjugal e a financeira estão relacionadas”.

O relatório “The Economics of Dating Report”, publicado em setembro, aponta que o impacto da inflação nos relacionamentos, um fenômeno batizado de “date-flation”, tem afetado drasticamente as gerações Z e Millennials. Oitenta e quatro por cento afirmam que mudaram sua vida amorosa devido ao custo de vida, enquanto 32% estão saindo menos e 11% pararam totalmente de namorar por falta de dinheiro. Dezessete por cento admitiram ter contraído dívidas apenas para acompanhar o ritmo do parceiro. 

Como diz a máxima, dinheiro não traz felicidade. Mas é melhor do que ficar mergulhado em dívidas. “Não é preciso ter muito dinheiro para viver um grande amor, mas a segurança financeira amplia as possibilidades de viver experiências, de construir memórias, de alimentar a relação. E, no final das contas, não é só sobre quanto dinheiro esse casal tem. É também sobre como ele enfrenta as dificuldades que encontra, né? Sobre quais as maneiras eles encontram de continuar cultivando o vínculo”, observa a sexóloga.

Gestão de crise

O psicólogo Gustavo Cury recebe constantemente casais que estão num ponto de tensão da relação, justamente por conta da questão financeira. “Geralmente o centro da terapia está nesse momento de gestão de crise, quando eles entra, em divergência e precisam se ajustar. O tema é a mudança no padrão de vida, principalmente quando isso afeta o nível da necessidade. Claro que depende da personalidade das pessoas dentro do relacionamento, mas o problema financeiro tem relação direta com sintomas depressivos e ansiosos”.

Como o casal é sempre a soma de dois, segundo Cury, o problema de um pode repercutir na dinâmica relacional e gerar problemas. “A satisfação financeira não é necessariamente relacionada à satisfação conjugal, que depende de muitos outros fatores. Mas é um elemento importante porque a estabilidade financeira vai, pelo menos em tese, trazer mais estabilidade para o casal, como um problema a menos para resolver”, explica. As maiores crises conjugais têm a vida financeira como causadora, salienta.

A psicóloga e sexóloga Andréa Aguiar reforça que a maneira como o casal lida com o dinheiro pode fortalecer ou comprometer profundamente a relação. “Quando existe parceria, diálogo e responsabilidade compartilhada, mesmo os períodos economicamente difíceis podem ser enfrentados com mais união”, diz. Ela revela que, muitas vezes, o casal relata problemas de comunicação, distanciamento afetivo ou dificuldades na vida sexual, mas, ao se aprofundar a investigação, percebe-se que existe uma tensão financeira por trás dessas manifestações.

“O dinheiro pode ser um gatilho para conflitos mais profundos, envolvendo confiança, poder, autonomia e divisão de responsabilidades. Às vezes, o casal acredita que está brigando por dinheiro, mas, na verdade, está brigando por reconhecimento, justiça e sensação de parceria”, salienta Andréa. Para ela, o primeiro passo para uma relação não ser prejudicada é transformar o dinheiro em um assunto legítimo dentro da relação. “O silêncio pode gerar expectativas equivocadas, desconfiança e ressentimentos”, avisa.

Andréa receita que o importante é compreender que cada pessoa traz uma história e uma relação emocional com o dinheiro. “Minha orientação é que o casal desenvolva uma comunicação transparente, sem acusações ou julgamentos, conversando sobre prioridades, possibilidades e projetos”, comenta. Para isso, é saudável ter momentos periódicos para conversar sobre orçamento, despesas, dívidas, investimentos e objetivos futuros. “Isso permite que tenham clareza sobre a realidade financeira e participem das decisões”.

Divisão proporcional

Um planejamento conjunto não significa necessariamente que os dois precisam contribuir com valores iguais ou abrir mão da autonomia financeira. “A divisão pode ser proporcional à renda e às responsabilidades de cada um. Um orçamento compartilhado precisa produzir segurança e parceria, nunca se transformar em ferramenta de vigilância ou controle do parceiro”, alerta Andréa. “Fazer controle junto não significa que os dois precisam ter uma conta bancária conjunta ou que um tem que fiscalizar o dinheiro do outro”, concorda Renata.

“O ideal é que o casal tenha clareza sobre quanto custa manter aquela vida que eles escolheram construir juntos. Sobre o quanto eles gastam com moradia, alimentação, transporte, lazer, e quais as possibilidades reais de cada um contribuir. Essa divisão não precisa ser meio a meio. Às vezes um ganha mais que o outro e aí é justo que o que ganha mais contribua proporcionalmemte à sua renda”, recomenda Renata, que sublinha o fato de que o acompanhamento financeiro não pode ficar a cargo de uma pessoa apenas.

“Somente um ficar responsável sobrecarrega mentalmente, gerando uma sensação de injustiça e ressentimento. Então, acho muito saudável que o casal reserve um momento do mês para sentar e olhar para as finanças. É pegar caderninho, anotar, ter planilha, avaliar os gastos, planejar o que vai vir pela frente, fazendo os ajustes necessários. E claro, preservar também algum espaço de autonomia individual. Estar numa relação não significa perder a própria independência, né?”, analisa Renata Dietze.

Gustavo Cury recomenda que o casal trate das questões econômicas juntos, "começando por estratégias que efetivamente funcionam, como a reorganização financeira, que é o básico". Numa conversa mais aberta, entender o que pode ser flexibilizado e o que é inegociável. "Para isso funcionar, é importante a cumplicidade. Se um dos dois se comporta de uma forma mais egoísta, muito provavelmente isso vai repercutir como um afastamento afetivo na relação", detalha Cury.

No gerenciamento dos conlfitos que surgem, o psicólogo tenta retomar acordos que precisam ficar bem claros na relação."Eu costumo brincar muito com meus pacientes que, na relação de casal, são duas regras que valem: 'pau que dá em Chico tem que dar em Francisco' e 'Combinado não sai caro'. Então, a regra tem que ser a mesma para os dois. Numa linguagem mais técnica, o que garante a funcionalidade no relacionamento é o alinhamento de expectativas, propósitos e,  principalmente, equilíbrio entre as trocas no casal".

Cumplicidade

Cury ressalta bem a palavra "cumplicidade". É o elemento que irá ajudar o casal em momentos de intempéries, especialmente financeiras. "Se você vai sair para comer um dogão ou vai a um restaurante francês, o importante é que os dois estejam juntos ali", afirma. Ele lembra que as situações irão variar muito de acordo com a fase do relacionamento. Abrir o jogo logo no primeiro encontro, não é algo recomendável. Afinal, nesse instante, o casal quer mais aproveitar o romance do que fazer projeções conjuntas.

"Não é saudável falar de valores em um encontro romântico, mas também não se pode esconder as dívidas para outra parte, não é verdade? eu estou visando uma estabilidade naquele relacionamento, uma continuidade, com aquilo evoluindo para um namoro ou para um casamento, realmente é uma desonestidade (esconder). Porque a outra pessoa tem o direito de saber onde que ela está pisando antes de constituir um relacionamento. Na construção de um relacionamento em que há convivência, é preciso ser bastante honesto sobre essas questões", enrfatiza o psicólogo.

Realizar o planejamento financeiro o quanto antes, reforça Cury, ajuda a tornar viável situações que, se tiverem que ser adiadas por falta de dinheiro, correm o risco de não passarem de sonho. É o caso do desejo de aumentar a família com os filhos. "Isso é muito comum em casais em que a mulher,na faixa dos 35 anos de idade, começa a ter uma ansiedade muito grande, porque ela ela tem um limite para isso poder acontecer. Com o passar do tempo, vai ficando cada vez mais difícil para ela engravidar, além de haver mais risco tanto para ela quanto para o bebê".

Andréa Aguiar pondera que a instabilidade econômica pode fazer com que muitos casais adiem decisões importantes, principalmente aquelas que envolvem compromissos financeiros de longo prazo. "Morar juntos, casar e ter filhos exigem planejamento, segurança e uma reorganização da vida financeira. Do ponto de vista psicológico, esse adiamento pode gerar frustração e insegurança, especialmente quando os parceiros têm expectativas diferentes sobre o futuro. Um deseja avançar, enquanto o outro acredita que ainda não existem condições. É importante compreender que muitos casais não estão adiando seus sonhos por falta de amor, mas porque sentem que ainda não possuem condições materiais para realizá-los".

Renata Dietze destaca, por outro lado, que realidade financeira de cada casal é muito particular, com um olhar diferente para o que é falta de dinhiero. "Tem gente que tem outras prioridades e maneiras muito distintas de lidar com dinheiro. Até que ponto estão adiando um projeto porque realmente não têm condições de realizá-lo? Até que ponto estão esperando por uma segurança absoluta que talvez não exista nunca? Para algumas pessoas, a vida acontece quando todas as condições estão perfeitas. Será? Nem sempre. E isso não significa agir de maneira irresponsável. O que para um parece ser uma decisão prudente de esperar, pode ser vivido pelo outro como um risco de perder a oportunidade de realizar aquele sonho".

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