APONTA ESTUDOAvanço das construções reduz vegetação nas favelas brasileiras; Norte concentra quase 28% desse território Levantamento do MapBiomas aponta queda de 34% na disponibilidade de áreas verdes nas favelas em 40 anos e destaca a participação da Região Norte no cenário nacional
Em 40 anos, as favelas brasileiras passaram a ter menos vegetação e mais áreas construídas, segundo levantamento do MapBiomas. Entre 1985 e 2025, a disponibilidade de áreas verdes por hectare urbanizado caiu 34%, enquanto a área urbanizada sem vegetação cresceu 2,6 vezes.
O estudo mostra que a área urbanizada em favelas passou de 60,2 mil hectares, em 1985, para 151,7 mil hectares, em 2025. A expansão também mudou a distribuição da vegetação. Inicialmente, esses territórios tinham 43% mais áreas verdes por hectare urbanizado do que as demais regiões das cidades. Em 2025, passaram a ter 15% menos.
Fora das favelas, a disponibilidade de vegetação aumentou cerca de 10% no período. Já nesses territórios, o indicador caiu de 0,060 para 0,040 hectare por hectare urbanizado.
Norte concentra quase 28% das favelas urbanizadas
A Região Norte concentra 27,9% de toda a área urbanizada em favelas do Brasil, embora represente apenas 9,4% da área urbanizada nacional. No Amazonas, 22,4% da área urbanizada está em favelas e comunidades urbanas, a maior proporção entre os estados.
Manaus lidera o ranking nacional de área urbanizada em favelas, com 10,5 mil hectares distribuídos em 235 comunidades. São Paulo, apesar de ter 1.359 favelas, quase seis vezes mais que a capital amazonense, possui uma área menor, de 6 mil hectares.
O levantamento também aponta diferenças entre os estados quanto à ocupação de áreas suscetíveis a inundações. O Pará registra a maior extensão de favelas nessa condição, com 2.059 hectares. Já no Amapá, 92% das favelas estão em áreas com suscetibilidade muito alta a inundações, o maior percentual do país.
Para Julio Cesar Pedrassoli, coordenador do tema Urbano no MapBiomas, a perda de vegetação e o crescimento das favelas precisam ser considerados no planejamento urbano e nas medidas de adaptação às mudanças climáticas.
“Seis em cada dez hectares de favela que existem hoje surgiram depois de 1985, e esse território segue crescendo. Em 1985, as favelas tinham mais verde por hectare urbanizado do que o resto da cidade e hoje têm menos, porque o verde intraurbano encolheu cerca de um terço nelas e cresceu fora delas. Ao mesmo tempo, é nelas que a suscetibilidade a eventos climáticos adversos aumenta mais. Para adaptar as cidades às mudanças climáticas, precisamos olhar para onde o verde se perdeu e onde os territórios ficam mais expostos, e esse mapa precisa incluir as favelas”, explica.
Menos vegetação, mais calor
A redução das áreas verdes também está associada ao aumento das temperaturas nas cidades. Em regiões urbanas com até 10% de cobertura vegetal, a intensidade média das ilhas de calor chega a 5 °C durante o verão. Em locais com 80% de vegetação, a diferença média de temperatura é de 1,1 °C.
A temperatura da superfície das áreas urbanizadas brasileiras é, em média, 2,73 °C superior à das áreas não urbanizadas do entorno. Em cerca de um quarto dos setores censitários urbanos, a diferença ultrapassa 7 °C.
Os dados consideram a temperatura da superfície, e não a temperatura do ar. Segundo Clara Dias, da equipe do tema Urbano do MapBiomas, o levantamento pode ajudar a identificar regiões que precisam de mais arborização.
“Os dados se referem à temperatura da superfície, e não à temperatura do ar, e mostram que áreas com menos vegetação tendem a apresentar temperaturas mais elevadas. Essas informações podem ajudar a identificar regiões onde a arborização e a ampliação das áreas verdes são mais necessárias para reduzir o aquecimento urbano”, explica.
Ocupação em áreas de risco
O levantamento também aponta o crescimento da área urbanizada em favelas localizadas em regiões com suscetibilidade muito alta a inundações. Entre 1985 e 2025, a expansão foi de 117%. Nas áreas suscetíveis a deslizamentos, o aumento chegou a 12%.
O coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, destaca que os indicadores apontam áreas suscetíveis a desastres, mas não significam que as ocorrências tenham sido registradas nesses locais.
“Os indicadores representam a suscetibilidade das áreas urbanizadas a inundações e deslizamentos, mas não a ocorrência efetiva destes desastres. Ao mostrar a expansão urbana nestes locais mais suscetíveis, eles podem orientar ações de prevenção e apoiar a tomada de decisão quando os eventos acontecem. Assim os dados também permitem acompanhar o ritmo de ocupação, olhando para o passado e o futuro” explica.
Sobre o levantamento
Os dados fazem parte do Módulo Urbano do MapBiomas, que monitora a expansão das áreas urbanizadas e as mudanças na cobertura vegetal no Brasil entre 1985 e 2025. A plataforma reúne informações sobre vegetação urbana, ilhas de calor, iluminação artificial noturna e ocupação em áreas suscetíveis a riscos climáticos. Os mapas e indicadores são disponibilizados gratuitamente para consulta em https://plataforma.brasil.mapbiomas.org/.
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