A Triunfante: a loja de tecidos que pôs o Rio nos passos de Marlene
Houve um tempo em que uma visita às lojas de tecidos podia começar muito antes da porta: na novela ouvida em casa, na música que chegava pelo rádio, no anúncio que atravessava a cidade preso à carroceria de um bonde. A Triunfante soube ocupar esses caminhos. No Centro do Rio, entre a solenidade dos grandes edifícios e a pressa de quem entrava e saía do comércio, seu nome prometia uma combinação irresistível: variedade de fazendas, preços populares e alguma coisa acontecendo para atrair o freguês.
A casa fazia do tamanho um argumento. Na Avenida Marechal Floriano, a antiga Rua Larga, anunciava onze portas diante da Light. Do outro lado, outras nove se abriam para a Avenida Presidente Vargas. Era a loja das duas frentes, capaz de incorporar ao próprio endereço dois marcos da cidade. Para encontrá-la, bastava acompanhar a indicação que os reclames repetiam: em frente à Light, no número 197 da Marechal Floriano.
Em abril de 1952, a ligação entre as duas avenidas ganhou uma campanha própria. A Triunfante anunciava para o dia 28 a inauguração de sua “avenida”, passagem comercial pelo interior do estabelecimento. O percurso entre uma rua e outra se fazia entre mercadorias, numa engenhosa maneira de transformar a circulação pelo Centro em oportunidade de compra. Poucos meses depois, a publicidade atribuía à casa capacidade para atender dez mil clientes por dia, cifra com que procurava dar a medida de sua ambição.
A loja já aparecia nos jornais em 1951. Naquele Natal, oferecia garrafas de vinho e folhinhas para o ano seguinte, enquanto sugeria cortes de tecidos para presente. Entre colchas, guarda-chuvas e panos de copa, vendia também cretone com a marca Triunfante. Seu lema organizava a promessa comercial num contraste que cabia perfeitamente no papel de jornal: “Dos preços, a menor. Dos tecidos, a gigante.”
A rede se espalhou pelo Centro. Na Avenida Passos, ocupou os números 42 a 46, entre as ruas Buenos Aires e Luís de Camões, perto do Largo de São Francisco. Na Rua Primeiro de Março, os números 149 e 151 formavam a filial Arsenal, diante do Arsenal de Marinha. Light, Passos e Arsenal passaram a funcionar como pequenos sobrenomes das lojas, referências suficientemente cariocas para dispensar maiores explicações.
Foi justamente a distância entre o largo e a filial da Passos que inspirou uma de suas campanhas mais saborosas. Em 1956, a cantora Marlene emprestou a imagem a um concurso que oferecia um prêmio de cinquenta mil cruzeiros. O desafio consistia em acertar quantos passos ela havia dado do Largo de São Francisco até a Triunfante. O ponto de partida estava assinalado por um cartaz próximo à Escola Nacional de Engenharia. O freguês podia repetir o trajeto, contar seus passos e depositar o palpite na urna da loja, acompanhado do cupom e do talão de compra. O prêmio seria sorteado entre os acertadores.
A graça estava em fazer a cidade participar do anúncio. A calçada virava percurso de concurso, a caminhada de uma estrela do rádio ganhava valor comercial e o nome da avenida entrava na brincadeira. Enquanto isso, a filial anunciava seu departamento de cama e mesa no primeiro andar, servido por elevador: depois dos passos pela rua, havia mais compras acima do térreo.
A intimidade com o rádio ia além da presença de Marlene. Em 1955, a Triunfante anunciava na Rádio Guanabara apresentações de De Paula e seu conjunto de ritmos, transmitidas diretamente do Night and Day, às terças e quintas-feiras, das nove às dez da noite. Na Rádio Mundial, o programa Espetáculos Triunfante, criado e escrito por Graciette Sant’Anna, promovia o concurso da Rainha das Costureiras. A vencedora recebia um carnê de compras da casa, aproximando a publicidade das profissionais que transformavam seus tecidos em vestidos.
O crescimento alcançou Madureira. Em 1964, a rede anunciava sua quarta loja, na Avenida Ministro Edgar Romero, número 55. No ano seguinte, Paulo Moacir de Almeida, apresentado como diretor da Triunfante, aparecia no Correio da Manhã acertando detalhes para a instalação da empresa no Nacional Shopping Center, na Estrada do Portela.
A Triunfante desapareceu da paisagem comercial, mas seus reclames guardam uma cidade em que comprar tecido envolvia escolher a roupa que ainda seria feita, acompanhar uma cantora e atravessar ruas conhecidas. Entre as duas frentes da Marechal Floriano e os passos contados na Avenida Passos, a casa encontrou uma maneira muito carioca de vender: fazer parte do caminho.
Jornalista, Diretora do Diário do Rio, amante de pets e sempre atuante nas pautas de ordem pública.
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