Campo Grande News
Pasteurização do passado: as máquinas de afeto
Apasteurização do passado não é apenas um efeito colateral técnico da automação algorítmica aplicada aos regimes de memória. É uma operação estética e infraestrutural. Ela emerge quando o design da memória, aqui entendido como prática de organizar, mediar e performar o que será lembrado ou esquecido, passa a ser conduzido por sistemas algorítmicos orientados por engajamento, fricção mínima e recompensa afetiva. Memória, aqui, não é acervo. É moeda de troca. Quando a automação assume o gesto arquivístico, o que se altera não é só a superfície da imagem, mas o regime de verdade que sustenta o documento. Rugas são suavizadas. Grãos são removidos. Conflitos são neutralizados. O que resta é uma versão polida do passado, emocionalmente palatável, visualmente estável, culturalmente compatível com a estética dominante das plataformas. Não se trata de restauração. Trata-se de reconfiguração. Otimização e apagamento da historicidade O design da memória envolve decisões estruturais sobre metadados, indexação, visualização e acesso. Quando essas decisões são mediadas por modelos probabilísticos treinados para maximizar retenção e satisfação do usuário, ocorre um deslocamento silencioso, a historicidade se torna ruído. A “pasteurização” já havia sido intuída por Umberto Eco ao discutir a hiper-realidade: o simulacro não apenas imita o real, mas o supera em coerência e legibilidade. O passado fabricado torna-se mais convincente que o passado documentado. Em diálogo com essa perspectiva, a leitura de Eco reforça o embelezamento como estratégia de neutralização do conflito. O documento deixa de operar como índice do tempo para funcionar como interface de conforto. Essa operação encontra ressonância em Simon Reynolds, ao diagnosticar a “retromania”: o passado convertido em repertório estilístico, pronto para circulação mercadológica. O lastro histórico é substituído por uma superfície vintage, cuidadosamente editada para consumo. O que se perde não é apenas a textura e instantaneidade da imagem. Perde-se a densidade do contexto. Do documento à chantagem emocional Ferramentas de animação e restauração baseadas em IA, como o aplicativo Deep Nostalgia https://deevid.ai/pt/image-to-video, explicitam essa transição. Ao “reviver” fotografias antigas, não se busca ampliar a compreensão daquele contexto, mas intensificar a resposta sensorial. O antepassado é reativado como experiência. A lógica da prova cede espaço à lógica do espetáculo. A imagem animada produz proximidade artificial, mas essa proximidade é estatística. O gesto, o sorriso, o piscar de olhos são cálculos de probabilidade. O que se apresenta como reencontro é, na prática, uma simulação de afeto. Aqui, o conceito de “vale da estranheza”, proposto por Masahiro Mori especificamente para ciborgues, ajuda a compreender o desconforto ético que emerge. Quanto mais a imagem se aproxima do “quase vivo”, mais evidencia sua condição de artefato. A estética do quase vivo não restitui o passado; ela o performa. Nesse regime, a memória torna-se interface emocional. Imagens médias e homogeneização A lógica algorítmica opera por médias. Modelos generativos produzem o que se convencionou chamar de mean images: imagens médias resultantes da convergência estatística de grandes volumes de dados. Como observa Hito Steyerl, a imagem contemporânea deixa de ser índice de um acontecimento singular para tornar-se condensação estatística de múltiplas ocorrências. A mean image não representa um evento específico; ela representa a média calculada de muitos. É uma visualidade sintetizada a partir de correlações, não de experiências. Nesse regime, o singular é diluído na probabilidade. A imagem deixa de testemunhar e passa a performar regularidades. O que emerge não é memória situada, mas uma superfície estabilizada pelo cálculo, uma estética da convergência. O singular é substituído pelo provável. A diversidade ocorre dentro de um intervalo estatístico previamente delimitado. Essa operação tem efeitos culturais. Narrativas dissonantes, traumas coletivos, marcas de violência e exclusão tendem a ser suavizadas ou marginalizadas, pois não se ajustam aos padrões de “relevância” e “beleza” definidos pelas plataformas. O protoarquivo digital, entendido como matriz latente de possibilidades textuais e imagéticas, é esculpido segundo curvas de normalização. É a prevalência do padrão mais frequente, elevada à condição de memória. A crítica de Giselle Beiguelman à fantasmagoria digital aponta exatamente para esse risco: ao apagar as marcas do tempo, produz-se um passado espectral, limpo demais para ser verdadeiro. Em contraste, a estética do glitch explicita a falha, o erro, a cicatriz, elementos que reinscrevem a materialidade na superfície digital. A pasteurização, ao contrário, opera pela eliminação sistemática da fricção e da diversidade. Arquivo, produção e amnésia programada Do ponto de vista arquivístico, a questão é mais profunda. Se o arquivo não apenas conserva, mas produz (a partir de suas escolhas de conservação), como argumenta Jacques Derrida, então o design algorítmico da memória é necessariamente um ato produtivo. Cada interação com sistemas generativos reinscreve o passado. A remoção das marcas materiais como rugas, desgaste, granulação, implica a substituição do testemunho por uma performance. O documento deixa de ser evidência para tornar-se evento. A prova desloca-se do campo da materialidade para o campo da modelagem. Esse deslocamento tem consequências políticas. Quando a capacidade de fabricar vestígios se generaliza, a distinção entre registro e simulação torna-se instável. A confiança pública na prova documental se fragiliza. O que se consolida é uma memória modulada por critérios de usabilidade e engajamento. Uma memória comercial de margarina. Nostalgia inventada e simulação de afetos A pasteurização também se articula com o fenômeno da nostalgia inventada. O desejo por um passado não vivido, como descrito por Arjun Appadurai, encontra nas IAs generativas um catalisador técnico. A máquina fornece cenários, vozes, rostos e atmosferas para sustentar afetos de “saudades do que nunca foi”. Essa nostalgia é alimentada pela retromania e por uma economia da atenção que privilegia estímulos rápidos. Nessa nova experiência do usuário (UX), a IA não reconstrói contextos; ela produz fragmentos emocionalmente eficientes. O afeto é calculado. A proximidade é simulada. A memória é convertida em ativo simbólico. O resultado é um deslocamento estrutural, do testemunho para a experiência, da prova para o espetáculo, do fato acontecido para a sensação que não se teve. A pasteurização do passado, portanto, não é apenas uma questão estética. É um problema epistemológico e arquivístico. Ela revela um design da memória que abdica do rigor documental em favor de uma estética de consumo. O arquivo deixa de operar como espaço de fricção entre passado e presente e passa a funcionar como vitrine de um passado compatível com as expectativas do usuário. A memória torna-se produto. E, ao se tornar produto, perde a capacidade de sustentar a complexidade e a contradição da experiência humana e a prova disso tudo. (*) Charlley Luz é doutorando da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
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