ENEM Enem: psicólogos alertam para ansiedade e pressão na reta final
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma ser um período de tensão para muitos estudantes. Além de representar uma das principais portas de entrada para o ensino superior, a prova está associada a expectativas profissionais e pessoais, o que pode tornar a preparação ainda mais delicada.
Para quem está concluindo o ensino médio, a pressão também se soma às mudanças próprias da transição da adolescência para a vida adulta, fase marcada por novas responsabilidades e decisões sobre o futuro.
Tudo sobre Enem em primeira mão!O psicólogo e psicanalista Antonio Neto Adorno, especialista em Saúde Mental e em Saúde do Adulto e do Idoso pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), explica que a tensão inicial pode funcionar como um mecanismo de atenção, mas exige cuidado quando passa a afetar o cotidiano do estudante.
“Alguma ansiedade, algum estresse é natural. Esse sentimento de preocupação funciona como um estado de alerta, que facilita a atenção e mantém o estudante mobilizado diante daquele evento importante. Porém, quando começa a mexer no sono, no humor e surge aquele sentimento de fracasso, de que não sabe nada ou de que não vai dar certo, são sinais delicados de alerta”, explica.
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Ansiedade pode comprometer saúde e desempenho
A psicóloga Lhaís Alves, doutora em Psicologia Social e do Trabalho e orientadora profissional e de carreira, explica que a expectativa em torno do ingresso na universidade mobiliza diferentes emoções. Para os estudantes que estão encerrando o ensino médio, esse processo ainda envolve a construção de uma nova identidade, mudanças nas relações familiares e a necessidade de desenvolver autonomia para fazer escolhas.
Segundo ela, a preocupação com o resultado pode funcionar como estímulo para a preparação, desde que não se transforme em uma cobrança excessiva. Quando isso acontece, os efeitos podem aparecer tanto no comportamento quanto na saúde física e emocional dos jovens.
“É importante que a família esteja atenta a possíveis sinais de sofrimento psicológico, como alterações persistentes no sono, mudanças significativas nos hábitos alimentares, sintomas gastrointestinais frequentes, sentimentos de desesperança ou desvalorização pessoal e isolamento social acentuado. Relatos de autolesão ou pensamentos relacionados à morte também exigem atenção imediata e avaliação por profissionais especializados”, alerta Lhaís.
Comparações e cobranças familiares podem aumentar a pressão
Além da concorrência por uma vaga na universidade, a comparação com outros candidatos e até com familiares pode intensificar a ansiedade. Antonio Neto observa que muitos estudantes chegam à reta final com a sensação de que não estudaram o suficiente, enquanto acompanham o desempenho de amigos, primos e conhecidos. Essa percepção pode ser agravada quando a própria família reforça a ideia de que o resultado do Enem é uma medida do potencial do jovem.
Lhaís Alves chama atenção para atitudes de pais e responsáveis que, mesmo quando partem da intenção de incentivar, podem produzir o efeito contrário.
“O excesso de cobranças sem considerar o processo de aprendizagem, a comparação constante com outras pessoas que obtiveram desempenhos satisfatórios no exame, a desvalorização das escolhas profissionais dos filhos e a minimização do sofrimento emocional podem aumentar a ansiedade vivenciada nesse momento, o que tende a prejudicar a saúde mental e o desempenho deles”, alerta Lhaís.
A doutora em Psicologia Social reforça que para muitas famílias, o ensino superior representa mais oportunidades profissionais, mas a pressão pelo ingresso pode levar o estudante a associar seu valor pessoal à nota no Enem.
“É importante que os pais e familiares ofereçam apoio emocional, acolham as inseguranças dos filhos e reconheçam o processo de aprendizagem, como o esforço e o empenho diante dos estudos, e não somente os resultados ou as notas alcançadas. Também é importante incentivar momentos de descanso e lazer e buscar ajuda profissional ao perceber sofrimentos persistentes”, orienta Lhaís.
Antonio Neto acrescenta que a projeção dos sonhos e das expectativas dos pais sobre os filhos pode tornar a experiência "ainda mais pesada";
Nota do Enem não define o futuro do estudante
O medo de decepcionar a família também pode fazer com que o candidato encare o exame como uma obrigação de corresponder às expectativas de outras pessoas. Nesse cenário, a possibilidade de não alcançar a pontuação desejada passa a ser vista como uma dívida ou uma falha pessoal, aumentando a tensão antes mesmo da realização da prova.
Os dois psicólogos reforçam que o resultado do Enem não deve ser tratado como uma definição permanente sobre a capacidade ou o futuro do estudante. Lhaís lembra que existem diferentes caminhos para alcançar objetivos profissionais e pessoais, enquanto Antonio Neto defende que eventuais frustrações sejam compreendidas como parte do processo de amadurecimento.
Para o psicólogo, a família precisa estar preparada para acolher o jovem independentemente do resultado, ajudando-o a identificar o que pode ser aprimorado em uma próxima oportunidade, sem transformar uma nota abaixo da expectativa em motivo de desvalorização.
“É importante mostrar que a vida não se encerra nesse momento. É possível olhar para o que não foi tão bem, entender o que pode ser melhorado e pensar em uma próxima etapa. O que não deu certo também pode ser elaborado e aprendido. É preciso valorizar o que foi possível fazer, porque, muitas vezes, o estudante já chegou ao seu limite e entregou o seu máximo”, afirma Antonio Neto.
Descanso e atividades prazerosas também fazem parte da preparação
Na reta final, a recomendação dos especialistas é não tentar compensar todo o conteúdo que deixou de ser estudado. Antonio Neto Adorno orienta que os candidatos reconheçam os limites da preparação e evitem sobrecarregar a rotina nos últimos dias.
“É importante perceber, de forma realista, que a preparação possível foi feita. Não tentar se sobrecarregar para dar conta do que não foi possível estudar, mas aceitar o que foi possível dentro dos seus limites e tentar descansar”, aconselha.
“Algumas estratégias podem contribuir para reduzir a ansiedade e favorecer o bem-estar no período que antecede a realização da prova. Entre elas, estão a prática de atividades físicas que proporcionem prazer e satisfação ao estudante, como andar de bicicleta, jogar bola, correr ou nadar", orienta.
Antonio Neto acrescenta que dormir o suficiente, evitar o excesso de telas e manter uma organização prática dos horários são medidas importantes nesse período. O psicólogo também recomenda evitar situações que possam aumentar a tensão e buscar a companhia de familiares e pessoas de confiança.
“Fazer coisas que deixem tranquilo, com familiares, com pessoas que deem esse suporte. Nesse contexto, é importante também evitar situações que tragam mais ansiedade e aumentem essa tensão que já existe naturalmente no processo avaliativo”, afirma.
Lhaís também ressalta a importância de compartilhar sentimentos e preocupações, além de reconhecer as próprias potencialidades e valorizar o caminho percorrido durante a preparação.
Mais do que cobrar resultados, os especialistas defendem uma postura de acolhimento por parte de familiares e responsáveis. Para Antonio Neto, é necessário compreender que a vida do estudante não se encerra com o resultado do exame e que eventuais frustrações também podem fazer parte do processo de aprendizagem. Já Lhaís reforça que o valor e as capacidades dos filhos não devem ser associados à nota obtida no Enem.
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