Feito Pipa: aposta brasileira no Oscar reúne os ingredientes favoritos da crítica progressista

Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027 (Foto: Divulgação)
O Brasil aposta em Feito Pipa para voltar a disputar espaço no Oscar. Dirigido por Allan Deberton, o longa chega aos cinemas nesta quinta-feira (5) cercado de expectativas depois de conquistar dois prêmios no Festival de Berlim e cinco reconhecimentos em Gramado. A produção reúne elementos que parecem feitos sob medida para conquistar a simpatia de boa parte da crítica cinematográfica contemporânea: ideologia de gênero, questionamento dos padrões tradicionais de masculinidade e outros temas sociais.
A escolha para representar o país na disputa pelo Oscar 2027 coloca o filme diante de uma vitrine internacional importante. A campanha ganhou reforços de peso. Lázaro Ramos, que interpreta um dos personagens centrais, participa da divulgação, enquanto Wagner Moura apresentou uma sessão especial da produção em Los Angeles. A expectativa é conquistar a atenção dos votantes da Academia e, quem sabe, colocar o Brasil novamente entre os indicados.
Mas o que exatamente o filme oferece?
Uma história sobre identidade
Feito Pipa acompanha Gugu, um menino de 12 anos criado pela avó Dilma em Quixadá, no Ceará. Enquanto a avó enfrenta os primeiros efeitos do Alzheimer, o garoto corre o risco de perder o ambiente de liberdade no qual cresceu. A possibilidade de morar com o pai, Batista, representa uma mudança radical: o homem tem dificuldade de aceitar a personalidade do filho e gostaria que ele seguisse um comportamento mais próximo daquele que considera adequado.
Gugu é apresentado como uma criança "queer", apaixonada por futebol, dança e outras atividades que desafiam as expectativas tradicionais de masculinidade. A relação com o pai é conflituosa. A avó, por outro lado, representa o acolhimento e a liberdade para que o garoto seja quem deseja ser.
A narrativa combina esse conflito familiar com a deterioração das lembranças de Dilma. É uma combinação de temas sociais e familiares bastante alinhada ao repertório cultural progressista: diversidade sexual e desconstrução de padrões de gênero. Não é difícil compreender por que a proposta encontra receptividade entre críticos que valorizam esse tipo de abordagem.
O cinema como veículo de uma agenda cultural
A questão que fica é se Feito Pipa consegue transformar essas questões em uma narrativa cinematográfica suficientemente desenvolvida ou se parte de sua força está na identificação com os temas que escolheu abordar.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passou a incorporar formalmente critérios de diversidade em suas regras. Desde a edição de 2024, filmes que concorrem a Melhor Filme precisam cumprir dois de quatro padrões de representação e inclusão, que envolvem elenco, narrativa, equipe criativa, oportunidades profissionais e composição das equipes de distribuição e marketing.
A orientação institucional é clara: ampliar a presença de grupos sub-representados na indústria cinematográfica. É um ambiente que ajuda a explicar a importância adquirida por determinadas discussões na temporada de premiações. A disputa de Feito Pipa é na categoria de Filme Internacional, que possui regras próprias.
O filme parece reunir justamente algumas das questões que ganharam centralidade nesse ambiente cultural. A dúvida é se a força de sua proposta está na qualidade da execução ou também na sintonia com as expectativas ideológicas de parte da indústria.
O que dizem os críticos
As primeira avaliações da crítica são predominantemente positivas. A jornalista Isabela Boscov é uma das mais entusiasmada. Descreve Feito Pipa como uma carta de amor à imaginação e destaca a relação entre Gugu e a avó. Para ela, o filme encontra sua força na delicadeza dos personagens, na paisagem cearense e e no uso de metáforas visuais para mostrar o desaparecimento das lembranças de Dilma. Boscov considera a produção especial e manifesta o desejo de vê-la chegar à lista curta do Oscar.
O crítico Waldemar Dalenogare elogiou a direção de Allan Deberton, o roteiro e principalmente as atuações de Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. Também considera positiva a construção do pai, que não é apresentado como um vilão, mas como alguém "limitado" por uma visão de mundo.
Já o crítico Victor Russo identifica problemas de desenvolvimento. Para ele, a história funciona especialmente bem quando concentra sua atenção na relação entre Gugu e Dilma, mas perde força quando a avó deixa de ocupar o centro da narrativa. O crítico acredita que o roteiro poderia explorar melhor os conflitos familiares e os preconceitos envolvidos.
As avaliações revelam um ponto de convergência: os três críticos valorizam a sensibilidade do filme, a construção dos personagens e a relação entre o menino e a avó. As ressalvas aparecem principalmente na estrutura narrativa e na capacidade de desenvolver todos os conflitos apresentados.
Uma aposta que vai além do filme
A escolha de Feito Pipa representa uma aposta em um cinema brasileiro que tenta apresentar ao público internacional histórias ambientadas fora dos grandes centros urbanos, seguindo os passos de O Agente Secreto.
A produção tem credenciais importantes: reconhecimento em Berlim, premiações em Gramado, um elenco conhecido e uma campanha internacional que conta com a participação de artistas de projeção mundial.
O filme tem uma temática que dialoga diretamente com preocupações presentes na crítica cinematográfica contemporânea e com a agenda de diversidade defendida institucionalmente pela Academia. Isso pode ajudar a explicar sua recepção.
Feito Pipa chega, portanto, ao circuito comercial brasileiro com uma combinação de ambições cinematográficas, sociais e internacionais. E, independentemente da premiação, permanece a questão sobre quanto do entusiasmo em torno da produção se deve ao filme que efetivamente chegou às telas e quanto está relacionado às ideias que ele representa.
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