RN05 de novembro de 2026Alunos de escola pública do RN criam tecido impermeável para proteger trabalhadores de salinas
Redação Tribuna do Norte • 05 de novembro de 2026 • 15h04

Uma visita técnica a uma salina no interior do Rio Grande do Norte levou dois estudantes de escola pública a desenvolverem uma solução para proteger trabalhadores expostos diariamente à água de alta concentração de sal. A pesquisa foi criada por Kauã Pereira Moura e Radja Kassiana Silva, ambos de 19 anos e alunos do 3º ano do curso técnico de informática do Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) Maria Rodrigues Gonçalves, em Alto do Rodrigues.
O projeto nasceu da observação de uma realidade comum no território. Moradores de uma região marcada pela atividade salineira, os alunos conheciam relatos de profissionais que conviviam com feridas na pele e outros problemas decorrentes da exposição constante ao sol e à chamada água de grau, substância com elevada concentração de sal. Durante uma atividade de campo realizada pela escola, perceberam que muitos destes salineiros utilizavam roupas comuns para desempenhar suas atividades, como peças de algodão e jeans, sem a segurança necessária.
A partir desse cenário, Kauã e Radja passaram a pesquisar formas de impermeabilizar tecidos e desenvolverem uma alternativa acessível, resistente e adequada ao cotidiano desses profissionais. A iniciativa científica, realizada ao longo de suas trajetórias nesta modalidade de ensino, mobilizou pilares importantes, como aprendizado na prática, protagonismo juvenil e projeto de vida. Apoiado por estas propostas de ensino, o estudo avançou para experimentos e criação de protótipos, chegou a feiras científicas nacionais e ampliou as perspectivas dos jovens sobre seu próprio futuro.

Para Radja, a mudança ultrapassou o desenvolvimento do tecido, influenciando sua forma de observar o mundo e buscar respostas. “Antes eu não tinha o hábito de pesquisar. Eu achava que as coisas simplesmente aconteciam porque eu não sabia o porquê. Hoje, toda vez que me faço uma pergunta, eu pesquiso e busco entender. Isso me mudou por completo, porque agora eu sei que a pesquisa pode transformar muitas pessoas e realidades”, afirma.
Da observação ao aprendizado na prática
O primeiro objetivo foi desenvolver um uniforme maleável, de baixo custo e menos quente, capaz de proteger a pele sem dificultar a rotina de trabalho. Orientados pela professora de língua portuguesa e coordenadora pedagógica, Jerusa Rodrigues Dantas, os estudantes iniciaram uma etapa de pesquisa e experimentação.
O processo de impermeabilização passou a ser feito em camadas. Cada aplicação exigia cerca de 24 horas de secagem, o que fazia com que parte da produção acontecesse na escola e parte na casa dos estudantes, para respeitar o tempo de cura do material. Após testarem diferentes materiais e métodos, chegaram à combinação entre tecido de poliéster e silicone em pasta, capaz de garantir impermeabilidade sem comprometer a flexibilidade necessária para o uso cotidiano. Os resultados evoluíram até a criação de um uniforme em tamanho real, que chegou a ser testado por trabalhadores da salina.

O estudante Kauã conta que aprender a lidar com as falhas foi uma das partes mais importantes do percurso. “Com o projeto, aprendemos a seguir um método. Sabemos o que pode dar errado, o que pode dar certo. E foi assim que entendemos que o erro também faz parte do processo”, ressalta.
Nova aplicação na saúde
Com o avanço da pesquisa, os estudantes perceberam que a tecnologia desenvolvida poderia ter aplicações além do contexto das salinas. Após conversas com profissionais de saúde em visita realizada ao hospital, elaboraram um novo protótipo voltado à biossegurança. Nos testes, o tecido impermeabilizado impediu a passagem de líquidos mesmo após contato prolongado com sangue artificial, ampliando as possibilidades de uso da solução e reforçando o potencial da pesquisa para outras frentes de atuação.
A ciência como projeto de vida
Para a professora, o principal valor do projeto vai além do tecido impermeabilizado e está na aproximação dos estudantes com a ciência. “O grande ganho é poder proporcionar ciência mesmo para quem não sabe direito o que é ciência, para quem não se identifica como cientista. Os estudantes conquistam autonomia para pesquisar, testar, errar, corrigir e defender as próprias escolhas”, afirma Jerusa.
Kauã e Radja apresentaram seus resultados em feiras científicas de diferentes estados brasileiros, incluindo a Expo Nacional Milset Brasil, a Infomatrix Brasil e a FEBRACE, da USP. Para jovens que vivem em uma região do interior potiguar, a experiência representou uma mudança profunda de perspectiva. “Eu nunca pensei que sairia do Rio Grande do Norte para apresentar uma ideia desenvolvida por nós em outros estados do Brasil. Foi extraordinário”, afirma Kauã.
A transformação também aparece nos planos para o futuro. Antes da pesquisa, Kauã pensava em cursar Direito e Radja ainda não sabia qual carreira seguir. Hoje, ambos consideram seguir caminhos ligados à ciência e à pesquisa. “O projeto me construiu como pessoa. Não sou mais a Radja de antes. Agora eu quero ser uma pessoa grandiosa. Foi o que a ciência fez em mim”, diz a estudante.
A trajetória dos alunos materializa um dos objetivos centrais da proposta de Ensino Médio Integral, que é transformar a aprendizagem em experiência concreta, conectada ao território, capaz de ampliar horizontes e fortalecer o protagonismo dos estudantes na construção de seus projetos de vida.
Sobre o Ensino Médio Integral
O Ensino Médio Integral é uma proposta pedagógica multidimensional, moderna, nacional, pública e gratuita. A partir de uma oferta de educação que se conecta à realidade dos jovens e ao desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, propõe a formação integral dos estudantes. A proposta de ensino está presente em cerca de 6 mil escolas em todo o país, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes.
Ver nota original ↗
¿Querés un resumen rápido de esta noticia, hecho por nuestra IA?
