Reinjeção de gás natural bate recorde em setembro
O Brasil reinjetou 132,9 milhões de m³ (metros cúbicos) de gás natural por dia em setembro de 2026, o equivalente a 59,34% da produção diária do período, de 223,9 milhões de m³. É o maior volume da série histórica iniciada em 2010, segundo dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Leia a íntegra do balanço mensal (PDF – 3 MB).
É a 1ª vez que a indústria brasileira reinjeta mais de 59% da produção mensal de gás. A taxa havia passado de 58% em 3 ocasiões: março de 2024 (58,31%) e maio (58,29%) e junho (58%) de 2026. A reinjeção é o processo de devolução do gás natural extraído para o reservatório subterrâneo, usado principalmente para aumentar a produção de petróleo.
O procedimento é realizado no Brasil por 3 razões:
- manter a pressão – o gás é comprimido e devolvido ao reservatório para elevar a pressão interna, o que aumenta a extração de óleo;
- falta de infraestrutura – o setor ainda enfrenta gargalos no acesso à malha de gasodutos, o que limita o escoamento da molécula até os centros consumidores;
- rentabilidade – parte relevante do gás do pré-sal tem alto teor de CO₂, o que reduz sua atratividade comercial em comparação com o gás importado da Bolívia.
No Brasil, a adoção de práticas de reinjeção se deu a partir de 2010, após a descoberta do pré-sal. Nessa camada de exploração, assim como em outros campos de petróleo brasileiros, há predominância de reservatórios de petróleo com gás natural associado, produzido ao mesmo tempo que o óleo.
Cerca de 85% do gás natural extraído pela indústria brasileira é do tipo associado, o que obriga as empresas a decidir entre comercializar o insumo ou reinjetá-lo, já que sua retirada é necessária para viabilizar a produção de petróleo.
LIMITES PARA REINJEÇÃO
A prática de reinjetar gás cresceu no setor a partir de 2015, especialmente em campos offshore das bacias de Campos e de Santos.
Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou o decreto 12.153 de 2024, que dá à ANP autoridade para determinar a redução da reinjeção de gás natural nos campos produtores. A medida se aplica a novos projetos e permite à agência revisar planos de desenvolvimento de campos em operação, mesmo diante de contratos vigentes.
A estratégia inclui ampliar o acesso da iniciativa privada à infraestrutura de escoamento e processamento de gás, ainda concentrada na Petrobras. Em agosto, a ANP aprovou e colocou em consulta pública a minuta de uma resolução que permitirá o acesso não discriminatório de terceiros a gasodutos de escoamento e processamento.
A ampliação da oferta ao mercado interno é vista pelo governo como instrumento para reduzir custos energéticos da indústria. Caso parte do volume reinjetado seja direcionada ao consumo, a expectativa é de maior concorrência no mercado e potencial impacto sobre os preços do gás natural.
No entanto, a malha de transporte e as unidades de processamento ainda operam com limitações para absorver todo o gás produzido no pré-sal. A Abegás (Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado) considera que a expansão da infraestrutura é necessária para reduzir de forma estrutural os níveis de reinjeção –uma das principais bandeiras da entidade.
Diante dos gargalos de transporte, o gás importado da Bolívia virou uma alternativa para parte do abastecimento nacional. A diferença de composição e de custos influencia a decisão das operadoras sobre comercializar ou reinjetar o gás produzido no pré-sal. Em dezembro de 2025, a ANP autorizou a Petrobras a importar até 20 milhões de m³ por dia para atender ao mercado brasileiro.
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