Imirante
Inadimplência Recorde de CPFs e CNPJs Pressiona Bancos e Freia a Economia
<p>Oi, pessoal. Faço uma breve pausa na série de análises setoriais sobre o Maranhão para atender a pedidos de lideranças do setor produtivo diante do cenário pós-eleitoral. Hoje (05.NOV.2026), analiso a inadimplência recorde no país e mostro como o estresse financeiro de famílias e empresas pressiona os bancos e restringe o crédito à economia real.</p><p>O longo período de juros altos cobrou seu preço. Mesmo após o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzir a Selic a 13,75% ao ano em setembro, depois do pico de 15% no início de 2026, os efeitos defasados do aperto monetário levaram a inadimplência de consumidores (CPF) e empresas (CNPJ) a recordes históricos, mesmo em um mercado de trabalho que ainda registra taxa de desemprego de 5,3%.</p><p><strong>O Brasil contabilizou 84,2 milhões de pessoas inadimplentes em setembro de 2026, atingindo pela primeira vez 51,1% da população adulta. Os 352 milhões de débitos em aberto totalizavam R$ 597,4 bilhões, um aumento mensal de 0,90%.</strong> Cada consumidor negativado devia, em média, R$ 7.093,83, o equivalente a cerca de 4,4 salários mínimos.</p><p>A composição dessas dívidas também mudou: bancos e cartões de crédito respondem por 27,16% dos registros, seguidos pelas financeiras, com 20,66%. Estas superaram as contas básicas de água, luz e gás, cuja participação recuou de 20,71% para 20,32%. Esse quadro revela que o trabalhador recorreu ao crédito pessoal e ao rotativo para cobrir gastos do dia a dia, esgotando sua capacidade financeira. No crédito livre para pessoas físicas, os juros médios chegaram a 62,4% ao ano em setembro (+3,7 p.p. em 12 meses), puxados pelo rotativo do cartão de crédito, cuja taxa média subiu 6,8 p.p. no mês e alcançou 451,7% ao ano. As informações são do Mapa da Inadimplência da Serasa.</p><p><strong>O diagnóstico também é severo para o setor produtivo. Em agosto de 2026, o Brasil registrou o recorde de 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, alta de 14,3% em 12 meses, segundo a Serasa Experian. Eram 68,2 milhões de débitos negativados, somando R$ 244,4 bilhões. </strong>Cada empresa acumulava, em média, 7,4 contas em atraso e dívida total de R$ 26.355,13, com ticket médio de R$ 3.583,96 por pendência. As micro e pequenas empresas (MPEs) concentram 8,8 milhões desses CNPJs negativados (94,6% do total) e R$ 211,0 bilhões em dívidas (86,3% do passivo empresarial em atraso). Setorialmente, Serviços reúne 56% das empresas inadimplentes, seguido por Comércio (32%) e Indústria (8%).</p><p>Um dado técnico crucial mostra como a crise de liquidez se espalha pela cadeia produtiva: 75,6% dos registros de dívidas empresariais envolvem credores fora do sistema financeiro, com destaque para prestadores de serviços (31,7%), enquanto bancos, cartões e financeiras respondem por 24,4%. Ou seja, o atraso de uma empresa afeta diretamente o fluxo de caixa de seus fornecedores.</p><p>Mesmo com a Selic elevada, a demanda empresarial por crédito cresceu 11,2% em 12 meses, e as concessões de capital de giro de curto prazo saltaram 113,9% no período. Esse movimento reflete uma corrida por liquidez para sobreviver, cobrir déficits de caixa e manter a operação funcionando, adiando investimentos produtivos. E o custo segue proibitivo: os juros médios do crédito livre PJ passaram de 24,2% ao ano em agosto para 24,4% ao ano em setembro. No Sistema Financeiro Nacional (SFN), a inadimplência das empresas com atrasos superiores a 90 dias atingiu 3,3% da carteira total (+0,5 p.p. em 12 meses) e 4,2% do crédito livre (+0,6 p.p. em 12 meses).</p><p><strong>Somados, os débitos de pessoas físicas em setembro (R$ 597,4 bilhões) e de empresas em agosto (R$ 244,4 bilhões) chegam a R$ 841,8 bilhões. O montante é alarmante e deve aumentar até o fim de 2026.</strong></p><p>O Relatório de Estabilidade Financeira (REF), publicado pelo Banco Central em 27 de outubro de 2026, evidencia que a deterioração simultânea de pessoas físicas e jurídicas já afeta os balanços bancários. Na carteira total do SFN (PF e PJ combinados), a inadimplência atingiu 5,0% em setembro (6,6% nos recursos livres), e os ativos problemáticos das famílias alcançaram o maior patamar desde 2012 na maioria das modalidades. Além disso, como as grandes corporações têm migrado para o mercado de capitais, os títulos privados de dívida cresceram 13,7% em 12 meses, a exposição relativa dos bancos ficou ainda mais concentrada nas famílias e nos negócios de menor porte, que sofrem maior estresse financeiro.</p><p>Entre as instituições financeiras consultadas, 73% demonstram alta confiança na capacidade do sistema de resistir a choques. Para proteger seus balanços e rentabilidade, porém, os bancos adotaram critérios mais rigorosos na concessão de crédito e ampliaram as margens de risco: em setembro, o <i>spread</i> bancário médio subiu para 21,6 pontos percentuais (+0,5 p.p. no mês e +1,0 p.p. em 12 meses), elevando a taxa média geral das concessões para 32,4% ao ano. Com isso, o estoque total de crédito do SFN, que soma R$ 7,4 trilhões, sendo R$ 4,7 trilhões para pessoas físicas e R$ 2,8 trilhões para pessoas jurídicas, viu seu ritmo de crescimento anual desacelerar de 9,4% em agosto para 8,6% em setembro (recuando de 7,3% para 6,5% nas empresas e de 10,7% para 9,9% nas famílias).</p><p><strong>O REF do Banco Central identifica dois riscos interligados como as maiores preocupações dos bancos: risco fiscal e inadimplência sob juros altos prolongados. O crédito ampliado ao setor não financeiro soma R$ 22,1 trilhões (164,9% do PIB), impulsionado pela alta de 16,2% dos títulos públicos em 12 meses. O recado pós-eleitoral é claro: sem compromisso crível com o equilíbrio fiscal, a dívida pública disputa a poupança, mantém as expectativas de inflação desancoradas e limita novos cortes da Selic. Enquanto os juros básicos e os </strong><i><strong>spreads</strong></i><strong> não caírem de forma sustentada, as famílias continuarão com a renda comprometida, as MPEs priorizarão a sobrevivência em vez de investir, e os bancos restringirão empréstimos. Esse cenário limita a projeção de crescimento do PIB a 1,8% em 2026 e ameaça o potencial da economia em 2027.</strong></p>
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