Flávio diz que fugiu sem ajuda e que levará a rota “para o túmulo”
Brasília - O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ao jornal “The New York Times”, em entrevista publicada nesta quinta-feira (5/11), que organizou sozinho a fuga do Brasil para os Estados Unidos e que não pretende revelar como chegou a Miami. “Fui eu. Não houve ajuda de absolutamente ninguém, de nenhum governo”, disse. “Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo.”
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A versão contradiz o relato de autoridades americanas ouvidas pelo jornal, segundo as quais o jato que levou o senador a Miami foi providenciado por um funcionário da Casa Branca e a entrada dele no país foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump. Flávio deixou o Brasil depois de perder o segundo turno da eleição presidencial, em 25/10, para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e de receber ordem para entregar os passaportes.
Na entrevista, concedida na quarta-feira (4/11), Flávio contou que decidiu deixar o país na manhã seguinte à derrota, quando saía do condomínio em Brasília onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cumpre prisão domiciliar. Foi nesse momento, segundo ele, que agentes o informaram de que tinha 24 horas para entregar os documentos. Antes da despedida, Jair o chamou de lado e perguntou: “Você já sabe aonde eles querem chegar com isso, né?”. O senador disse ter respondido que estava preparado e sabia o que precisava fazer, mas afirmou que nenhum dos dois falou em fuga.
A decisão, segundo Flávio, foi tomada de forma espontânea com a mulher, e amigos no exterior teriam apenas dado apoio. “Pode ter havido torcida, mas nada além disso”, disse. Horas depois da conversa com o pai, porém, ele publicou um vídeo na segunda-feira (26/10) em que negava a intenção de sair do país e prometia entregar os passaportes à Polícia Federal (PF). O prazo terminava na manhã de terça-feira (27/10), mas o senador sumiu, entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, passou pelo Equador e desembarcou em Miami por volta das 10h20 de quarta-feira (28/10), com a mulher, Fernanda Bolsonaro, e as duas filhas. Na Argentina, ele foi recebido no aeroporto por um dos principais assessores do presidente Javier Milei.
Investigação por lavagem de dinheiro
A ordem de entrega dos passaportes partiu do inquérito em que Flávio é investigado por lavagem de dinheiro ao lado do advogado Willer Tomaz, seu amigo, sob relatoria do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O ministro determinou o recolhimento depois que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro disse, em transmissão nas redes sociais, que o irmão deveria deixar o país se perdesse a eleição e liderar a oposição do exterior.
Flávio não foi denunciado, mas perde a imunidade parlamentar quando o mandato de senador terminar, no início de 2027. Na entrevista, ele se disse inocente e afirmou que seria condenado se tivesse ficado no Brasil. “Já sei que o desfecho final vai ser a minha prisão”, declarou, ao classificar o Judiciário como politicamente motivado e criticar o ministro que mandou prender seu pai.
O senador não é o primeiro da família a buscar abrigo nos Estados Unidos. Jair viajou para a Flórida depois de perder a eleição de 2022 e voltou três meses mais tarde, antes de ser condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Eduardo se mudou para o país e permaneceu lá depois de ser condenado no Brasil por pedir ao governo Trump que interferisse no julgamento do pai. Ele mora no Texas e obteve recentemente o green card (residência permanente).
Flávio, a mulher e as filhas poderão ficar nos Estados Unidos por pelo menos um ano, com um status migratório normalmente concedido por razões humanitárias. O senador disse ainda não saber onde a família vai se estabelecer, mas o aliado Paulo Figueiredo defendeu a Flórida como base depois que um democrata venceu a eleição para o governo do Texas nesta semana.
Alegação de fraude
Embora o PL tenha aceitado o resultado, Flávio repetiu, sem apresentar provas, que a vitória de Lula foi “matematicamente impossível” e disse ter perdido “para o sistema”. Ele ampliou as acusações, mencionou adulteração de votos e retomou a alegação, já desmentida, de uma falha de segurança na sala-cofre onde os votos são totalizados. “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado”, afirmou.
Até agora, a principal queixa do senador era a prorrogação do horário de votação, que ele atribui a uma decisão política. A extensão, porém, foi pedida pelas duas campanhas por causa de chuvas e atrasos no transporte em algumas regiões e afetou cerca de 34 mil votos, segundo a Justiça Eleitoral, enquanto Lula venceu por 4,4 milhões. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou as alegações, observadores internacionais atestaram a lisura da eleição, e dezenas de países reconheceram o resultado. Os Estados Unidos não estão entre eles, já que Trump se limitou a dizer que a eleição pareceu “estranha”, postura que Flávio elogiou por não tomar partido.
Do exterior, o senador pretende contestar judicialmente a vitória de Lula, embora admita que a chance de sucesso é pequena, e apoiar aliados no Congresso em pautas como a redução da maioridade penal e a anistia ao pai e aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro. Ele evitou responder se vai pedir ao governo Trump novas medidas contra o Brasil e não descartou voltar. “Se houver novas eleições, obviamente serei candidato de novo”, disse.
Lula toma posse para o quarto mandato em 5 de janeiro de 2027.
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