Pesquisa encontra peixes com tumores 11 anos após desastre de Mariana
Pesquisa identificou deformidades, ovos inviáveis e metais acima dos limites em amostras do Rio Doce; pesquisa não avaliou riscos de consumo
05/11/2026 16:41
, atualizado 05/11/2026 16:48

Belo Horizonte – Onze anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ainda identificam alterações na biodiversidade aquática da bacia do Rio Doce e do litoral capixaba. Entre os resultados do monitoramento estão peixes com tumores, deformidades externas, larvas com anomalias e ovos inviáveis.
O desastre, ocorrido em 5 de novembro de 2015, lançou aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração no meio ambiente, atingindo o Rio Doce e chegando ao litoral do Espírito Santo. Desde então, pesquisadores acompanham os impactos sobre a fauna e a qualidade ambiental da região.
Além das alterações biológicas, análises realizadas em algumas amostras identificaram concentrações de metais pesados acima dos limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Um dos casos foi registrado em um linguado, no qual a concentração de chumbo chegou a 0,726 miligrama por quilo, acima do limite de 0,30 mg/kg.
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A presença desses contaminantes e as alterações encontradas nos animais reacendem questionamentos sobre a recuperação do ecossistema e a segurança do pescado consumido pelas comunidades que vivem da pesca.
Pesquisa não avalia riscos à saúde humana
Apesar dos resultados, a Ufes faz uma ressalva importante: o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), coordenado pela universidade, não tem como objetivo avaliar os riscos à saúde humana decorrentes do consumo de peixes da região.
Em uma das análises, foram examinados exemplares encaminhados por pescadores, entre eles duas corvinas e um linguado. Enquanto as corvinas apresentaram concentrações dentro dos padrões regulatórios para cádmio, arsênio, mercúrio e chumbo, o linguado apresentou teor de chumbo superior ao limite permitido.
A universidade também identificou anomalias externas, como lesões na pele, massas nodulares e deformidades. As causas dessas alterações, entretanto, ainda não foram esclarecidas. A instituição ressalta que os resultados dizem respeito aos exemplares efetivamente analisados e não podem ser generalizados para todos os peixes da bacia do Rio Doce.

Retomada da pesca gera questionamentos
Os resultados do monitoramento ganharam ainda mais relevância diante da retomada da pesca profissional em um trecho marítimo próximo à foz do Rio Doce. Uma portaria conjunta dos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente restabeleceu as regras para a atividade na região, depois de mais de uma década de restrições.
A liberação, no entanto, não significa que todos os ambientes e espécies tenham sido considerados livres de contaminação. As análises de pescado marinho e de caranguejos de mangue que embasaram a decisão são diferentes dos estudos realizados com peixes de água doce ao longo do rio.
Em janeiro de 2025, análises de exemplares de espécies como acará e pacu identificaram amostras com concentrações de chumbo e cádmio acima dos limites permitidos. Os resultados reforçam a necessidade de considerar as diferenças entre espécies, locais de coleta e tipos de pescado na avaliação da segurança alimentar.
A Ufes informou que encaminha sistematicamente os resultados de suas pesquisas ao Ministério da Agricultura, à Anvisa, à Casa Civil e a outros órgãos públicos. Cabe a essas instituições avaliar as informações e definir eventuais medidas sanitárias e recomendações à população.
Monitoramento continua
As pesquisas sobre os efeitos do rompimento devem continuar nos próximos ciclos de monitoramento, com previsão de novas amostragens, inclusive de peixes de interesse comercial. A iniciativa atende a uma demanda de associações e comunidades pesqueiras, que cobram informações mais específicas sobre a qualidade dos alimentos disponíveis para consumo.
Embora os indicadores ambientais tenham apresentado melhora em alguns aspectos ao longo dos anos, a identificação de anomalias e contaminantes em determinadas amostras mostra que o acompanhamento científico permanece necessário.
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