Campo Grande News
Crise bancária atinge pequenos poupadores e preocupa comércio da fronteira
A intervenção no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras do Paraguai em número de clientes, provocou preocupação entre comerciantes e correntistas do país, especialmente entre famílias de baixa renda que dependem de suas economias para despesas diárias. A crise, que levou à renúncia do presidente Santiago Peña nesta quinta-feira (5), também gerou uma corrida aos bancos e receio de redução no consumo. Em Pedro Juan Caballero, na fronteira com Ponta Porã, representantes do comércio divergem sobre a gravidade dos reflexos econômicos. Formado em ciências contábeis e administração de empresas, Tomás Julián Medina, secretário de Relações Públicas da Comissão Diretiva da Câmara de Indústria, Comércio, Turismo e Serviços de Pedro Juan Caballero, explica que o alcance da crise está relacionado à presença do Ueno Bank em praticamente todo o território paraguaio. A instituição ampliou sua estrutura com a compra do Banco Visión, que já enfrentava problemas de liquidez. Segundo Medina, o Banco Visión possuía uma das maiores redes de agências do Paraguai. Com a aquisição, o Ueno Bank passou a atender moradores de diversas regiões, inclusive localidades distantes dos grandes centros. O administrador estima que dois em cada três paraguaios mantinham contas na instituição. A facilidade para transferir dinheiro, pagar contas e movimentar pequenas quantias ajudou a popularizar o banco. Medina compara o serviço ao Pix brasileiro, embora explique que, no Paraguai, essas operações gratuitas sejam conhecidas simplesmente como transferências bancárias. A preocupação aumentou com a revelação de que o Ueno Bank também administrava recursos de instituições públicas e fundos previdenciários. Medina afirma que aproximadamente US$ 360 milhões pertencentes ao IPS (Instituto de Previsión Social), responsável pela previdência e por serviços de saúde, estavam aplicados no banco. O economista também relata suspeitas de transferência de recursos para empresas vinculadas a familiares dos proprietários e acionistas da instituição. “O banco acumulou um passivo estimado em US$ 850 milhões e perdeu as condições financeiras necessárias para continuar funcionando”, afirmou ao Campo Grande News . As suspeitas sobre operações com empresas relacionadas aos controladores estão sendo investigadas. Para Medina, a principal preocupação está na recuperação do dinheiro dos correntistas. Ele explica que o Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos, administrado pelo Banco Central, com cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por depositante, em cada instituição financeira, valor próximo de R$ 150 mil na estimativa apresentada durante a entrevista. A garantia oferece proteção aos pequenos poupadores, mas não significa que todos receberão imediatamente os valores depositados. Quem possui quantias superiores ao limite depende de outros mecanismos de recuperação dos recursos. Medina afirma que a expectativa é de pagamento aos depositantes cobertos pela garantia dentro do prazo previsto pelas autoridades. O economista considera o impacto econômico expressivo, principalmente porque a instituição concentrava contas utilizadas para movimentações cotidianas. A interrupção dos serviços atingiu tanto pessoas que guardavam suas economias quanto trabalhadores e pequenos empreendedores que dependiam das transferências para realizar pagamentos. Comerciantes A avaliação é semelhante à do supermercadista Alejandro Esteban Benítez Arañha, diretor da Câmara de Comércio de Pedro Juan Caballero. Ele considera a intervenção uma das situações mais graves enfrentadas recentemente pela população paraguaia e destaca o efeito imediato sobre as famílias de menor renda. Segundo Benítez, muitos clientes mantinham pequenas economias no Ueno Bank, algumas de apenas 300 mil guaranis, aproximadamente R$ 280. Para essas pessoas, a impossibilidade de movimentar o dinheiro representa uma dificuldade para comprar alimentos e pagar despesas básicas. “A crise também prejudicou microempreendedores e estabelecimentos comerciais que dependem do consumo diário. Supermercados, minimercados e açougues de bairros estão entre os negócios mais vulneráveis à redução da circulação de dinheiro”, afirmou. Benítez estima que 97% dos correntistas prejudicados sejam pessoas de baixa renda. Entretanto, a cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos considera o valor depositado e não a condição socioeconômica dos clientes. Relações políticas O supermercadista também questiona a relação entre o Ueno Bank e o governo paraguaio. Ele lembra que Santiago Peña manteve vínculos empresariais com o grupo controlador da instituição até 2025 e afirma que a confiança transmitida pelo governo contribuiu para atrair depósitos de cooperativas, grandes empresas e órgãos públicos. Além dos recursos do IPS, Benítez menciona aplicações de fundos de aposentadoria de bancários, de instituições ligadas ao setor de energia e de outras entidades públicas. Para ele, a presença de dinheiro destinado a aposentadorias e serviços públicos aumenta a gravidade das consequências financeiras. A preocupação ultrapassou os clientes do Ueno Bank. Segundo o empresário, rumores sobre possíveis problemas em outras instituições provocaram uma corrida aos bancos na quarta-feira (4). Correntistas tentaram retirar suas economias, enquanto aplicativos bancários apresentaram falhas diante da procura pelos serviços. O Banco Central do Paraguai informou que as dificuldades de acesso aos aplicativos decorreram de uma demanda incomum por abertura de contas em outras instituições. A autoridade monetária também negou rumores sobre novas intervenções e afirmou que a situação do Ueno Bank não representa uma crise generalizada do sistema financeiro. Benítez avalia que as medidas anunciadas para devolver os depósitos são necessárias, mas insuficientes para restabelecer imediatamente a confiança. Ele acredita que a população continuará apreensiva enquanto não conseguir recuperar suas economias. O empresário também relaciona o agravamento da crise à instabilidade política em Assunção. A intervenção no banco intensificou as pressões sobre Santiago Peña, que apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto deputados discutiam a abertura de um processo de impeachment. O vice-presidente Pedro Alliana foi indicado para assumir o comando do país. Mais otimista Apesar da preocupação dos dois representantes do setor econômico, o presidente da Câmara de Indústria, Comércio, Turismo e Serviços de Pedro Juan Caballero, Pedro Ivo de Mauro e Brito, apresenta uma avaliação mais otimista. O brasileiro defende que a população mantenha a calma e confie nas providências anunciadas pelas autoridades para garantir o ressarcimento dos correntistas. “É um momento de confiar nas autoridades. Paraguai é um país tão sério que o presidente preferiu renunciar”, afirma. Pedro considera que a divulgação de rumores sobre dificuldades em outras instituições financeiras pode ampliar desnecessariamente os efeitos da crise. Para ele, a procura por saques em bancos que não apresentam problemas representa um risco adicional à estabilidade econômica. “Boatos negativos estão gerando um desespero desnecessário da população e levando a sacarem valores de outros bancos que não têm nada a ver com esta crise”, afirma. O dirigente destaca que a situação de Pedro Juan Caballero é diferente da enfrentada por comerciantes de outras regiões do Paraguai. Segundo ele, o Ueno Bank possui maior participação entre clientes populares e não concentra as operações financeiras dos grandes empresários que atuam na fronteira. Pedro sustenta que a crise não comprometeu o funcionamento das lojas voltadas aos consumidores brasileiros. Ele afirma que aproximadamente 95% da receita do comércio turístico de Pedro Juan Caballero depende dos visitantes do Brasil, principalmente daqueles que atravessam a fronteira para fazer compras. Na avaliação do presidente da Câmara, a movimentação comercial continua normalmente e não há motivo para associar os problemas do Ueno Bank a uma paralisação das atividades econômicas da região. “A vida segue normal na fronteira”, resume. Pedro também acredita que os clientes prejudicados conseguirão recuperar os depósitos, devido à existência dos mecanismos legais de proteção financeira. Ele ressalta que formar filas para sacar dinheiro de instituições que continuam funcionando não contribui para resolver o problema. O dirigente defende que comerciantes e consumidores aguardem os pagamentos previstos e evitem decisões motivadas por informações sem confirmação. Entenda a crise no Paraguai A crise começou oficialmente na terça-feira (3), quando o BCP (Banco Central do Paraguai) anunciou a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank. A decisão, tomada pelo conselho da instituição no dia anterior, ocorreu depois de a autoridade monetária identificar que o índice de solvência do banco havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. A medida colocou a instituição sob intervenção para preservar seus ativos e proteger os depositantes. O Ueno Bank atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes. A instituição também administrava centenas de milhões de dólares em recursos públicos, incluindo aplicações previdenciárias. Seu crescimento acelerado e as relações empresariais anteriores entre Santiago Peña e o grupo controlador ampliaram as suspeitas sobre a fiscalização e a destinação dos recursos. A intervenção provocou manifestações de correntistas, investigações sobre operações financeiras e uma crise política que culminou na renúncia de Santiago Peña. Para reduzir os prejuízos dos correntistas, o Banco Central anunciou o uso do Fundo de Garantia de Depósitos, que cobre até 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição. Nesta quinta-feira, a autoridade monetária informou que começaria a atender os clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, desde que não tivessem dívidas com o Ueno Bank e possuíssem conta habilitada em outra instituição financeira. Os demais pagamentos seguirão novas etapas, conforme a apuração dos valores e os procedimentos legais. A recuperação dos depósitos e a investigação das responsabilidades continuam como os principais desafios da crise. Embora o Banco Central sustente que o problema está restrito ao Ueno Bank, a dificuldade de acesso ao dinheiro e a incerteza sobre os recursos públicos mantêm a preocupação entre os paraguaios.
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