BASTIDORESComo funcionou o esquema de segurança nos jogos de “guerra” do Brasileirão em Belém? Com a volta do Remo à elite do futebol brasileiro, partidas no Mangueirão mobilizaram torcidas organizadas, alianças nacionais e operações especiais da Polícia Militar. Reportagem acompanhou os bastidores do último confronto desse tipo em 2026.
O site PELEJA, em reportagem assinada pelo jornalista Marx Vasconcelos, revelou os bastidores do esquema montado para receber torcidas visitantes aliadas da Terror Bicolor, organizada do Paysandu, durante os jogos do Brasileirão 2026 em Belém. A apuração acompanhou a movimentação de torcedores, a atuação da Polícia Militar e os protocolos adotados antes e durante as partidas no Estádio Olímpico do Pará, o Mangueirão. O último confronto desse tipo ocorreu em 28 de outubro, quando o Remo enfrentou o Botafogo.
A volta do Remo à Série A do Campeonato Brasileiro, confirmada em 23 de novembro de 2025, depois de 21 anos, colocou Belém novamente no calendário da elite nacional. Entretanto, o retorno também levantou uma preocupação: como receber torcidas visitantes em uma cidade marcada por episódios de violência entre organizadas?
A distância entre Belém e os principais centros do futebol brasileiro, especialmente no Sul e no Sudeste, também representava um desafio. Afinal, algumas caravanas precisariam percorrer quase 3 mil quilômetros para acompanhar as equipes.
A preocupação não surgiu por acaso. Em 2023, durante a Copa do Brasil, o torcedor corintiano Rafael Merenciano, integrante da Pavilhão 9, morreu após ser atingido por um explosivo lançado contra uma caminhada de torcedores do Corinthians, antes da partida contra o Remo. Na ocasião, o Ministério Público do Pará apontou um integrante da Terror Bicolor como responsável pelo lançamento do artefato.
Além disso, em 2024, 239 torcedores de Paysandu, Remo e Sport foram presos após um confronto na Avenida Almirante Barroso. Já em 11 de abril de 2026, antes de Remo x Vasco, a Polícia Civil autuou 75 pessoas por tumulto e incitação à violência.
As alianças que movimentam as torcidas em Belém
O cenário das arquibancadas paraenses tem duas grandes forças: a Terror Bicolor (TUTB), ligada ao Paysandu, e a Remoçada, organizada do Remo que atualmente utiliza o nome A Maior do Norte por questões legais.
As duas organizadas mantêm relações com grupos de diferentes regiões do país. A Remoçada tem alianças com Gaviões da Fiel, do Corinthians; Força Flu, do Fluminense; Máfia Azul, do Cruzeiro; e Os Fanáticos, do Athletico-PR.
Por outro lado, a Terror Bicolor mantém vínculos com torcidas de Vasco, Palmeiras, Atlético-MG, Bahia, Coritiba, Botafogo e Grêmio.
Essas relações ultrapassam as arquibancadas. Quando os clubes aliados visitam Belém, a organizada paraense costuma oferecer apoio e recepção aos integrantes que chegam à capital.
É nesse contexto que surgem os chamados “jogos de pista” ou “jogos de guerra”. A expressão identifica partidas em que a torcida visitante possui rivalidade com a principal organizada do clube mandante ou mantém aliança com um grupo adversário. Em Belém, a presença de uma torcida ligada à Terror Bicolor representa, consequentemente, uma relação de rivalidade com a Remoçada.
Durante o Brasileirão de 2026, sete clubes com torcidas aliadas da Terror Bicolor enfrentaram o Remo no Mangueirão. Foram eles: Bahia, na oitava rodada; Vasco, em 11 de abril; Palmeiras, em 10 de maio; Atlético-MG, em 8 de agosto; Coritiba, em 31 de agosto; Grêmio, em 7 de outubro; e Botafogo, em 28 de outubro.
Para Ricardo Yuri, integrante da Terror Bicolor, receber os grupos aliados representa uma oportunidade importante de fortalecer as relações entre as organizadas.
“Depois de muitos anos, nossos aliados estão de volta a Belém”, disse ao PELEJA, durante entrevista presencial.
Segundo ele, até mesmo partidas da Copa do Brasil, cujos confrontos são definidos por sorteio, dependem de uma combinação de fatores para reunir essas torcidas na capital paraense.
O contato entre os grupos acontece principalmente pela internet. Entretanto, os encontros durante as partidas ajudam a fortalecer os vínculos.
“Esses jogos fortalecem a união, esses jogos nos aproximaram das nossas aliadas do Sul e do Sudeste. O que a gente faz é recíproco”, afirmou.
Recepção no aeroporto e escolta até o Mangueirão
A reportagem do PELEJA detalhou como funciona a operação de recepção das torcidas visitantes aliadas da Terror Bicolor.
Na madrugada anterior à partida, integrantes da organizada paraense costumam organizar um comboio de motocicletas e carros para buscar os visitantes no aeroporto. Depois, conduzem os aliados até a sede da torcida. Segundo a apuração, esse procedimento ocorre com frequência, embora não seja obrigatório em todos os jogos.
Na sequência, os grupos seguem para um ponto de concentração determinado pela Polícia Militar, com horário estabelecido antecipadamente. De lá, as torcidas recebem escolta de viaturas e motocicletas até o Mangueirão.
Ao chegar ao estádio, os visitantes precisam permanecer no setor destinado a eles. A circulação para outras áreas fica restrita.
Da Travessa do Chaco à Praça do Marex
O modelo de organização passou por mudanças ao longo da temporada. No confronto entre Remo e Vasco, em 11 de abril, a concentração da torcida visitante ocorreu na Travessa do Chaco, nas proximidades do estádio da Curuzu e da sede da Terror Bicolor.
Naquele dia, integrantes da Remoçada passaram de ônibus e motocicletas pela Avenida Almirante Barroso, na esquina com a Travessa do Chaco. Houve confronto, contido pela Polícia Militar.
Depois desse episódio, a corporação passou a determinar outro local para reunir os visitantes: a Praça do Marex.
De acordo com Ricardo Yuri, a mudança ocorreu porque o ponto anterior ficava próximo à saída do patrimônio da Remoçada. A nova concentração, por sua vez, fica mais perto do Mangueirão.
A partida contra o Palmeiras, em 10 de maio, teve um procedimento diferente. A Mancha Verde chegou de avião, não passou pela sede da Terror Bicolor e seguiu diretamente para o estádio, sem recepção durante a madrugada.
Botafogo reuniu 18 integrantes da Fúria Jovem em Belém
Para acompanhar de perto a operação, o PELEJA esteve com a Fúria Jovem, organizada do Botafogo, que levou 18 integrantes do Rio de Janeiro para a capital paraense.
A partida estava marcada para as 21h30. Entretanto, a concentração começou às 16h, cinco horas e meia antes do início do confronto.
O Batalhão de Polícia de Eventos (BPE), da Polícia Militar, determinou que as torcidas visitantes seguissem para o estádio aproximadamente quatro horas antes da partida.
Na Praça do Marex, localizada a cerca de cinco quilômetros do Mangueirão, os 18 integrantes da Fúria Jovem se encontraram com membros da Torcida Jovem e aproximadamente 100 integrantes da Terror Bicolor. Esse último número corresponde à distribuição de ingressos.
Os integrantes da organizada paraense permaneceram no local para prestar apoio aos visitantes. O grupo reuniu pessoas de diferentes idades e aguardou a liberação da Polícia Militar para seguir ao estádio.
Ricardo Yuri, porém, demonstrou insatisfação com o tempo de espera exigido pela corporação.
“A polícia, na verdade, não é preparada para jogos de grande porte. Ela ainda não está preparada. Questão de horário: a gente tem que chegar entre cinco e seis horas antes da partida. Um jogo que é às 21h30, a gente tem que se concentrar às 16h, sendo que a distância para o estádio é de menos de 20 minutos”, disse.
Torcedores do Botafogo destacam apoio dos aliados
Para os visitantes, a parceria entre as organizadas facilita a viagem e a permanência em Belém. Vitor Valente, presidente da Fúria Jovem, afirmou que o grupo recebeu apoio desde a chegada à capital paraense. Segundo ele, integrantes da Terror Bicolor buscaram os torcedores no aeroporto e organizaram a recepção.
“Aonde o Botafogo estiver, a Fúria vai estar. Pra gente é mais tranquilo estar em Belém por conta dos nossos aliados da TUTB, o suporte é dado. Eles buscaram a gente no aeroporto, a recepção é boa como sempre. Isso fomenta nossa união e deixa a gente mais unido”, declarou.
Quando receberam a autorização para deixar a praça, os grupos seguiram juntos para o Mangueirão.
O deslocamento contou com aproximadamente três viaturas e algumas motocicletas da Polícia Militar. O percurso levou cerca de oito minutos. A torcida do Botafogo saiu primeiro e não teve contato com torcedores do Remo durante o trajeto.
Restrições e espera no portão dos visitantes
A chegada ao estádio trouxe outras dificuldades. No portão destinado à torcida visitante, não havia vendedores ambulantes disponíveis.
Dentro do Mangueirão, os preços também chamaram a atenção: o copo de refrigerante custava R$ 14, o de cerveja, R$ 13, e o de água, R$ 10.
Como ainda faltavam mais de quatro horas para o início da partida e o calor era intenso, vários torcedores aguardavam do lado de fora. Parte deles tentou encontrar vendedores na entrada do estacionamento, onde havia poucas opções.
A movimentação contrariou a determinação de permanecerem em frente ao portão destinado aos visitantes.
Por volta das 19h, ocorreu um princípio de confusão envolvendo torcedores do Botafogo e do Remo. A Polícia Militar dispersou o grupo e obrigou os botafoguenses a retornarem ao portão visitante.
Durante o deslocamento, a reportagem acompanhou tentativas de diálogo entre torcedores e policiais. No entanto, não houve acordo. Ao chegarem novamente à entrada, os visitantes receberam a ordem de sentar no chão.
Reportagem relata abordagem policial durante registro de imagens
Outro episódio ocorreu quando o jornalista começou a registrar imagens da movimentação. Segundo o PELEJA, policiais impediram a gravação e conduziram a equipe a outro local. Lá, os agentes revistaram o equipamento e fizeram perguntas aos profissionais. A reportagem se identificou como imprensa. O equipamento não sofreu danos.
Do ponto onde permaneceu, a equipe conseguiu ouvir parte do que acontecia na entrada do estádio. Posteriormente, alguns torcedores relataram ter sofrido agressões com chutes e socos por parte de policiais.
Ainda conforme a apuração do PELEJA, não houve feridos nem pessoas detidas naquele episódio. Faltavam aproximadamente duas horas para o início da partida.
Botafogo encerra sequência de jogos com torcidas aliadas
Com a realização de Remo x Botafogo, em 28 de outubro, Belém encerrou a sequência de partidas do Brasileirão 2026 envolvendo clubes com torcidas aliadas da Terror Bicolor.
Ao todo, os sete clubes que mantêm essas relações já haviam passado pelo Mangueirão durante a temporada.
O histórico de conflitos ajuda a explicar a preocupação das autoridades com a segurança dos torcedores. Entretanto, a reportagem também levanta questionamentos sobre os procedimentos adotados pela Polícia Militar, especialmente a concentração com horas de antecedência e a determinação para que visitantes permanecessem sentados no chão.
A expectativa que acompanhou o retorno do Remo à Série A estava relacionada à possibilidade de confrontos entre torcidas rivais. Porém, os bastidores dos jogos revelaram uma dinâmica que começa muito antes da bola rolar.
A recepção organizada pelos aliados, a definição dos pontos de concentração, os horários impostos pela polícia e as restrições de circulação passaram a fazer parte da experiência dos visitantes.
No caso da Fúria Jovem, os 18 integrantes que viajaram do Rio de Janeiro tiveram uma programação que incluiu recepção no aeroporto, apoio da Terror Bicolor, escolta policial e horas de espera sob o calor de Belém.
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