Entenda como a crise no Paraguai pode afetar o Brasil
A crise financeira e política no Paraguai, que levou à renúncia do presidente Santiago Peña nesta quinta-feira (5/11), gera incerteza e instabilidade regional, podendo afetar o Brasil e o Mercosul. É a avaliação de Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM.
O recuo do consumo e do crédito gerados pela crise envolvendo o Ueno Bank, principal instituição financeira do Paraguai, poderá gerar instabilidade no comércio regional, explicou o professor. Isso poderia desviar as atenções do Mercosul para gestão de instabilidade, o que retardaria negociações do bloco econômico. “Acredito inclusive que deveria ter um posicionamento da Secretaria do Mercosul e do Parlasul pedindo estabilidade das instituições paraguaias", afirmou.
Vinícius Tavares de Oliveira, professor de relações internacionais da PUC Minas, disse que as relações diplomáticas entre Brasil e Paraguai devem permanecer similares, uma vez que o governo do país vizinho continua sendo de direita, mas que trocas comerciais devem ser afetadas.
Segundo Tavares, o Paraguai é um parceiro econômico importante para o Brasil, não só por fazer parte do Mercosul mas também por dividir com o Brasil a administração da Usina Hidrelétrica de Itaipú. Ele enfatizou, no entanto, que a preocupação maior deve ser em como a crise financeira irá afetar a população. “Estamos vendo claramente um escândalo que é muito maior proporcionalmente do que o caso do Banco Master”, disse.
Cerca de 3 milhões de pessoas, o que corresponde a quase metade da população do Paraguai, possuem contas no Ueno Bank que agora estão bloqueadas. O banco também era responsável por administrar valores milionários de fundos de pensão e outras verbas estatais.
O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou que clientes com depósitos no banco receberão uma compensação de 10 milhões de guaranis, o que equivale a aproximadamente R$ 9,200. No entanto, o futuro da população e do país permanecem incertos. “Isso pode se tornar uma catástrofe humanitária”, disse Tavares.
No passado, crises similares em outros países da América do Sul ocasionaram em um alto número de pessoas migrando para o Brasil. Foi o caso da Venezuela, que passou por uma crise humanitária na década passada. De acordo com a Unicef, mais de 568 mil venezuelanos entraram no Brasil entre 2015 e 2024.
Tavares deixou claro que o futuro do Paraguai é incerto. Resta saber como a oposição irá explorar a renúncia do presidente e seu envolvimento com o Ueno Bank.
Já o Uebel, acredita que o importante agora é que o Brasil tente evitar que a crise doméstica no Paraguai acarrete em uma paralisação das agendas estratégicas entre os dois países. “Para o Brasil, o cenário de uma instabilidade prolongada, com retração do comércio e instrumentalização política de Itaipu, poderia prejudicar a estabilidade regional e também os brasileiros que dependem de negócios com o Paraguai”, afirmou.
Ele destacou também que a crise no Paraguai, somada ao escândalo do Banco Master, acende um alerta para outros países da América do Sul de que falhas na fiscalização adequada de instituições financeiras podem deteriorar a confiança de investidores e causar crises sociais.
Entenda o escândalo
A tensão no Paraguai se iniciou quando o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou na terça-feira (3/11) uma intervenção no Ueno Bank após denúncias de fraude e insuficiência de capital por parte da instituição financeira. A medida impediu que clientes do banco pudessem acessar recursos depositados na instituição. As investigações levaram à prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do banco, Miguel Vázquez.
Ainda na terça-feira, o presidente do BCP, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Indicado por Santiago Peña, ele havia presidido o Ueno Bank antes de assumir o órgão regulador.
Na quarta-feira (4/11), um pedido de impeachment contra Peña foi apresentado na Câmara. O presidente possuía ações no grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em 2025. A oposição acusa o presidente de ter responsabilidade no desvio de verbas públicas para o banco, não desempenhar suas funções adequadamente e ter conflitos de interesse. Também foram cobradas explicações acerca da evolução patrimonial do presidente.
Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira e disse que gostaria de “pedir desculpas ao povo se, em algum momento, falhei". Mesmo após a renúncia do presidente, a Câmara aprovou o pedido de impeachment contra ele. O processo segue agora para o Senado.
(Com AFP e FolhaPress)
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