CINEINSITE Cara de Barro tem carne, sangue e uma boa ideia, mas falta coragem
Existe algo bastante interessante em Cara de Barro: pegar um personagem vindo dos quadrinhos, um universo que ainda carrega certa associação com o entretenimento juvenil, e transformá-lo em protagonista de uma história que flerta com o thriller policial, o suspense e, em alguns momentos, com o terror em sua forma mais visceral. E, para minha surpresa, a experiência funciona muito melhor do que eu imaginava.
Assisti ao filme há alguns dias e saí com uma impressão bastante positiva, principalmente pela disposição de abandonar o caminho mais convencional das adaptações de super-heróis. Aqui, não estamos diante de mais uma história sobre alguém vestindo uma fantasia, salvando a cidade e distribuindo alguns socos. A proposta é bem diferente: acompanhar a deterioração física e psicológica de um homem cuja própria existência passa a ser definida pela aparência.
Tudo sobre Cineinsite em primeira mão!E é justamente quando o filme resolve mexer com a carne, literalmente, que encontra seus momentos mais interessantes.
O chamado body horror aparece com força, em cenas construídas para provocar aquele desconforto quase involuntário. São momentos em que o espectador não está necessariamente preocupado com o destino do personagem, mas com a possibilidade de a câmera mostrar mais alguns segundos daquela transformação. É aquele tipo de sequência em que a vontade é tapar os próprios olhos, olhar por entre os dedos e torcer para que o diretor tenha piedade.
Uma Gotham onde até a iluminação parece corrupta
A direção de James Watkins é competente, embora não seja o grande trunfo do filme. O cineasta, conhecido pelo trabalho em Não Fale o Mal, conduz a narrativa com segurança e constrói uma atmosfera que combina bastante com a proposta.
Sua Gotham é exatamente o tipo de cidade que esperamos encontrar em uma história como essa: dividida entre o poder e a pobreza, corroída pela corrupção e visualmente desagradável. Predominam tons marrons, ambientes sujos, pouca vida e uma iluminação amarelada que parece indicar que até a rede elétrica desistiu de colaborar.
É uma cidade sem glamour, sem beleza e sem qualquer preocupação em parecer convidativa. Os ricos continuam protegidos em seus espaços de poder, enquanto o restante parece condenado a sobreviver em meio à degradação. Uma Gotham em que até respirar deve ser uma experiência desagradável.
Watkins já demonstrou familiaridade com o desconforto e a tensão. Em Não Fale o Mal, sua versão dividiu opiniões justamente pelas diferenças em relação ao longa original, especialmente pela escolha de um encerramento mais convencional e menos perturbador. Ainda assim, considero um bom filme, e sua experiência com o suspense aparece na condução de Cara de Barro.
O roteiro fica por conta de Mike Flanagan, nome bastante conhecido entre os admiradores do terror contemporâneo. Responsável por obras como Doutor Sono, A Maldição da Residência Hill e Missa da Meia-Noite, além de uma versão televisiva de Carrie, a Estranha, Flanagan conhece bem o caminho entre o sofrimento psicológico e o horror.
E é justamente nesse terreno que o filme encontra uma de suas melhores ideias.
Hollywood ama um rosto bonito. Até ele deixar de ser bonito.
A metáfora envolvendo a figura do ator é, talvez, o elemento mais interessante da narrativa. O rosto deixa de ser apenas uma característica física e passa a funcionar como mercadoria. É um produto explorado, vendido e consumido por uma indústria que valoriza a aparência enquanto ela atende às expectativas do público.
Mas existe um prazo de validade para esse tipo de produto. Quando o rosto deixa de ser bonito, quando já não desperta interesse ou não corresponde ao padrão exigido, o descarte parece ser o caminho natural.
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O protagonista é, essencialmente, alguém que foi descartado. Sua transformação física funciona como ponto de partida para uma discussão sobre a superficialidade, a exploração da imagem e a crueldade de uma indústria que transforma pessoas em produtos e depois as substitui sem muita cerimônia.
É uma discussão que inevitavelmente lembra A Substância, de Coralie Fargeat. Os dois filmes encontram na deterioração física uma maneira de discutir a relação entre aparência, valor social e a transformação do corpo em objeto de consumo.
A diferença é que A Substância parece muito mais interessada em espremer essa discussão até a última gota. Em Cara de Barro, temos uma metáfora poderosa, mas falta aprofundamento. O filme apresenta uma excelente oportunidade para discutir a descartabilidade humana em uma indústria obcecada pela beleza, mas nem sempre consegue fazer essa ideia avançar para além de sua premissa.
Hollywood, afinal, não costuma ser muito gentil com aquilo que deixa de vender. E o filme tinha material de sobra para explorar essa crueldade.
O problema é que a criatura começa a perder os dentes
Minha principal ressalva está na maneira como Cara de Barro administra o horror. O filme começa pesado, apresenta imagens grotescas e parece disposto a testar os limites do estômago do espectador. A promessa é de uma experiência cada vez mais perturbadora, na qual a transformação física do protagonista se tornaria também uma transformação narrativa.
Só que acontece justamente o contrário.
Conforme a história avança, o filme parece se limpar. Aquela disposição inicial de incomodar vai diminuindo, e o horror corporal, que começa como um dos principais motores da narrativa, perde espaço e intensidade.
É quase irônico: temos um personagem cuja principal característica é a deformação, mas o próprio filme parece ter receio de deformar demais sua história.
E isso importa porque o body horror não deveria ser apenas uma coleção de cenas desagradáveis. O gênero tem uma capacidade muito particular de transformar o corpo em linguagem. A carne, a pele, as deformações e as mudanças físicas precisam carregar alguma coisa além do impacto visual.
Em Cara de Barro, o corpo do protagonista deveria ser o lugar onde todos os conflitos se encontram. A rejeição, a exploração, a perda da identidade e a obsessão pela aparência poderiam se manifestar de maneira cada vez mais perturbadora na própria matéria física do personagem.
Essa é uma das grandes possibilidades do terror corporal: fazer com que o tema não esteja apenas nos diálogos, mas literalmente se entranhe no corpo de quem está na tela.
O filme começa a construir essa relação, mas não tem coragem de levá-la até as últimas consequências. A escalada de horror acontece nos primeiros momentos e, depois, parece entrar em uma espécie de regime de contenção. A criatura vai perdendo espaço justamente quando poderia se tornar ainda mais interessante, um exemplo disso são as transformações, rápidas, sem consequencia e fora de tela.
Não estou dizendo que todo filme de terror precisa terminar com uma competição de quem consegue produzir a imagem mais repulsiva. Mas, quando você apresenta uma proposta tão visceral, é razoável esperar que ela não abandone suas próprias ambições no meio do caminho.
Um pouco de loucura, romance e déjà-vu
O encerramento também merece uma observação. Existe uma espécie de romantização da loucura que me lembrou bastante o caminho escolhido em Coringa, principalmente pela maneira como a relação afetiva e a percepção distorcida da realidade participam da construção do desfecho.
A semelhança não chega a comprometer a experiência, nem considero que seja suficiente para diminuir o filme. Mas a sensação de déjà-vu aparece. É como se a produção encontrasse uma solução narrativa que já vimos em outro lugar e decidisse que ela ainda poderia funcionar mais uma vez.
E funciona, dentro de determinados limites. Só não é exatamente uma demonstração de originalidade.
O monstro poderia ter sido ainda mais monstruoso
No fim das contas, Cara de Barro é um filme que me surpreendeu. Não porque seja impecável, mas porque demonstra que personagens dos quadrinhos podem render histórias muito interessantes quando são retirados do lugar-comum das adaptações de super-heróis.
E não, não acho que esteja cobrando demais de um filme de quadrinhos. Minha avaliação parte justamente daquilo que a própria produção escolhe apresentar. Se o longa decide abraçar o terror, flertar com o suspense policial e colocar o horror corporal no centro de sua identidade, é natural que seja julgado também pelas possibilidades e exigências desses gêneros.
Não estou esperando um tratado filosófico sobre a condição humana em uma adaptação do universo do Batman. Mas, se você decide trabalhar com a deformação do corpo como metáfora para a rejeição, a exploração e a perda da identidade, precisa estar disposto a sujar as mãos. E, nesse caso, talvez até um pouco mais do que isso.
O filme tinha a oportunidade de fazer a transformação do protagonista atravessar toda a narrativa, tornando cada mudança física uma extensão de seu sofrimento e das questões que pretende discutir. Em alguns momentos, chega muito perto. Em outros, parece recuar para não assustar demais o próprio público.
Isso não faz de Cara de Barro um filme ruim. Pelo contrário, é uma produção que merece atenção e que, mesmo com suas limitações, consegue entregar uma experiência diferente dentro de um gênero que nem sempre encontra espaço nas adaptações de quadrinhos.
Mas fica aquela sensação de que o filme tinha uma criatura muito mais interessante nas mãos do que aquela que decidiu mostrar.
Talvez o maior problema de Cara de Barro seja justamente esse: começa querendo nos fazer sentir repulsa, mas termina parecendo preocupado demais em não deixar marcas.
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