'Ele achou que já estava eleito': os erros da campanha de Flávio Bolsonaro no segundo turno apontados por analistas
Arrogância pós-primeiro turno, ironias, dubiedades no discurso, além do peso das acusações na Justiça selaram derrota do senador do PL, apontam analistas e pessoas próximas à campanha
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Publicado às 15:31, 05/11/2026
"Faltou uma compreensão daquele momento por parte da campanha bolsonarista", nota Hilton Césario, da FESP-SP.
Para ele, considerando que boa parte da votação dos candidatos derrotados no primeiro turno migraria automaticamente para Flávio, "bastava se posicionar como um líder e impor respeito para esperar o fim das eleições".
Mas não foi isso que ele fez. "O comportamento debochado, arrogante e até agressivo dele pode ter desestimulado a parte dos eleitores que não estava muito firme com a decisão", completa.
Felipe Nunes, fundador da Quaest, de pesquisas eleitorais, vai nessa mesma linha. "Houve uma incapacidade da campanha de Flávio em enxergar que parte dos votos que ela obteve no primeiro turno veio de um eleitor pendular, que não era fixo dele".
Lula ganhou 10,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno — a maior quantidade de novos eleitores, nesse intervalo, desde a redemocratização, em 1985, com a primeira eleição em 1989. Flávio Bolsonaro, por sua vez, perdeu, mas teve um desempenho melhor que o do seu pai, Jair, em 2022: recebeu cerca de 56,1 milhões de votos.
A abstenção também caiu entre os dois turnos, passando de 21% para 19%.
Abranches percebe que esse equívoco se materializou, de fato, na postura da própria campanha do senador, que se manteve no mesmo ritmo do primeiro turno, enquanto a de Lula se digitalizou rapidamente e mobilizou boa parte do eleitorado de esquerda e da "direita não bolsonarista".
"Isso fez diferença. Flávio passou a administrar a vitória que achou que teria enquanto Lula conseguiu atrair, sem o PT e centrais sindicais, as pessoas para seus atos de rua".
Nunes, da Quaest, inclusive, acredita que houve mais acertos de Lula na virada entre os dois turnos do que propriamente erros de Flávio. "Foi o mérito da campanha petista de redes e a mudança de postura na TV".
"Sem contar que eles estavam distribuindo ministérios, já", adiciona Abranches.
De fato, para além do esforço de Daniella Marques em colocar seu Ministério da Prosperidade de pé antes do pleito decisivo, por exemplo, os gestores de diferentes núcleos da Faria Lima compartilhavam, à boca pequena, uma disputa silenciosa entre dois nomes dali cotados ao Ministério da Fazenda de um esperado governo Flávio: Mansueto de Almeida, economista do BTG e que fez parte do Ministério da Fazenda de Paulo Guedes, na época de Bolsonaro, e Roberto Campos Neto, que presidiu o Banco Central entre 2019 e 2024, e que hoje trabalha no Nubank.
"Nas poucas conversas que testemunhei sobre esse assunto, parecia que o segundo turno já tinha acontecido. Estavam montando gabinete", diz um economista da Faria Lima que pediu para não ser identificado justamente por ter participado de reuniões com membros da chapa do PL.
Essa percepção extrapolou até os encontros políticos onde o candidato do PL ou os membros da equipe dele discursaram.
"Nos grupos focais que fizemos durante os debates [na TV Band, no dia 17 de outubro, e na TV Globo, no dia 23], os momentos em que Flávio foi mais criticado pelos eleitores foram quando adotou posturas consideradas 'infantis', como retrucar falas de Lula com frases irônicas ou, justamente, pela sensação de arrogância que causou ao se considerar já eleito", conta o economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia.
Rejeição crescente das mulheres
Além do que os analistas apontam como arrogância, Flávio não ganhou a confiança de uma parte relevante do eleitorado feminino, argumenta a socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Ela acabou de lançar, ao lado da antropóloga Jaqueline Teixeira, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), o livro Mulheres e extrema direita no Brasil (Elefante).
Na leitura dela, à medida em que a campanha de Lula reforçava que o senador era "perigoso" e "pouco confiável", as dubiedades entre o discurso do candidato do PL e seu histórico como parlamentar robustecia s argumentos da chapa petista.
"Isso ficou evidente no caso do Bolsa Família, por exemplo", lembra ela, "em que Flávio disse que manteria o programa e, em seguida, apareceram posts antigos dele chamando-o de 'bolsa farelo'. A campanha de Lula também logo recuperou que ele foi o único parlamentar a votar contra essa agenda no Rio de Janeiro [Flávio votou contra a criação do Renda Melhor, em 2011, na Assembleia Legislativa do Rio]. Para as mulheres, que são as principais usuárias do programa, isso acendeu um alerta".
Esse temor se viu bem nas pesquisas eleitorais. Os dados da Quaest do dia anterior ao segundo turno indicaram que 53% das mulheres diziam que o conheciam, mas jamais votariam nele. No caso de Lula, essa taxa era de 41%.
Já o Datafolha daquele mesmo dia mostrou que, entre quem se dizia eleitor do senador, 44% eram mulheres. Para Lula, elas eram 51%.
Se Flávio até tentou se aproximar desse público, gravando cenas da sua campanha de televisão ao lado de personagens femininas em supermercados ou explorando sua aliança com candidatas jovens da direita, como Eduarda Campopiano (PL), em São Paulo, outros fatores jogaram contra esse esforço.
Um dos pontos cruciais, aponta Vital, foi o destque dado durante a campanha à participação de Flávio, como advogado, da banca de defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, que foi acusado pela Justiça de matar uma menina de cinco anos, Ana Clara Gomes Machado, em uma operação no bairro de Badu, em Niterói (RJ). O senador atuou para evitar que Delaroli fosse a julgamento popular.
"A participação da mãe da Ana Clara [Cristiane Gomes] na campanha do Lula, mostrando o sofrimento dela, gerou muita empatia nas mulheres", analisa Vital.
"Mais do que isso", adiciona Cesário, "foi a incapacidade em mostrar empatia com a mãe dela".
A ironia com os nove dedos de Lula
Nos grupos focais organizados pelo Instituto Ideia durante os debates da Band e da Globo, Maurício Moura reparou que toda vez que Flávio usava a ironia como tática para confrontar Lula, as pessoas imediatamente fecharam a cara. "Era quando a avaliação dele ia lá para baixo".
Nesse método de pesquisa, de caráter qualitativo, um conjunto diverso de eleitores — isto é, apoiadores das ambas as candidaturas em questão, além de indecisos — é instalado ao redor de uma mesa diante da televisão e, então, são estimulados a reagir a cada acontecimento (falas, dados, argumentos, temas) do debate. Com isso, é possível mensurar os erros e os acertos dos discursos dos candidatos segundo a perspectiva do eleitorado.
Moura acredita que uma dessas ironias, em especial, deve ter tirado votos de Flávio no segundo turno: a menção aos nove dedos de Lula, no debate da TV Globo. Na ocasião, o então senador do PL disse ao petista que não adiantava nada "dar um salário mínimo com uma mão e tirar com os nove dedos".
O presidente, que perdeu o mindinho em 1964, quando era torneiro mecânico em São Paulo, em um acidente em uma prensa, reagiu exigindo um pedido de desculpa ali mesmo — que Flávio fez em seguida.
"Ele flertou com o risco de ofender as pessoas, porque o Brasil tem 7% da população com as mesmas condições do Lula [alguma deficiência física]. São pessoas que têm família. Basicamente, ele tocou em um tema que é importante para 60 milhões de eleitores. Arriscou demais", afirma Moura.
A jocosidade com os dedos, que viralizou ao reverso nas redes sociais — isto é, mostrou mais Lula respondendo indignado a Flávio do que a própria frase dele — reforçou as críticas internas na campanha a Pablo Marçal, responsável por aconselhar Flávio antes dos embates com Lula.
Isso, acrescenta o filósofo Renato Lessa, do Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), marca uma certa mudança na própria dinâmica do bolsonarismo, que o fez ascender nas redes sociais uma década atrás: o uso da linguagem com meio de agressão. "Ela perdeu a função de comunicar e adquiriu um tom acusatório, belicoso, depreciativo — especialmente se tratando de adversários políticos".
A própria piada sobre o dedo perdido de Lula é um exemplo, observa, porque, ao longo dos pleitos disputados pelo presidente — eleito em 2002 pela primeira vez — seu acidente nunca foi usado por concorrentes com um tom jocoso, dado o óbvio prejuízo eleitoral que eles teriam com isso.
"É que, há algum tempo atrás, embora a dinâmica parlamentar sempre tenha sido belicosa, havia limites que todos respeitavam, que não eram ultrapassados". Nesse sentido, a lógica do bolsonarismo pode ter tirado votos do seu próprio candidato.
É que, na leitura de Lessa, mas também de pessoas que participaram da campanha de Flávio ou que se relacionaram com ela em algum momento da eleição, ele errou em acreditar que essa postura — que surtia efeito no eleitorado mais alinhado à narrativa bolsonarista anos atrás — ainda era consumida por uma grande parcela do eleitorado.
"Na verdade, ela ajudou a afastar uma parte dos indecisos", observa Cesário.
"Mas o que pegou, de fato, foram as acusações contra ele".
Teto de vidro
"É mentira. De onde você tirou isso?".
Na primeira vez que Flávio Bolsonaro se viu diante de uma pergunta sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e que hoje está preso em Brasília (DF), na saída do Congresso, em maio, essa foi sua reação imediata.
Pouco tempo depois, porém, quando vazaram históricos de mensagens entre os dois pelo WhatsApp, o senador precisou assumir não apenas que a relação existia como que era mais profunda.
Segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o órgão de fiscalização do Banco Central, e das conversas no WhatsApp, Vorcaro repassou pelo menos US$ 12,3 milhões (R$ 66,2 milhões, na cotação de 29 de outubro) à família Bolsonaro entre 2024 e 2025 sob a justificativa de arcar com os custos da cinebiografia Dark Horse, produzida pelo diretor americano Cyrus Nowrasteh.
Os repasses ficaram ainda mais duvidosos quando a Polícia Federal (PF) descobriu que eles eram recebidos em um fundo offshore no Texas, nos Estados Unidos, cujo sócio, Paulo Calixto, foi advogado do ex-escrivão da PF e ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio que vive no país desde fevereiro de 2025.
"O teto do Flávio era muito de vidro", resume Hilton Césario.
Sérgio Abranches concorda, adicionando a essa leitura a própria postura de Lula.
"[Ele] era um candidato muito vulnerável por conta dessas acusações, que são de processos judiciais em andamento, muito lesivos, que contrariam até o que ele diz sobre si".
"Era natural que saíssem mais informações [conforme a campanha seguisse]. Lula foi muito leal, inclusive, porque não usou o poder que tem para pegar mais informações com a Polícia Federal e vazá-las".
O inquérito do caso Dark Horse estava sob tramitação no gabinete do ministro André Mendonça, do STF, mas foi suspenso pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin, em meio à crise do tribunal, em setembro.
Flávio, porém, enfrenta uma segunda acusação — que irrompeu na reta final do segundo turno. Nela, o senador é acusado de lavagem de dinheiro ao lado do advogado Willer Tomaz que, por sua vez, foi alvo de uma operação da PF em agosto pelas investigações sobre fraudes no pagamento de benefícios do INSS.
Tanto Flávio quanto Willer negam as acusações.
Esse inquérito, por sua vez, está no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, e foi a partir dele que o magistrado determinou, no dia seguinte à eleição, a apreensão dos passaportes de Flávio, que não os entregou no prazo solicitado.
"A ida dele para os Estados Unidos é a confirmação de tudo o que a campanha do Lula e outros atores da sociedade civil estavam dizendo sobre ele e sobre essas acusações durante a campanha", diz Christina Vital, da UFF, lembrando que um dos argumentos da oposição à candidatura do PL era que ele tentava escapar da Justiça por meio do cargo.
No entanto, para ela, a viagem aos EUA não será interpretada, pelo eleitorado, integralmente como uma "fuga" dos processos judiciais. Dependerá, antes, da narrativa que a família Bolsonaro continuará produzindo para justificar a saída dele do Brasil.
"Eles vão tentar dizer que é um exílio. Vamos ver se serão exitosos nisso", finaliza.
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