Ueno: Empresariado fala em decepção e espera para rever aposta no Paraguai
Santiago Peña buscou promover a imagem de um Paraguai prospero, onde empresas poderiam se fortalecer e crescer sob uma legislação pró-negócios.
E nos últimos anos, empresas buscaram migrar suas operações do Brasil ao vizinho em busca desse ambiente.
Mas o colapso de um banco digital do qual Peña era sócio indireto e que tinha quase metade dos cidadãos paraguaios na lista de clientes gerou um sentimento de decepção no empresariado brasileiro que escolheu apostar no país platino, segundo relatos feitos ao CNN Money.
Ainda assim, a avaliação é de que o momento é de esperar para ver até onde vai “a toca do coelho” e como as instituições paraguaias vão lidar com a situação.
“Banho de realidade”
Quem não acompanha o Paraguai no dia a dia pode ter se deparado com um aparente cenário de “medo e delírio” ao acordar com a notícia da crise financeira no gramado vizinho, afinal cerca de 3 milhões de 6,46 milhões de paraguaios possuiam contas no Ueno Bank. Especialistas ressaltam que o Ueno foi responsável por disseminar a bancarização no país.
Além disso, a instituição administrava cerca de US$ 800 milhões em recursos públicos ligados a fundos de previdência.
Ainda assim, o banco digital concentrava aproximadamente 10% dos depósitos do sistema bancário local, posicionando-se como o quinto maior banco em operação no país em volume de dinheiro.
A crise de solvência apurada pelo Banco Central do Paraguai envolve uma simulação de venda de carteiras de créditos no valor de US$ 74,4 milhões, utilizando recursos do próprio Ueno para mascarar o rombo patrimonial.
Para o brasileiro, a comparação com o caso do Banco Master vem à cabeça. Mas por conta da penetração do Ueno na vida financeira do cidadão paraguaio, “o pânico é muito mais tangível”, segundo Philipe Moura, especialista em geopolítica e professor da FDC (Fundação Dom Cabral).
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Porém, o fantasma já vinha rondando as planícies do Chaco. Fontes relataram à reportagem que, desde agosto, circulava no mercado financeiro local boatos sobre uma crise que poderia levar à queda do presidente do BC paraguaio, até então Carlos Carvallo Spalding.
A crise começou a ganhar evidência no país quando senadores acionaram a autoridade monetária para avaliar a estabilidade financeira da instituição e uma seção do Partido Colorado rompeu com o presidente Peña.
Em pouco mais de três semanas, veio então o colapso do Ueno. “Já existiam conversas sobre, mas ninguém acreditava que seria tão rápido”, relata o consultor paraguaio Oscar Mersan, que é especialista em investimentos estrangeiros.
Philipe Moura descreve o cenário como um “banho de realidade” na qual a maioria escolheu não acreditar.
Deflagrado o escândalo, ambos Carlos Carvallo e o presidente Santiago Peña renunciaram. O Congresso paraguaio ainda busca barrar a saída do chefe do Executivo pela porta dos fundos para formalizar um processo de impeachment.
Há risco para o brasileiro?
Como a tensão já era visível no ar paraguaio há algumas semanas, o empresariado brasileiro buscou ouvir seus interlocutores paraguaios.
Nessas reuniões, “não se notou temor, mas sim uma decepção”, afirma Fabio Fustagno, presidente da Câmara de Comércio Paraguai-Brasil. A questão colocada à mesa foi como Peña, que buscou promover um país estável, acabou mergulhado na crise.
No curto prazo, a crise assusta os investidores institucionais, pondera Moura. E não só o estrangeiro que escolheu embarcar no país vizinho, como a economia local que depende fortemente dos aportes vindos de brasileiros e argentinos.
“Se tirar Brasil e Argentina, o Paraguai não existe. O país é dependente desses mercados consumidores e usa matérias-primas deles”, enfatiza o professor da FDC.
Ainda assim, os especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que os riscos sistêmicos ao empresariado brasileiro são baixos.
Outros bancos do sistema financeiro paraguaio que tinham aportes no Ueno buscaram liquidar suas posições na instituição ao longo das últimas semanas, à medida que corriam os rumores sobre seu colapso. Desse modo, acredita-se que é baixo o risco de contaminação.
Enquanto isso, as próprias empresas brasileiras não estavam tão conectadas ao banco digital em si, que tinha maior foco no varejo, na pessoa física.
“Não vi nenhuma empresa brasileira depositar dinheiro no Ueno, então aparentemente elas não serão afetadas financeiramente. Elas podem, no entanto, enfrentar dificuldades operacionais, como com transferências eletrônicas, folha de pagamento, etc., já que os clientes do banco eram justamente trabalhadores de baixa renda e muitos funcionários públicos”, observa Fabio Fustagno.
“Para o setor privado/produtivo, o ocorrido foi uma decepção, mas a grande maioria do setor acredita que o país depende principalmente da produção privada. Os políticos precisam se concentrar na política e separar a gestão econômica da gestão política. Esta é uma oportunidade para fortalecer o Paraguai”, argumenta.
Os próximos passos
O Banco Central do Paraguai defende que este é um caso pontual, de modo que o sistema financeiro do país platino permanece sólido. Envolvidos no esquema já foram detidos e a autoridade monetária ainda colhe maiores informações para seguir investigando a situação.
O empresariado brasileiro que escolheu o país vizinho como aposta vive um momento de tensão, mas ainda opta por não abandonar a banca.
“Não ouvi nenhum comentário sugerindo que as empresas brasileiras abandonarão sua produção no Paraguai. Ouvi dizer que os responsáveis pelo ocorrido devem ser punidos”, expõe Fabio Fustagno, da Câmara de Comércio Paraguai-Brasil, após conversas com o setor.
O que se observa é um momento de “esperar para ver”. Contudo, Philipe Moura teme que o impacto desse caso seja mais profundo que o Master no Brasil considerando a proporção do Ueno para o Paraguai. E se as investigações apontarem para um “efeito cascata”, o especialista em geopolítica prepara o sinal de alerta.
Mas ainda prevalece entre os empresários o “benefício da dúvida” ao processo, contando que ele poderá fazer com que “a confiança nas instituições do país será fortalecida”, pontua Fustagno.
“Depende da decisão do Parlamento de iniciar o processo de impeachment contra o presidente ou de aceitar ou não a sua renúncia. Isso determinará se o país quer ou não ser uma nação séria. O ocorrido é um assunto grave que, sem dúvida, afeta a imagem do país, mas, ao mesmo tempo, demonstrará a boa vontade das nossas autoridades e o seu compromisso com o futuro da nossa nação”, defende. A ver.
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