Campo Grande News
Homofobia não fez Lumar perder o orgulho de ser 'bicha grafiteira'
Mesmo depois de sofrer homofobia e até ter tido sua arte invalidada, Lumar não esconde quem é. Aos 23 anos, ele se orgulha de dizer que é uma “ bicha grafiteira” e transformou a expressão em símbolo de resistência e afirmação da própria identidade. Nascido em Coxim e morando em Dourados há cerca de cinco anos, Luan dos Santos Martins, o Lumar, encontrou nos muros uma maneira de mostrar que a arte não tem dono, muito menos orientação sexual. Com desenhos coloridos, personagens e referências à infância, ele ocupa espaços que nem sempre foram acolhedores para sua presença. Segundo ele, a relação com a arte começou ainda na infância, por volta dos seis anos. “Eu cresci vendo mulheres da minha família produzindo arte manual. Minha mãe e uma tia faziam crochê, minha avó pintava panos de prato. Isso me fez ir criando familiaridade com o universo artístico”, explica. Apesar disso, ele conta que passou um período afastado da produção. Chegou a começar uma faculdade de Contabilidade, mas a mudança para Dourados, em 2023, acabou despertando novamente o interesse pela arte. Na cidade, Lumar começou a frequentar oficinas independentes, cursos de artes digitais e eventos culturais. Também passou a viajar para Campo Grande para conhecer outros artistas e ampliar as referências sobre a produção artística em Mato Grosso do Sul. Foi nesse período que começou a experimentar o grafite. Depois, vieram as pinturas em roupas, customizações, trabalhos em diferentes materiais e encomendas. Lumar conta que não gosta de se limitar a uma única linguagem. “Eu acho muito legal fazer tudo. Faço desde o grafite até uma customização que alguém me pede ou um caderno artesanal. Eu gosto de me desafiar a fazer as coisas”, explica. Entre as características mais marcantes de seu trabalho está um personagem que aparece em diferentes produções. Chamado de Lumarzinho, ele surgiu sem nome e ganhou identidade depois de uma sugestão de um amigo tatuador. A figura funciona como uma extensão do próprio artista e reúne lembranças da infância. “É um universo que gosto de resgatar por meio das cores e dos desenhos”, pontua. Antes de desenvolver o personagem, ele também explorou temas ligados à fauna, à flora e ao folclore brasileiro. Já pintou tamanduás, tuiuiús, Cuca e mula sem cabeça. Com o tempo, passou a concentrar mais trabalhos no Lumarzinho, colocando-o em diferentes situações do cotidiano. A proposta é levar alegria para os espaços públicos e criar uma identificação com quem encontra suas obras pelas ruas. Quando a homofobia tenta determinar quem pode pintar Mas nem sempre a recepção foi acolhedora. Lumar conta que já enfrentou episódios de homofobia dentro da própria cena do grafite. Em um festival realizado em Cianorte, no Paraná, ele e o namorado foram colocados no mesmo quarto, mas outros participantes pediram para trocar de acomodação porque não queriam dividir o espaço com os dois. Em Dourados, a exclusão apareceu de outras maneiras. Segundo o artista, ele sentia dificuldade para ser incluído em determinados grupos, formados majoritariamente por homens heterossexuais. Além da sexualidade, sua linguagem artística também virou motivo de questionamento. Enquanto parte dos grafiteiros trabalhava com letras e outros estilos de simbolismos, Lumar preferia desenhos coloridos e personagens que transmitissem alegria. Por não seguir esse padrão, ouviu que não era grafiteiro, mas apenas pintor. “Já me chamaram disso, falando que meu trabalho era de pintura e não de grafite, porque eu não fazia o que eles queriam”, recorda. Para ele, a invalidação não está separada da homofobia. Lumar acredita que a cultura hip-hop ainda tem dificuldades para incluir artistas LGBTQIA+, que muitas vezes precisam construir seus próprios espaços de reconhecimento. “Eu vejo que o hip-hop não é sempre inclusivo. A gente acaba fazendo um movimento muito solitário dentro dessa cultura”, avalia. A violência também já ultrapassou as barreiras do ambiente artístico. Em outra situação, em Dourados, Lumar estava em um bar com dois amigos e uma amiga trans quando um homem partiu para a agressão. O episódio ficou marcado, mas não fez com que ele escolhesse se esconder. Pelo contrário, reforçou a vontade de continuar presente e mostrar que pessoas LGBTQIA+ também pertencem àqueles espaços. “Não adianta, as pessoas sempre vão ter ódio, mas não se usa o ódio com ódio. A gente tem que mostrar que está presente, que está cada vez mais forte”, afirma. É nesse contexto que Lumar ressignifica a palavra “ bicha ”. Aquilo que poderia ser usado como ofensa se transforma em uma afirmação de orgulho. Ele não apenas assume a expressão, como faz questão de associá-la à própria profissão. “Eu sempre bati no peito que sou bicha e vou viver bicha . Vou mostrar que meu trabalho vale de bicha , é para todo mundo”, declara. Para além de responder a quem já tentou diminuir sua produção, Lumar quer que outros artistas LGBTQIA+ encontrem no seu exemplo um incentivo para também ocupar as ruas. Quando pinta, ele pensa na comunidade e nas pessoas que podem se reconhecer em seus personagens. A intenção é mostrar que o grafite não precisa seguir uma única estética e que ninguém deve esconder a própria identidade para fazer parte do movimento. “Eu faço porque é para a comunidade, para a galera e também para me posicionar. Para que outros artistas gays, outros artistas que são do meio LGBT, consigam ver como um movimento de força e possam participar”, finaliza.
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