A Tarde
06/11/2026 09:00

ARTIGOS A Casa onde a Bahia inteira se encontra

Poucos lugares traduzem a Bahia com tanta fidelidade quanto a sua Assembleia Legislativa. Ali se encontram 63 deputados que, somados, reúnem votos colhidos em todos os territórios do estado, do Oeste agrícola ao Recôncavo, da Chapada Diamantina ao Extremo Sul, do Sertão à capital. Cada um traz na bagagem prioridades, sotaques e visões de mundo distintas, moldadas por realidades que pouco se parecem entre si. Essa diversidade, muitas vezes lida como fonte de conflito, é na verdade a própria razão de ser do Parlamento. Ele existe justamente para que as diferentes vozes de um mesmo povo possam conviver, divergir e, ao final, decidir sobre o destino comum.

A democracia de uma Casa Legislativa não se mede pela ausência de embates, mas pela qualidade das regras que garantem a cada parlamentar o direito de ser ouvido. Divergir é parte do ofício. O que não pode faltar é a certeza de que todas as posições terão espaço para se manifestar. Na Assembleia baiana, esse princípio tem ganhado forma concreta. Propostas da minoria foram levadas ao plenário, e a condução dos trabalhos recebeu da própria bancada de oposição o reconhecimento público pelo equilíbrio, pelo diálogo e pelo respeito ao Legislativo. Quando grupos que disputam projetos distintos para o estado convergem na avaliação de quem conduz a Casa, a mensagem é evidente: a diferença foi tratada como valor, e não como ameaça.

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É nesse ambiente que se inscreve um fato que a Bahia levou quase dois séculos para produzir. Desde 1835, quando a Assembleia foi instalada, nenhuma mulher havia ocupado sua presidência. Isso mudou em 2025, com a chegada de Ivana Bastos ao comando da Casa. O peso do marco, porém, vai além do ineditismo e está na forma como a cadeira passou a ser exercida. Desde o início, a presidente tratou o cargo como responsabilidade coletiva, compartilhada com deputados e deputadas. A gestão imprimiu ao Parlamento uma marca de humanização e caminha para encerrar o biênio e a legislatura com uma Casa em harmonia, em que o respeito se firmou como método de trabalho.

O exemplo produziu efeitos que ultrapassam as paredes do Legislativo. Nas eleições de outubro, a presidente recebeu 203.202 votos, a maior votação já registrada por um parlamentar estadual na história da Bahia, e a Casa seguirá contando com dez deputadas na próxima legislatura. Mas a dimensão mais duradoura desse percurso talvez seja outra. Quando uma mulher demonstra, pelo trabalho e pela forma de conduzir, que a liderança política também lhe pertence, ela não conquista espaço apenas para si. Mostra a meninas, jovens e mulheres de todos os cantos do estado que a vida pública é um território possível, ao qual se chega sem abrir mão da firmeza nem do diálogo.

Reconhecer avanços, no entanto, não dispensa encarar com sinceridade o desafio comum a todos os parlamentos do país. Existe hoje uma distância real entre a população e o Legislativo, e muitas vezes entre o eleitor e o próprio deputado em quem votou. Pesquisa do Datafolha divulgada em março deste ano mostrou piora na confiança ou na avaliação de sete das oito instituições pesquisadas, com os partidos políticos no topo da desconfiança. É o retrato de um cidadão que vota, mas não se sente parte do que acontece depois da urna.

Diante desse quadro, cresce a tentação de responder com o atalho da lacração: o vídeo de impacto, a frase de efeito, o mandato construído como marca pessoal. Essa lógica rende visibilidade, mas raramente produz vínculo, e esvazia justamente o espaço coletivo onde as decisões são tomadas. A legislatura que se inicia em fevereiro, com 38,1% das cadeiras renovadas, terá a oportunidade de aprofundar o caminho da reconexão e mostrar que a representação política pode reconstruir essa ponte com os instrumentos de que já dispõe.

O segundo turno das eleições presidenciais deixou uma lição. Ao contrário do que costuma acontecer, a abstenção caiu entre uma etapa e outra e chegou ao menor patamar em disputas presidenciais desde 2006. Jovens e idosos, que não são obrigados a votar, já haviam ampliado sua presença nas urnas em relação a 2022. Estudantes ocuparam ruas e praças em diversas cidades, inclusive em Salvador, e foram seguidos por pessoas de diferentes gerações que se manifestaram em nome da democracia. Os grupos e canais de WhatsApp funcionaram como motor dessa mobilização. Ficou demonstrado que a sociedade não está apática e responde quando sente que sua participação faz diferença.

Essa disposição encontra no Legislativo sua morada natural, porque é ali que a democracia se exerce todos os dias, e não apenas a cada quatro anos. O que se impõe agora é oferecer ao cidadão esse mesmo sentido de pertencimento no cotidiano. Redes sociais, WhatsApp e demais ferramentas digitais são meios legítimos de aproximação, mas só cumprem plenamente essa função quando conectados ao trabalho que acontece nas comissões permanentes, onde as propostas recebem análise técnica, e no plenário, onde o debate se transforma em decisão.

A Assembleia baiana já reúne parte desses instrumentos. O Portal da ALBA, os perfis institucionais nas redes sociais, a TV ALBA e a Rádio ALBA levam ao cidadão o que acontece nas comissões e no plenário, e novos projetos vêm ampliando essa estrutura. A relação com a imprensa também ganhou mais transparência e agilidade, condição para que a informação circule com credibilidade. O passo seguinte é integrar esses canais à atuação digital dos mandatos. O uso do digital que leva o cidadão até esses espaços fortalece a instituição. O que serve apenas à promoção pessoal acaba por enfraquecê-la.

Se a Assembleia é o lugar onde a Bahia inteira se encontra, cabe a ela garantir que esse encontro não se limite ao dia da eleição. A legislatura que se encerra deixa um ponto de partida sólido. A que começa em fevereiro herdará essa tarefa tendo no horizonte a continuidade de uma gestão que reúne o apoio de diferentes campos políticos, em decisão que pertence aos deputados. Um Parlamento forte não é o que fala mais alto, mas o que escuta melhor. Fortalecê-lo é conectá-lo à sociedade que ele representa, fazendo da Casa um espaço que ouve, traduz e reverbera os sentimentos do povo, que trata a diferença como razão de respeito, nunca de exclusão, e que assegura, sem exceção, o direito de todas as pessoas.

Luiz Fernando Lima é jornalista.

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