Conmebol tem R$ 77 milhões bloqueados após colapso de banco no Paraguai
A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) está entre as instituições atingidas pelo colapso financeiro do Ueno Bank, no Paraguai, que passou por intervenção das autoridades monetárias após a identificação de graves problemas de solvência. A entidade mantém aproximadamente US$ 14 milhões, equivalentes a R$ 77 milhões, aplicados no banco e teve o acesso aos recursos comprometido. A crise também provocou a suspensão do contrato de patrocínio da instituição financeira com a Copa Sul-Americana.
O episódio ocorre às vésperas das decisões da Libertadores e da Sul-Americana, previstas para novembro, e amplia os efeitos de uma crise bancária que atingiu milhões de correntistas, provocou manifestações populares e desencadeou instabilidade política no Paraguai.
Apesar da exposição financeira, a Conmebol assegura que não haverá prejuízos à realização das competições nem atrasos no pagamento das premiações aos clubes. Segundo a entidade, os recursos retidos representam aproximadamente 2,5% de sua receita anual e estavam aplicados em um investimento de prazo fixo, sem comprometimento do fluxo de caixa operacional.
O Ueno Bank entrou em processo de resolução determinado pelo Banco Central do Paraguai em 2 de novembro, com anúncio oficial no dia seguinte. Segundo a autoridade monetária, a instituição apresentou um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela regulamentação, após ajustes realizados em suas demonstrações financeiras durante o processo de regularização.
A decisão foi tomada por unanimidade pela diretoria do Banco Central paraguaio, que estabeleceu procedimentos para administrar a situação financeira da instituição, proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema bancário nacional.
A medida provocou o bloqueio do acesso aos recursos de clientes e empresas, entre eles a própria Conmebol, cuja sede fica em Luque, na região metropolitana de Assunção.
Embora os aproximadamente R$ 77 milhões estejam temporariamente indisponíveis, a situação não significa necessariamente a perda definitiva do investimento. A recuperação integral ou parcial dependerá dos procedimentos de resolução bancária e das medidas adotadas pelas autoridades paraguaias.
A exposição da Conmebol ocorre em um momento de forte repercussão da crise no futebol local. O Ueno Bank havia se consolidado como um dos principais investidores esportivos do Paraguai, mantendo contratos comerciais com clubes, competições e estruturas ligadas à modalidade.
Entre os investimentos estavam patrocínios ao Cerro Porteño e ao Olimpia, duas das equipes mais tradicionais do país. O banco também havia adquirido direitos comerciais associados ao Estádio Defensores del Chaco, em Assunção, que passou a utilizar a denominação Ueno Defensores del Chaco.
Com o agravamento da crise, a Associação Paraguaia de Futebol iniciou a retirada da identidade visual da instituição financeira do estádio e de materiais promocionais de suas competições, devolvendo à arena sua denominação tradicional.
A parceria comercial entre o Ueno Bank e a Copa Sul-Americana também foi atingida. O banco integrava o grupo de patrocinadores da competição desde 2024, com vínculo previsto até o encerramento da temporada de 2026.
O contrato foi suspenso diante da situação da instituição financeira, com possibilidade de encerramento definitivo. O valor específico desse patrocínio e o eventual montante ainda devido à Conmebol não foram detalhados publicamente.
A crise, portanto, representa dois problemas distintos para a entidade sul-americana: a dificuldade de acessar os recursos investidos e a interrupção de uma relação comercial com um dos patrocinadores de suas competições.
Mesmo diante dessas dificuldades, a Conmebol sustenta que sua estrutura financeira permite absorver o impacto imediato.
Dados do balanço de 2025 indicam que a confederação mantinha aproximadamente US$ 386 milhões, cerca de R$ 2,1 bilhões, em caixa e investimentos. Esse volume de recursos oferece margem financeira para cumprir os compromissos programados, embora a indisponibilidade do depósito no Ueno Bank permaneça como uma questão a ser resolvida.
As duas principais competições de clubes da América do Sul chegam às suas decisões neste mês. A final da Copa Sul-Americana está marcada para 21 de novembro, entre Atlético-MG e Boca Juniors, em Barranquilla, na Colômbia. A Libertadores terá sua decisão no dia 28, quando Palmeiras e Estudiantes se enfrentam em Montevidéu, no Uruguai.
Somadas, as premiações destinadas aos finalistas das duas competições chegam a aproximadamente US$ 44 milhões, o equivalente a R$ 239 milhões.
Na Libertadores, o campeão receberá US$ 25 milhões, enquanto o vice-campeão ficará com US$ 7 milhões. Na Sul-Americana, serão US$ 10 milhões para o vencedor e US$ 2 milhões para o segundo colocado.
A entidade afirma que os pagamentos estão garantidos e que não existe previsão de alteração no calendário das decisões em consequência da situação bancária.
O colapso do Ueno Bank também produziu consequências fora do futebol. A instituição financeira reunia aproximadamente 2,9 milhões de clientes, entre pessoas físicas e empresas, e a restrição de acesso aos depósitos desencadeou protestos e cobranças por providências das autoridades paraguaias.
Em comunicado divulgado em 3 de novembro, o Banco Central informou que os depositantes teriam direito a um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, por meio do Fundo de Garantia de Depósitos. Os valores superiores ao limite inicial seguiriam um cronograma de pagamento a ser estabelecido.
A autoridade monetária ressaltou que a crise do Ueno Bank constitui um caso específico e não representa, necessariamente, uma deterioração generalizada das instituições financeiras do Paraguai.
A repercussão também alcançou a esfera política, com manifestações, questionamentos sobre a supervisão do sistema bancário e pressão sobre o governo nacional.
No meio esportivo, jogadores da seleção paraguaia divulgaram um posicionamento público demonstrando preocupação com a população afetada. Entre os atletas envolvidos estão Gustavo Gómez, do Palmeiras, e Ángel Romero, ex-Corinthians.
Os jogadores destacaram a situação dos trabalhadores e das famílias que mantinham economias na instituição, defendendo medidas transparentes para garantir a recuperação dos recursos.
A Associação Paraguaia de Futebol também manifestou solidariedade aos afetados e informou que as competições nacionais seguiriam normalmente.
Para a Conmebol, o principal desafio imediato será acompanhar os procedimentos de recuperação dos US$ 14 milhões investidos, além de avaliar os impactos contratuais decorrentes da interrupção do patrocínio da Copa Sul-Americana.
Até o momento, a entidade mantém sua posição de que os compromissos financeiros e esportivos serão cumpridos. O desfecho do processo bancário determinará quanto do investimento poderá ser recuperado e se haverá necessidade de reconhecer perdas financeiras futuras.
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