Faço carreto para a Lua

Queria que fosse apenas um verso, mas era crítica social phoda. (Foto: Gemini)
Estava na rua e vi um letreiro no qual se lia: FAÇO CARRETO PARA A LUA. Minto. Acho que estava escrito pra lua. Eu sei, você vai duvidar, mas vi mesmo. E não era pixação nem nada. Era um letreiro. Com o número de telefone do carreiteiro e tudo. Pena que estava de carro e não deu para tirar foto. Na hora, peguei o celular e anotei para pesquisar depois. Talvez fosse um bar e não reparei. Nome criativo. Talvez fosse a obra de um desses santos tolos que ainda restam por aí. Era isso, decidi. Um verso que misturava o trivial e o surreal, com um quê de comicidade. Gostei.
Fiquei com aquilo na cabeça e, assim que cheguei em casa, fui pesquisar. “Faço carreto para a lua”, escrevi no Google. A resposta do Grande Oráculo (modo IA) foi ridícula (mas talvez eu estivesse de mau humor): “Essa é uma rota e tanto! Se você faz carreto para a Lua, com certeza não tem medo de trânsito pesado — só vai precisar desviar de alguns asteroides pelo caminho”. Dã. Daí informou que a Terra e a Lua estão separadas por 384.400km. “Se o cliente estiver com pressa, a viagem vai levar uns 3 dias. Mas se for no estilo ‘carreto econômico’, pode demorar um pouco mais”. Dã. Mil vezes dã.
Cratera Polzunov
Aí descobri o que era e se prepare para a decepção, porque a realidade é sempre inferior ao que a gente imagina. O letreiro era provavelmente plágio. Ou, sejamos generosos, a recriação de uma obra do artista Carlos Nunes, que não tenho a menor ideia de quem seja. Eis o que me informa o Google: “O trabalho integra uma série de pequenas frases que oferecem um serviço e terminam com o número de telefone do próprio artista. As frases aproximam a figura do artista às do vendedor, enganador ou sonhador e, neste caso, relacionam-se a uma sensação de esgotamento diante do momento histórico atual”.
Esgotamento do momento histórico atual. [DEDO NA GOELA] Pô, tava indo tão bem. Não podia ser apenas um verso? A piada de um santo tolo? Não. O artista teve que dizer que é es-go-ta-men-to. Pior: do momento histórico atual. Aí o que era poesia virou crítica social phoda e perdeu toda a mágica para mim, que já estava imaginando uma Fiorino espacial levando uma poltrona velha que comprei num mercado de pulgas, aqui na Terra mesmo, e que pretendia instalar na biblioteca da minha casa lunar. Que, por sinal, fica bem no meio da cratera Polzunov, a sul-sudeste da grande cratera Seyfert. Sabe onde? Sim, ali pertinho das crateras Deutsch e Olcott. Aparece um dia para me visitar.

Paulo Polzonoff Jr.
Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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