Campo Grande News
Filhote de arara-vermelha ganha ajuda dos vizinhos após perder ninho
Um filhote de arara-vermelha mobilizou vizinhos do Bairro Santo Amaro, em Campo Grande, depois que uma forte chuva derrubou a palmeira onde ficava seu ninho. Enquanto a ave aprendia a voar, moradores acompanharam suas tentativas e avisaram pesquisadores quando ela precisava de ajuda. Agora, segundo a equipe, as araras já voaram e não estão mais no ninho. A história tem uma particularidade: foi nesse local que o Instituto Arara Azul documentou, pela primeira vez, um ninho ativo de arara-vermelha na área urbana da Capital. O comportamento discreto da espécie, que costuma escolher lugares mais escondidos para se reproduzir, surpreendeu os pesquisadores. Equipe acompanhava o casal e seus dois filhotes desde junho. O mais velho já havia deixado o ninho quando a palmeira caiu, em 24 de outubro. O segundo ainda estava dentro e tentou voar durante a vistoria da PMA (Polícia Militar Ambiental), mas acabou no chão. Os policiais resgataram a ave e a encaminharam ao Cras (Centro de Reabilitação de Animais Silvestres). Uma anilha de identificação permitiu reconhecer o filhote e localizar os pesquisadores responsáveis pelo acompanhamento. A equipe buscou o animal e o transferiu para uma palmeira próxima, onde preparou uma abertura lateral no ninho para acomodá-lo. Durante o trabalho, os pais permaneceram por perto. Segundo os pesquisadores, manter o filhote na mesma área ajuda a preservar o contato com o casal. As tentativas de voo continuaram, assim como algumas quedas. Nessa fase, os vizinhos contribuíram com o acompanhamento, conta a bióloga Larissa Tinoco, coordenadora de campo do projeto Aves Urbanas - Araras na Cidade. “Nos últimos dias, fizemos um manejo e colocamos o filhote em uma árvore. Já tinha uma moradora ali, filmando, registrando e observando se estava tudo bem com ele. As pessoas estão mandando mensagens, então isso é muito importante, porque elas são os nossos voluntários. São elas que vão permanecer no local após o manejo, observando, nos dando informações e enviando imagens desses indivíduos, contribuindo com a ciência”, explica. Um dos moradores que ajudaram foi Silvio Paes. Ao lado da esposa, ele ofereceu apoio aos pesquisadores e compartilhou registros das aves. “O seu Silvio Paes, junto com a esposa dele, estava ali prontamente nos ajudando com escada, com informações, observações, mostrando as fotos que eles haviam tirado em outro momento. Dando informações importantes para nossa equipe”, relata Larissa. Encontro incomum - A descoberta surpreendeu até a fundadora do instituto, Neiva Guedes, que estuda araras no Pantanal e no Cerrado há quase quatro décadas. Para ela, encontrar a espécie se reproduzindo em uma cidade com trânsito intenso e redes de fiação foi uma surpresa. “As araras-vermelhas são muito discretas na escolha dos ninhos. Elas geralmente estão mais escondidas, são menos conspícuas, menos barulhentas, se mostram muito menos que as outras duas grandes araras”, afirma. O ineditismo diz respeito aos registros do instituto: a equipe nunca havia documentado um ninho ativo de arara-vermelha na área urbana de Campo Grande. Neiva avalia que a presença do casal também levanta uma questão sobre as condições que esses animais encontram fora da cidade. Na interpretação da pesquisadora, a busca por abrigo e lugar para reprodução pode explicar a escolha. “Para mim, é instinto de sobrevivência. Como o animal não encontrou, no meio rural, ambiente adequado para a reprodução, veio procurar no ambiente urbano. E é isso que aconteceu em Campo Grande, cidade bem arborizada e rica em alimento e local de reprodução, como as palmeiras”, afirma. Olhar atento - A policial militar ambiental Michaela Coelho deu o primeiro aviso sobre o casal. Ela avistou as aves e comunicou Larissa, o que permitiu à equipe localizar o ninho e começar o monitoramento. Desde junho, os pesquisadores realizaram 13 visitas. Durante o trabalho, marcaram as aves com anilhas e medalhas de identificação, que permitem reconhecê-las em outros locais ou em situações de emergência . “O anilhamento permite, então, a gente identificar esse indivíduo, saber de onde ele veio, de qual ninho, e ano de nascimento”, explica Larissa. O instituto orienta quem avistar ninhos, filhotes ou comportamentos que chamem a atenção a compartilhar as informações com a equipe. Os registros ajudam os pesquisadores a acompanhar as aves e identificar situações de risco. O telefone informado para contato é (67) 9940-4063.
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