Gazeta do Povo
06/11/2026 13:59

Ao quase otimista Polzonoff…

supermercado otimismo pessimismo

Difícil ir ao supermercado, ver os preços subindo e ainda manter algum otimismo. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Não, Polzonoff, não acho que chegaremos a comer gatos... Ainda que, tradicionalmente, eles sejam servidos em espetinhos suspeitos, principalmente nos arredores de estádios de futebol em dia de jogo. Fora essa oferta pontual, não haverá consumo desenfreado e desesperado de “filé miau”. Espero que você considere isso uma demonstração minha de otimismo... A questão é que continuará não havendo filé, nem carne de segunda, de terceira... Não haverá bucho... Talvez voltemos ao osso, que, os petistas dizem, foi a base da alimentação de muita gente durante o governo Bolsonaro.

Uma ida ao supermercado, com a inflação dos alimentos nas alturas, tem tudo para transformar o otimismo, como um traço de personalidade, num ato quase heroico de resistência. É preciso ser muito teimoso para olhar as etiquetas dos preços e vislumbrar algo que se pareça com esperança. Seria preciso se entregar à alienação, à ignorância completa, para achar que está tudo bem. E, como jornalista, sou obrigado a viver apegado ao mundo real, fazendo perguntas intermináveis, buscando explicações, desdobramentos... E nesse ofício não cabe ingenuidade. Também não posso maquiar a realidade, inventar uma fresta de luz na escuridão.

Sentir “medinho” ou “medão” é mesmo necessário. Esse é um sentimento que ninguém deve tentar ignorar. É sempre um alerta essencial, um estimulador da observação, da concentração, da prudência, do discernimento

Como não me inclinar ao desânimo, se o Brasil continua sendo o país do futuro que nunca chega? Pior, é o país do passado, entregue a tudo o que já foi testado e fracassou. A tragédia que você também é obrigado a apontar, Polzonoff, me parece mesmo avassaladora. Não é apenas econômica, política, social, moral, é acadêmica, cultural, espiritual, estrutural... Estamos cercados de escombros. A “vitória” dos indecentes é, inevitavelmente, a derrota dos decentes. Não vejo diversão no “banquete das consequências”. Isso é impossível. Se você se entrega às vezes a um “otimismozinho”, eu não consigo. As mensagens de amigos em dificuldades financeiras, ou querendo sair do Brasil, são absolutamente destruidoras.

Sentir “medinho” ou “medão” é mesmo necessário. Esse é um sentimento que ninguém deve tentar ignorar. É sempre um alerta essencial, um estimulador da observação, da concentração, da prudência, do discernimento. Medo não é antônimo de coragem; covardia é. E, a partir deste ponto, tento transformar minha crônica... Quero rir da nossa desgraça, fazer piada, procurando o estilo dos seus textos, Polzonoff. Dei um “Gugo” atrás de anedotas sobre covardia. Nada achei que me fizesse rir... Encontrei, em seguida, referências à vontade humana, à força interior, a uma luta incessante por um amanhã diferente... E até a afirmação de que o otimismo não é um sentimento, mas “uma postura muscular perante a vida”...

Sim, venham me abraçar. Vamos todos nos abraçar. O otimismo sobreviverá no núcleo familiar, no poder da amizade, nas pequenas comunidades, na igreja, na rua, no bairro... Quero aceitar o otimismo que você me cobra, Polzonoff, como uma ação concreta para a salvação, proteção e preservação. O que não controlamos está posto. O modo como reagimos a isso é nossa decisão, ponderada, claro, não inconsequente. Eu nunca propus o imobilismo, a rendição. E rebato a referência que você faz ao meu nome, mesmo que não a tenha compreendido... Ernesto significa “combatente sério”, “aquele que batalha até a morte”. E ainda tenho o Luís, que significa “guerreiro glorioso” ou “célebre na guerra”.

Darei de mim o que for possível, ainda que concordando com Ariano Suassuna. Ele dizia o seguinte: "O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso". E, passando ao poema de Drummond, quero ter a esperança de que a flor rompa o asfalto, rasgando a rigidez do desespero. Assim lutarei, assim lutaremos... Encontrar muitas derrotas não quer dizer realmente que sejamos derrotados. São muitas batalhas, numa guerra sem fim. Não há ponto final na nossa história. Vamos nos abraçar, então, para que o otimismo seja, um dia, quando o futuro prometido finalmente chegar, uma consequência natural, inevitável da realidade.

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